Em 5 de junho de 1983, entrou no ar a TV Manchete. Com o slogan “Televisão de primeira classe”, foi a tentativa do Grupo Bloch de invadir o território dominado pela poderosa Vênus Platinada. De fato, foi algo novo, com uma grade de programação de bom gosto, onde se destacavam “Conexão Internacional” e o excelente “Bar Academia”, inviáveis à TV aberta dos tempos de agora. Mas foi, também, mais uma aventura do clã de judeus russos, que aportou no Brasil no início da década de 1920, chefiado pelo patriarca Joseph Bloch.

No agradável “Os irmãos Karamabloch”, o jornalista e escritor Arnaldo Bloch narra, mais do que uma saga familiar, a “ascensão e queda de um império” de comunicação. E é impiedoso com os seus ascendentes. Como a maioria dos capitães da indústria de comunicação no Brasil, o “tio Adolpho” era um gênio das finanças…caóticas. Mas terminou por se enredar na teia de credores que colecionou. Acostumado a lidar com papagaios, promissórias e assemelhados, o “despótico” e mais importante membro do clã, nos conta Arnaldo Bloch em passagens risíveis, entrou na seara televisa sem lenço e, muitas vezes, sem documento. Quebrou, definitivamente, nos agora distantes anos de 1990.

Não era para menos. Já em 1961, ao receber o então vice- presidente João Goulart para um almoço, na sede da revista Manchete, Adolpho Bloch mostrou suas armas. Apresentou a  maquete do novo prédio da empresa, projetado por Oscar Niemeyer. Diante da grandiosidade da obra, Jango fez o que seria a pergunta mais sensata:

-Adolpho, você está preparado financeiramente para esse projeto?

-Meu problema é arranjar dinheiro para comprar as estampilhas para as promissórias.

Assim construíra o seu império de papel: em maquinações só dominadas pelos que negociam com dinheiro virtual. E conseguiu muito com suas mágicas, sem abrir mão das “fraquezas” dos deveras crentes. Até, pasmem!, um banqueiro, Magalhães Pinto – ele mesmo, um dos braços civis do golpe militar de 1964 –, caiu na lábia do surpreendente imigrante.

Numa visita a Roma, quase dez anos antes, Adolpho encontrou-se com o poeta, escritor e jornalista Paulo Mendes Campos e convidou-o para assistir a uma das aparições de Pio XII, no Vaticano. Ante a resistência do seu funcionário, que argumentava com a condição de ambos, “judeu e poeta”, foi incisivo:

-Judeu, poeta, todo mundo tem que ver o papa.

Foram. A vívida atenção de Adolpho Bloch, entretanto, deixou Paulo Mendes Campos intrigado por vários dias. Qual seria o significado daquela manifestação de fé, com o timoneiro do Grupo Manchete a exibir um maço de papéis em direção a Sua Santidade?

A resposta viria dias depois, já no Brasil. Adolpho Bloch fez uma ligação para Magalhães Pinto – o poeta ao seu lado:

-Magalhães, espera um minutinho que o Paulo Mendes Campos vai falar.

E, em seguida:

-Diz pra ele, Paulinho, quem abençoou as duplicatas.

-Foi o papa (!!!).

O próprio banqueiro endossou, pessoalmente, a papelada.

O triste fim se apresentou inexorável no governo do presidente Collor, cujos olhos – escreve Arnaldo Bloch – assustavam o “tio Adolpho”. Seria injusto atribuir ao senador por Alagoas a derrocada do império familiar, mas o escritor registrou o que teria sido o último encontro entre o dono da Manchete e o chefe da Nação:

-Presidente, eu estou no fim.

-O senhor está no fim e eu estou no começo. Com licença.

 

Nota do Diretório do PT - O blog responde
"Honestamente, nunca se matou tanto em Alagoas"
  • fred

    Lembra da era COLLOR é reviver um sofrimento em que, muitos alagoanos ainda infelizmente não se ateve. Os nossos mandatários tem em suas mãos o PODER de decidir, e normalmente massacra o nosso povo com atitudes que não dignifica os nossos valores pessoais. Gente não esqueçam de lê a história da ROMA ANTIGA, e tira suas dúvidas sobre qualquer politico ou politica, pois nada, mais sinceramente nada mudou.

