Era com uma ansiedade incontida que eu esperava os lançamentos em vinil, de final de ano principalmente, daqueles que já eram meus ídolos, aí pelos anos de 1970. A MPB vivia um dos seus momentos mais ricos, com uma geração de compositores em tudo diferenciada. Com ela, grandes intérpretes, que até hoje embalam as nossas vidas.

Elis Regina sempre foi a minha preferida. Cantora visceral, em cada música deixava um pouco do seu corpo e da sua alma, o que lhe custava muito, certamente, em suor e emoção – ninguém canta daquele jeito impunemente. A pequenina gaúcha, dentes sempre à mostra, começou nos palcos de Porto Alegre imitando sem nenhum pudor Ângela Maria, a “Sapoti”, a quem dedicava derramados elogios (o que era raro em se tratando de cantoras – coisa de diva). Aos 15 anos de idade já fazia seu primeiro contrato como artista, condição que viveu intensamente durante pouco mais de duas décadas.

Quanto morreu, aos 36 anos, em 1982, já era a atormentada “Pimentinha”, apelido que lhe deu Vinícius de Moraes, pelo seu jeito serelepe e bom de briga (nos camarins da Record, na Era dos Festivais, teve de ouvir muitas e más de Stella Maris, mãe de Nana Caymmi, a quem ela hostilizava por puro despeito). Com relacionamentos amorosos tempestuosos, dois casamentos que não se sustentaram – com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano-, Elis foi uma mulher que “errou na dose, errou no amor”, mas deixou uma obra única.

Em 1965, quando venceu o I Festival da TV Excelsior defendendo “Arrastão” (Edu Lobo e Vinícius de Moraes), já havia conquistado o país com sua voz marcante e jeito especial de dominar o público. Virou, então, “Eliscóptero” por causa da sua interpretação – girando os braços sem parar – da bela canção da dupla de gigantes da MPB. É verdade que Edu Lobo estava apenas começando a carreira de compositor, mas já ali a gauchinha acenava com o que seria uma das suas marcas essenciais: a de descobridora de talentos.

Na relação: Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc, Belchior, Renato Teixeira e até Zé Rodrix, a quem ouviu num dos festivais, já em pleno AI-5, interpretando “Casa no campo”. A música não foi tão bem avaliada pelos jurados, mas chamou a atenção de Elis. Resultado: sucesso definitivo.

Seu ouvido privilegiado e de inegável bom gosto ajudou a fazer de Milton, mineirinho tímido, negro de carapinha discreta, um dos nomes consagrados da MPB. Ele conheceu aquela que viria a ser a sua musa inspiradora na casa de alguns amigos, em São Paulo. A pedido, mostrou algumas canções, e parecia que Elis não dera muita bola. Um ano depois, num encontro casual, ela surpreendeu-o, cantarolando os versos que ouvira, apenas na aparência, despretensiosamente. Daí em diante, os dois não pararam mais de se encontrar – um casamento que só a música seria capaz de realizar.

Mas, Elis também gravava os compositores consagrados. Deu interpretação definitiva, por exemplo, a “Tatuagem”, de Chico Buarque de Holanda; gravou com Tom Jobim, em 1974, um disco que se tornou antológico e que carrega uma modernidade que desconhece o passar dos anos; resgatou do esquecimento Adoniran Barbosa, na deliciosa interpretação a dois de “Tiro ao Álvaro” (parceria do amigo do “Arnesto” com Osvaldo Moles) – a “Pimentinha” sabia ser generosa.

Mas, naquele fatídico 19 de janeiro de 1982, quando ela silenciou, Milton Nascimento era uma alma em pedaços. Seu depoimento foi de uma sinceridade doída, uma declaração de amor eterno:

-Todas as canções que eu faço são para ela.

Num exercício de imaginação, tento ouvi-la cantando cada uma das suas músicas que vieram depois. Elis continua inigualável.

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Tem, mas está faltando
  • ROBSON COSTA

    Ricardo Mota, você conseque sintetizar como ninguém uma vida inteira, como fâ incondicional da boa música popular brasileira, incluisive de suas composições, sempre que o vejo falar e escrever sobre o tema, sempre me deleito. Continui assim.
    PS: Acho que você conhece, mas vou sugerir assim mesmo, “A Era dos Festivais , de Zuza Homem de Melo.
    Parabéns.

