Éramos um bando. De baixo poder de destruição, mas longe de sermos inofensivos. Meninos da Buarque de Macedo e arredores, fazíamos da rua, casa; e da casa, albergue com cama e comida quente – era assim sempre que as férias chegavam.

Em tempos de São João, preparávamos – com pontas de cigarro – bombas-relógio, que jogávamos nos jardins das residências onde as famílias assistiam televisão e esperavam que as fogueiras virassem brasas para assar o milho. Sustos, xingamentos, e nós com as pernas no mundo, às gargalhadas. A festa já havia começado.

Às vezes, é bem verdade, passávamos do ponto nas molecagens, e o pecado maior era ser flagrado no malfeito. Em um sábado de verão, depois de invadirmos o quintal da “garagem do Paivinha”, onde jogávamos futebol desafiando o dono do lugar, resolvemos ir um pouco além na farra. Afinal, tínhamos Carlos Rubens, um exímio tirador de coco, sem nada usar para escalar o pé da fruta – o anfitrião tinha o objeto do nosso desejo.

O jogo era no meio da rua – acreditem, a Buarque de Macedo –, e a trave era a porta da garagem, onde as marcas da bola suja de barro ficavam impressas, avisando que ali passaram vários craques. Terminada a “zorrinha” do dia, fomos à água de coco, in natura e fresquinha. Depois, uma a uma, as cascas foram fincadas no portão de tiras de madeira que dava para o quintal, bem ao lado da trave improvisada, assinando o nome do proprietário do estabelecimento: “P-a-i-v-i-n-h-a”. Pura provocação, castigada pela inesperada presença do personagem. O final de semana inteiro sem sair de casa – o saldo da traquinagem.

Mas houve aquele dia, ali pertinho, na Praça Sinimbu. O alvo era a casa do Wilson, amigo meu, do Fredão, do Marcos, do Carlos, do Vicente, do Claudinho e de tantos outros que integravam a turma que rodava Maceió inteira, à noite, em bicicletas alugadas na Pedro Monteiro. O mundo, parecia, era nosso.

Pouco depois do meio-dia, concentramo-nos em frente à Escola de Engenharia, hoje Espaço Cultural da UFAL. Sabíamos que o pai do Wilson, seu Germano, um homem cordato, atencioso e tão gentil conosco, fazia a sesta obrigatória todos os dias após o almoço. O plano, entretanto, já estava sordidamente arquitetado. Éramos dez e, disputando no par ou ímpar, estabelecemos a ordem do ataque.

Foi-se o primeiro, a tocar a campainha:

-O Wilson está?

-Não, ele saiu.

Quem atendeu foi o dono da casa, seu Germano, de pijama e louco para tirar seu cochilo. É claro que já sabíamos, bem antes, que o Wilson havia saído. Mas, menino é bicho imprestável. Fomos todos, um a um, após curtos intervalos (tempo suficiente apenas para que ele voltasse para a cama), apertando a cigarra e fazendo a mesma pergunta, até que um apoplético seu Germano, tipo alto e sanguíneo, irrompeu no meio da rua, sob o sol inclemente, em seus trajes domésticos, sem saber para onde se dirigir, mas a bradar:

-O Wilson não está, o Wilson não está, o Wilson não está, o Wilson não está!

A vizinhança não entendeu nada, e nada também dissemos. Mantivemo-nos escondidos a rir por horas a fio, impiedosos. E agora, sem mais nenhuma possibilidade de pedir desculpas àquele homem bom, trabalhador, excelente pai, mas que teve seu dia de fúria.

Graças aos meninos da Buarque de Macedo e arredores.

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Cadê o Ciço?
  • Antônio Carlos

    Prezado Ricardo Mota
    De vez em quando faz bem a alma voltar as lembranças da idade das travessuras e da irresponsabilidade permitida e engraçada.
    Valeu velho jornalista,nosso domingo fica mais leve, feliz e saudoso.

  • ARTUR

    KKKKKKKK… ERAM ESSAS E OUTRAS AS TRAVESSURAS E BRINCADEIRAS DA NOSSA GERAÇÃO. MAS A PRINCIPAL SEMPRE FOI PELADA NA PRAIA, NA CSM, FUTBOL DE SALÃO, E O MELHOR GOLEIRO NA EPOCA SE NÃO ME ENGANO ERA O XEXEU. NOSSA GERAÇÃO ERA SADIA E LIVRE DE DROGAS E VIOLENCIA, QUE SAUDADE.