  • Mario-To

    Grande Ricardo.Esse espaço ta ficando cada vez melhor.Parabéns pelas opiniões sensatas,imparciais e sempre embasadas pelo tão necessário bom senso.O poder quase ilimitado que um grupo de comunicação pode trazer a seu detentor justifica as atitudes tresloucadas do Sr. Adolfo Bloch.

  • AAraujosilva

    MCRicardo, resposta tipicamente collorida; mormente, para quem estava (e continua) sob os tentáculos da mídia global …

  • Hagá

    Muitos ex-empregados da Mancheter permaneceram aguardando receber seus direitos, aguardando, aguardando… Essa parte não tem a menor graça.

  • Valdeck

    A história de Adolfo Bloch realmente é típica de ser contada por Dostoievski, mas me assusta a quantidade de concessões à rádio e televisão à políticos que não tem nenhum veio jornalístico, nem compromisso político para empreender um jornal escrito, televisivo ou radiofônico. Recentemente, a afiliada do SBT aqui em Alagoas, sem escrúpulo algum colocou seu interesse financeiro, em detrimento aos telespectadores,arrendando todo seu espaço à uma igreja evangélica. Deixando com isso a opinião pública mais caolha e submissa às manchetes preparadas ao interesse de grupos políticos e empresariais locais. Onde está o Ministério Público? Pobre Alagoas.

  • Arabutan

    O TIRO PELA CULATRA DO PAPEL!
    Falar no império de papel, não é que o tiro saiu pela culatra, assisto no Canetinha, o Diretor Geral de Polícia, Delegado Barenco afirmar que em Alagoas existe carência de 74 Delegados, cerca de 500 Escrivães e outros 2.000 Agentes de Polícia, mas que não pode preencher as lacunas pq. existe a LRF, que discordo da sigla, a qual deveria ser LIF (lei da irresponsabilidade fiscal). Por acaso vcs. já viram uma lei que tenha sido criada para prejudicar uma população de 190.000.000 de brasileiros? Vcs. já perceberam que esta famigerada LRF passa por cima da Constituição Da República Federativa do Brasil, pq. tira os Direitos Sociais no seu Capítulo II – Art.6º – São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assitência aos desamparados, na forma desta Constituição (EC. n° 26/2000), ao cortar recursos do orçamento destinados a Cidadania (Segurança, educação, saúde…), para o superavit primário pagar JUROS DA DÍVIDA? Isto é uma barbárie. Pois é, esta é a LRF criada no governo do FHC (PSDB) votada pelo então senador Teotonio Vilela, hoje nosso governador (PSDB), pelo senador Renan Calheiros (PMDB), e por ironia do destino, a lei vem de encontro o combate a violência, sistematicamente induz a prática da violência, que em Alagoas são mais de 1.500 mortes/ano por violência, no Brasil + de 60.000 mortes/ano por violência, sendo 36.000 de Jovens! Esta LRF é que fez FHC após receber do antecessor Itamar Franco uma dívida de R$ 61 Bilhões, pagar só de Juros R$ 278 Bilhões, passar p/LULA uma dívida de R$ 845 Bilhões e LULA já pagar até 2009 apenas + R$ 751 Bilhões de Juros, e que os dois (FHC+LULA) pagaram nada mais do que R$ 1,03 Trilhão de Juros!!! Sim, já estava esquecendo que ainda devemos cerca de + de R$ 2 TRILHÕES!!!
    O destino é interessante? Enquanto LULA paga R$ 751 Bilhões e só gasta R$ 38 Bilhões em Segurança (Ministério da Justiça), aqui em Alagoas o Secretário Paulo Rubim fica fazendo milagre para defender o indefensável, cambater a violência com eficácia. É o retrato dos DESgovernos de FHC e LULA. Agora meu caro Eleitor, antes de votar em Dilma e Serra se ainda merecem, pense na sua FAMÍLIA, FILHOS e NETOS. Não deixem o continuismo da matança de 60 mil pessoas/ano e consumo de drogas pela nossa Jovens. Amanhã pode ser seu Filho/Neto. Vote certo em 2010.

  • Luiz Ribeiro

    Para os anais da historia, parabens pela materia,Ricardo se a midia trabalhasse mais informaçoes positivas e acabasse com jornalismo sensacionalista as pessoas seriam mais coerente e esclarecidas.