  • Plinio Lins

    A interpretação de Elis era, ainda é, emoção pura. Ela tinha voz, balanço e bom-gosto até para chorar e rir. Gravou canções inesquecíveis aos prantos (Atrás da porta, de Chico) e caindo na gargalhada (Quaquaraquaquá, de Baden, Águas de Março, dueto com Tom). Teve bom-gosto até para escolher quem ia imitar, sua ídola, a grande Ângela Maria.
    Elis Regina era paixão na veia. Ainda é.

  • Marcos Valério

    A voz de Elis foi inagualável, pôs na interpertação de vários compositores sentido emocional que fez viva a própria composição.
    Não conheço intérprete brasileira melhor, os nunces emprestados a letra da canção seduziram a todos. Não foi somente uma voz, mas também um espírito integral musical/emocional que nos conquistou.

  • VALTENOR LEONCIO DA SILVA

    Amigo Ricardo,
    Elis Regina era um show de interpretação.Como uma sugestão para os seus leitores segue o link abaixo. Elis e o grande Adoniran Barbosa. (É VIDEO)

    http://www.almacarioca.com.br/arte059.htm

    UM ABRAÇO FORTE DO AMIGO,

    VALTENOR LEONCIO

  • Dakson Pereira

    Tudo o que se faz com o coração, sai inigualável. É isso que ainda hoje diferencia Elis Regina.

  • TANIA

    OTIMO COMENTARIO SOBRE ELLIS REGINA…. APROVEITANDO ESSE ESPAÇO GOSTARIA DE COMENTAR O ATENDIMENTO AO DEFICIENTE AUDITIVO NA OTOMED/ARAPIRACA…AMBIENTE SAUDAVEL, LIMPO,PESSOAS ATENDENDO COM ATITUDE E MEDICOS EXTREMAMENTE ATENCIOSOS E TUDO PELO SUS, VC PENSA QUE ESTA NUMA CLINICA PARTICULAR EM MACEIO…QUE OUTROS SERVIÇOS DO SUS VISITEM A OTOMED E PROCUREM CHEGAR PERTO NA FORMA HUMANIZADA QUE EH O ATENDIMENTO NAQUELA INSTITUIÇÃO.

  • Elizabete Patriota

    Apesar das belíssimas vozes femininas que temos, Elis continua inesquecível, não apenas pela beleza das canções que interpretava, mas pelo modo como as cantava. Você tem razão, ela era visceral, dramática e única. Não passou e nem passará. Felizmente para nós e para os que virão depois de nós. Ósculos!

  • Eliseu Gomes

    Olá Ricardo,é aqui que os amigos se encontram,além Plinio.A comemoração da vitória dos Sandinistas foi no escritório do Samuel em São Paulo,lá estava a Pimentinha.Seu canto,de uma irreverência efervescênte só comparavel a Mireille Mathieu.Quem não conhece vale a pena conferir.

  • O pimentinha.

    No governo pimentinha do FHC, sociólogo despreparado para governar o Brasil, recebe uma dívida pública do antecessor Itamar Franco de R$ 61 Bilhões, prestem atenção nós que votamos errado, ele FHC, PAGA só de Juros apenas R$ 278 Bilhões!!! Quase nada, mas deixa para o seu sucessor R$ 645 Bilhões de dívida!!! Não registramos um pequeno detalhe, que as privatizações renderam mais do que a dívida deixada por Itamar Franco de R$ 60 Bilhões, o que quer dizer que o FHC apurou cerca de R$ 70/110 Bilhões, mais do que suficiente para quitar a dívida de R$ 60 Bilhões e de um momento para outro vem as desculpas de que foi o spread bancário, que foi o petróleo, etc. Agora, se FHC tivesse a visão do PENSAR GRANDE, o nosso Brasil seria sem sombras de dúvidas a 4ª potência mundial. Mas preferiu não ser o presidente da maioria do povo brasileiro e sim presidente dos poucos (RICOS) com tudo e dos muitos (POBRES) sem nada. Este é o verdadeiro FHC perdido no caminho da vaidade do pensar pequeno, e eu que votei nele! Eita infeliz! Ele nos enganou também e vcs. não percam o 2º Ato, porque continua com o outro pimentinha…
    P/Arabutan.

  • José

    Proposta de Lei que cria 79 vagas de assistente de juiz é inconstitucional.
    Fere o Art. 37 incisos II. e V. é a volta do nepotismo. E desrespeito a EC nº45. que proibe a contratação de parentes. Se existe vagas deve-se fazer concurso e não deixar na mão do juiz essa decisão de livre indicação ferindo o príncipio da impessoalidade.
    É triste isso!