  • sebastiãoiguatemyrcadenacordeiro

    Belo texto,Ricardo,me senti como se fôs-
    semos da mesma turma,tal o sincronismo de nossas brincadeiras e de nossos cos-
    tumes numa mesma época de nossa Provín-
    cia(Maceió).O berreiro apoplético do Sr.
    Germano,se multiplicava em outras víti-
    mas, insidiosamente selecionadas em nos-
    sas “inocentes”reuniões,um tanto pontu-
    ais e um tanto assíduas.Isso é inerente
    aos humanos,quem não sente prazer(cont.)

  • sebastiãoiguatemyrcadenacordeiro

    (cont)em ver alguem PEGAR AR ?E quando
    esse alguem é previamente escolhido por
    detalhes esculpidos pelas nossas diabó-
    cas entranhas infantis,é melhor ainda.
    Tem outros que têm outras predileções
    mais radicais como bater,matar e roubar.
    Fazer o que? Assim somos nós,humanos,
    imperfeitos e diversificados. ÔMI !

  • Givanildo Santos

    Ricardo Mota sempre com seus textos fantásticos.Hj estou longe de minha amada Maceió emesmo não tendo vivido essa época, você nos transporta e nos envolve sempre com seus textos fantásticos a um tempo em que as as coisas eram mais lúdicas.Vénias a Ricardo Mota!!!!

  • helder

    Obrigado Ricardo Mota! Lembrei do que já aprontei também quando criança.

  • Etevaldo Alves Amorim

    Excelente, Ricardo! Fez-me lembrar os bons tempos, na minha querida Pão de Açúcar.

  • Álvaro José Menezes da Costa

    Caro Ricardo,boas lembranças do colega Wilson,que participava daqueles alegres e bem disputados rachas na praia da Avenida, quando a maré baixava e ficávamos com uma faixa de areia onde a bola corria livre e rápida. Boas lembranças do Carlos Rubens, não só exímio tirador de coco,como também um mestre na “arte” de tirar onda com todo mundo.Quem não lembra do refrão com os pobres vigias da rua Godofrêdo Ferro e adjagências:galo canta,macaco assobia,….
    Abraços

  • Silvio Leite Borges

    Parabéns meu caro amigo Ricardo Mota, recordar é viver, pena que nossos filhos e netos, não possam usufruir hoje daquelas brincadeiras sadias, de sentir em todas as brincadeiras os pés sujos do chão no qual nós brincavamos e que as vezes levamos algumas palmadas dos nossos pais, mas que eram compreensivas por nós.

  • Frederico Farias

    Por falar em bando, que tal falar do bando – e põe bando nisto – da França Morel?
    Dos saudosos Bia, Pajé, Neguinho (Paulo), Vavá (meu eterno desafeto – não podímaos olhar um para o outro, pois já saíamos aos tapas, para, depois, juntos, sentarmos em algum lugar para tomar “pinga” com tiragosto de tatuí torrado colhido na praia da Avenida)
    Que tal lembrar dos porres oceânicos (ou seriam tsunâmicos?) que, juntos, tomamos no Bar do Xaréu, na Barão de Atalaia?
    Sobre a Praça Sinimbu, a lamentar que, em nada, se pareça com aqueles tempos, já que hoje ela se degrada em criminoso abandono e abjeta imundice.
    Uma pena.
    Em tempos “politicamente corretos” e prenhes de hipocrisia não há mais espaço para tais estripolias.
    Lamentável…como diria Paulo Mendes Campos: “antigamente as coisas eram piores, mas depois foram piorando, piorando, piorando…”

  • Tadeu Wanderley

    Caro Ricardo, um texto desses traz lembranças do meu passado. Eramos meio visinhos, já que morava na Av. Walter Ananias (antiga Av. Maceió) continuidade da Av. Buarque de Macedo. Na Av.Comendador Leão, quando adolescente (no início da década de 70) juntava-me a João Pontes, Carlos, Misso, Jerônimo Roberto, Sandro e a outros tantos para conversarmos e nos divertirmos. Naquela época tinhamos três vícios: jogar bola todos os sábados à tarde na praia da Avenida da Paz (a praia mais bela de Maceió); ir ao cinema PLAZA no domigo à tarde no Poço (grandes lembranças) e jogar gamão nas calçadas da Comendador Leão (aprendi com o “seu” Rocalho). Droga e violênica já existiam, mas a formação que recebiamos de nossos pais não nos permitia inveredar por esse caminho. As famílias eram melhor estruturadas ética e religiosamente. Bons tempos aqueles; quem saiba valha a máxima: ERAMOS FELIZES E NÃO SABIAMOS.

  • helvio peixoto

    Ricardo, como é bom lêr suas histórias da Buarque de Macêdo, pois lembro-me saudosamente das segundas, lá na ESSO,quando seu MOTA ficava a me contar estes fatos; ali ele deixava exalar o carinho, apreço e cuidado para com o filho Ricardo…parabéns…

  • Paulo Sérgio Moreira

    Ricardo, voce sempre com seus tocantes escritos domingueiros. Esse, especialmente, me fez voltar no tempo e lembrar dos tempos de menino na antiga Praça da Cadeia, centro de Maceió, bem perto da “sua” Buarque de Macedo. Lembrei-me, ao ler seu texto de hoje, que durante toda minha meninice eu pedia à minha mãe para passar as férias de verão com minha avó. Era uma casinha branca, de portas e janelas vermelhas (talvez daí meu amor pelo CRB), sempre bem pintadas e cuidadas. Quando o sol se aninhava no horizonte, vovó colocava sua cadeira de balanço na calçada. A imagem dela, embalando seus sonhos naquela cadeira, nunca saiu do meu coração. Ali, na Praça da Cadeia, minha avó era uma rainha, a dona do pedaço. Eu nunca me esqueço dela, na calçada da Cadeia Pública, que ficava em frente à sua casa, conversando com os detentos, que se aglomeravam nas janelas gradeadas do presídio para usufruírem da brisa da liberdade perdida e do contato com aquela mulher fascinante e sábia.
    Recordo agora o rosto alvo de minha avó, emoldurado por seu sorriso generoso. Católica fervorosa, ela ensinou-me o catecismo. Com ela, minha relação aprofundei minha relação amorosa com Deus e compreendi a importância do amor simples a todas as criaturas.
    Certo dia, recebi a notícia que minha vó havia se recolhido para dormir e não mais acordara. Com o coração despedaçado de tristeza, dirigi-me àquela praça e àquela casa que diziam tanto de minha vida e de nós dois. Cheguei. Olhei para a praça, para o presídio, para as pessoas que passavam e para a casa branca de portas e janelas vermelhas.
    À primeira vista, tudo parecia igual, mas eu sabia que aquele lugar nunca mais seria o mesmo. Era somente uma praça e uma casa bonita e bem cuidada, repleta de lembranças. Afinal,a mulher mais importante do lugar havia subido às estrelas para se encontrar com Deus, enchendo o céu de bondade e as nuvens de luz.
    Parabéns pelo texto e obrigado por me fazer viajar no tempo e afagar a imagem de minha avó que tanto amei!

  • AAraujosilva

    Ricardo, meu caro jovem, suas estórias
    dos derredores da Buarque de Macedo são
    supimpas. Quantas reminiscências boas,
    maravilhosas, atestadas prontamente pelo camarada Fred e outros pivetes de então. Bom que seu bando, um bando bom de folgazões, o tenha como escriba-mor; suas aventuras e desventuras serão eternizadas por sua encantadora pena. Parabéns, Ricardo !

  • HEYDER PEREIRA CAMPOS

    MESTRE, OBRIGADO. FEZ-ME SENTIR CRIANÇA NOVAMENTE. COISA QUE QUASE ME ESQUECIA, TALVEZ PELO DUROS EMBATES DA VIDA. MAS AINDA SOU CAPAZ DE SER CRIANÇA, AQUI MESMO, NO SEU BLOG. APENAS PELO PRAZER DE RIR. PARA DENTRO…

  • joão carlos dos santos

    Parabéns Ricardo Mota, esse texto é simplesmente lindo.”Oh! que saudades que eu tenha da minha infância querida”

  • José Carlos Malta Marques

    Meu Caro Ricardo:
    Parabéns pelo texto. No interior não era diferente. Olhei para dentro de mim e para traz lendo seu texto, lembrando-me de minha querida Santana. Efetivamente éramos felizes e nem pensávamos, imagine se sabíamos. É, realmente antigamente era pior mas, piorou muito… Um abraço, irmão!

  • Taís Braga

    Felizes somos nós, alagoanos de Maceió, que tivemos o privilégio de “viver em bandos” e de conviver com “bandos” da melhor qualidade. Que nos ensinaram o valor da amizade e das coisas simples – as mais importantes das nossas vidas.
    Ao Tadeu Wanderley, meu agradecimento por me fazer recordar do meu tio-avô Rocailhe, que jogava gamão e morava na Comendador Leão. Não sabia que o ensinava aos meninos. Sorte sua! Nunca entendi o jogo, que também era uma grande diversão para o meu avô, “seu” Braga, que morava na Rua do Hospital, pertinho da Praça da Cadeia, onde morou a avozinha do Paulo Sérgio Moreira. Muito me comoveu a sua lembrança.

  • Mariana Lima

    Jogar bola em plena Buarque de Macedo (ok, aos fins de semana) não é nem denunciar a idade, é proclamar que pertence à velha guarda (ou, em termos mais modernos, old school).