  • Jorge Barros

    Elis Regina foi, sem dúvida alguma, a mais importante cantora deste país, sem, no entanto, desmerecer as demais cantoras brasileiras.
    Sua técnica vocal era mais que perfeita. Cantava com sublime emoção. Ela era a própria música; a própria voz; o próprio canto.
    Ouvir e ver Elis, através dos CDs e DVDs, é sentir-se embalado na lembrança que o tempo nos traz.
    Parabéns Ricardo Mota, pelo excelente e oportuno texto.

  • O outro pimentinha.

    O 2º Ato da peça “Me engana que gosto”, abrem as cortinas do palco e Lula recebe do seu antecessor uma dívida de R$ 645 Bilhões, já PAGOU de Juros nada mais do que R$ 798,5 Bilhões até 31/março/2010, como hoje são 31/maio/2010 são apenas 2 meses sem informações do qto. foi PAGO, nem “Contas Abertas” e muito menos o “Portal da Transparência” confirmam o PAGO de 01/abril/2010 a 31/maio/2010, mas calculamos que a porrada nos brasileiros já atingiu uns R$ 25 Bilhões, que estimamos ter sido PAGO até hoje cerca de R$ 829 Bilhões só de Juros, e que ainda devemos + de R$ 2,2 Trilhões, R$ 2,2 Trilhões, R$ 2,2 Trilhões!!! Tal feito gerou a inconsequência na contrapartida do DESgoverno Lula, mais de 430.000 mortes por Violência, porque o Dr. Lula só gastou R$ 40 Bilhões em Segurança (Ministério da Justiça), mas PAGOU R$ 829 Bilhões de Juros. E ainda temos mais de 40.000.000 de brasileiros passando Fome, num Brasil meramente agrícola e com vocação para produzir alimentos, porque Lula só gastou tão somente R$ 112 Bilhões no Combate a Fome, mas PAGOU R$ 829 Bilhões de Juros. Você Eleitor, com todo respeito, qual a sua resposta? Com certeza dentro da visão do pensar pequeno é tudo pq. votamos de maneira errada, mas no Pensar Grande é a falta de divisão equânime das riquezas produzidas por vcs. na geração de impostos, com poucos (RICOS) com tudo e muitos (POBRES) sem nada! Já no somatório de FHC+Lula, no bom sentido, os pimentinhas, pagaram apenas R$ 1,1 Trilhão, R$ 1,1 Trilhão, R$ 1,1 Trilhão só de Juros, Juros, Juros e se a metade fosse aplicado em Cidadania (Educação, saúde, segurança, 1º emprego…) certamente seríamos a 4º potência no mundo. Mas eles estão na contra do governar para o povo (191.000.000 de brasileiros), tirando da Cidadania justamente da educação, saúde, segurança, etc, recursos orçamentários para pagar Juros via o tal de superávit primário, a uma minoria de 10/12.000 famílias! É a barbárie cometida neste país chamado Brasil cuja maioria dos eleitores são do pensar pequeno que se enganam com bana e bolo. Mas temos a saída, é no momento do votar, pensar na sua FAMÍLIA, FILHOS e NETOS, aí vc. vota certo. P/Arabutan.

  • Marcos Guimarães

    Camara Ricardo, muito bom o seu artigo. Ouvir Elis faz bem pra o corpo, pra mente e o coração. Concordo quando você diz que a pimentinha era diferenciada. Embora o nosso Brasil seja rico em grandes vozes femininas, como: Elizeth, Nana Caymmi, Gal Costa, Leila Pinheiro e tantas outras. Elis Regina tinha um algo mais. Se não tivesse nos deixado tão cedo com certeza teria gravado o nosso Djavan. Parabéns!
    Marcos Guimarães

  • ADRIANO LEMOS

    CARO RICARDO, VALE RESSALTAR QUE ALEM DE TUDO QUE FOI DITO, ELLIS REPRESENTAVA A REBELDIA E CLARO O DESEJO DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO TÃO SONHADO PARA AQUELES DIAS DE REPRESSÃO…A LEMBRANÇA DO SEU SORRISO E SUAS LAGRIMAS ALIMENTAM NOSSAS ALMAS AINDA HOJE, PARABENS PELO TEXTO. UM ABRAÇO.