  • EDER ANTUNES

    Caro Ricardo, que saudades destes tempos!
    Pena que hoje as brincadeiras não são tão simples. Lamento quando leio nos jornais que jovens se matão por bobagens. Lembro que no colégio, eu estudava no saudoso Colégio Sagrada Família, da grande professora Zezé Loureiro, “discutíamos” e logo aquela frase: “Me espere na saída”. Algumas tapinhas, palavrões, colegas separando e o famoso: “To de mal”, mas durava pouco, tínhamos tempo de pensar, pedir desculpas e logo o “desafeto” se tornava o melhor amigo. Lamento que os jovens de hoje não se dêem o tempo de pedir desculpas e partam para agressão e muitas vezes morte.
    Lembro muito bem dos tempos da “pracinha” onde o padre Petrucio sofria com nossas “traquinagens”. Acho que você ainda lembra, lá, também fazíamos de campo de futebol em hora de missa.
    Você esqueceu que tínhamos nossos momentos musicais, ou seja, chamávamos o Ricardo Mota para tocar seu violão e cantar. Esse talvez tenha sido o momento que ficávamos mais calmos.
    Quanto a Praça Sinibú, todos os dias passo por ela, inda para academia e confesso minha tristeza em vê-la esquecida, entregue a vândalos, completamente destruída, aquela que no passado foi uma das mais belas Praça de Maceió, ponto de encontro de amigos, Bate papo informais entre intelectuais.
    Grande abraço!

  • José de Oliveira Junior

    Que texto belíssimo, sou sociologo e escrvi minha dissertação sobre o bairro de Ponta Grossa, ler sua história me fez lembrar um tempo de Maceió que não vivi, mas senti como se lá estivesse.Recetemento perdi minha avó querida, e lembrei-me das histórias que me contava sobre o bairro de ponta grossa. Como é bom lembrar. Rememorar. Abraços

  • Profeta do Óbvio

    Saudades…….. Essa é a palavra certa para tudo isso, pena que hoje o que vemos são nossos jovens se drogando cada vez mais cedo.

  • NELMA BARROS

    Caro Ricardo…as suas lembranças me fizeram rir, até chorar, que meninos presepeiros. Minha infância também foi assim, com menos travessuras, mas igualmente saudável. Parabéns por aliviar nossos dias de horários políticos com um texto tão leve. Abraços de sua admiradora.

  • tania

    Ricardo,como sempre seus textos aos domingos são tão bons que logo cedo já fico querendo entrar no PC…o desse domingo me fez voltar a minha adolescencia, lá na pçc. da faculdade, dezembro de festas o mes todo na praça, as paqueras, o auto falante que tranmitia os recados para as moças e rapazes por um simples trocado rss… a sorveteria pif- paf na esquina, a calçada cheia de gente tomando sorvete ou tomando uma cervejinha…. bons tempos aquele onde não tinhamos medo de nada, as drogas ainda não existiam no pedaço… agora qdo passo na pça da faculdade da pena de ver que ali aconteceu muita coisa boa para os “jovens da minha idade”, muitos casamentos sairam daquelas festas de natal e muita gente que fugia exatamente no dia de natal ou no dia de ano novo rsss… pra casar rss, bons tempos.

  • Napoleão de Oliveira

    Quero saudá-lo pelo belo texto, Ricardo.
    Parece que há um universalismo quando se trata de travessuras de jovens adolescentes, principalmente da sua época – que também é a minha.
    Mas, aqui para nós: fosse eu o ‘seu’ Germano também perderia as estribeiras!

  • Alagoano

    ESSA NOVELA DA IMPUGNAÇÃO DA CANDIDATU-
    RA DE LESSA, NÃO ACABA NUNCA.
    ISSO É UMA VERGONHA, TANTOS POLÍTICOS
    JÁ APRONTARAM INFINITAS ATROCIDADES, E
    SÃO FICHAS LIMPAS!!!
    ISSO JÁ VIROU UMA GRANDE PIADA E UMA
    GRANDE PERSEGUIÇÃO.

  • Giuseppe Gomes

    Caro Ricardo: chegando do interior, pude ter um pouco da alegria que me contagiava dos amigos da capital. Na Ladeira da Catedral, aprontávamos as nossas e a vítima principal era sempre o Pe. Salomão (a gente tomava vinho e o tira-gosto eram as espártulas), além dos gostosos rachas do sábado à tarde, no time do Washington. À noite, a missa dos jovens e as paqueras no vai e vem das vitrines do Comércio e da Praça Deodoro. Que inocência benéfica. Hoje, voltando à minha Pão de Açúcar, vejo nos jovens (infelizmente), a maldade dos perversos, a procura pela exclusão de valores que agregamos às nossas vidas, pelas coisas simples, como as traquinagens em busca do riso.Obrigado, escriba, por nos enviar esta bela passagem na máquina do tempo que voce tão bem constrói em nossas vidas.