Eu conheci o cidadão  Walfrido Pedrosa de Amorim aí pela década de 1970. Quem? Desculpem-me, eu estou me referindo a Nô Pedrosa, o inconfundível anarquista alagoano, de convicções ideológicas inabaláveis. O cantinho em que ele sempre comandou a sua tropa está no Centro da cidade: a porta da Biblioteca Pública, nas redondezas da Praça Dom Pedro II. Sua voz, a mais altiva; suas frases, sentenças indiscutíveis.

É bem verdade que ele nunca foi dado ao batente, até porque não encontrou motivos, nos seus 70 anos, para engordar as contas bancárias da “burguesia”. Nem mesmos os irmãos “comunistas” Waldir e Walter – escritor que morreu no ano passado – foram poupados das suas críticas ácidas. Homem de pouca ou nenhuma posse, mora, até hoje, numa casa no bairro do Poço, sem portas ou janelas. Lá, entra e sai quem quer – ou precisa.

Acompanhei de perto alguns dos embates desse personagem, quixotesco até na aparência – magro e de cabelos desgrenhados, onde, bem parece, um pente jamais pediu passagem. Numa das vezes, na primeira metade dos anos de 1980, ele fazia seu inflamado discurso para os companheiros, sob a histórica bandeira da ideologia que (quase) sempre professou. Na faixa colocada à frente do prédio da Biblioteca, o anúncio da batalha: “Anarquistas presentes”. Foi o suficiente para que um camburão da polícia levasse o grupo e o seu líder para as celas da Delegacia de Plantão.

Eu fazia a cobertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa, que vivia tempos bem melhores, quando nos chegou o aviso da prisão de Nô Pedrosa. Seguimos para a delegacia, eu, os deputados Eduardo Bomfim, Mendonça Neto e Moacir Andrade. O delegado Barbosa, no plantão, recebeu-nos um tanto atônito com a inesperada movimentação. Argumentou:

-Mas eles estavam com uma faixa dizendo que são anarquistas! Quem faz anarquia é maloqueiro, então nós prendemos.

Depois de longa argumentação, o homem da lei foi convencido – não tenho muita convicção disso, não – de que o anarquismo é uma corrente de pensamento, assim como o comunismo e o capitalismo (já vivíamos o período da “abertura”). Nô Pedrosa pôde, então, voar de volta para o seu ninho seguro.

Duro na queda, ele manteve sempre seus laços com a arte engajada. Ajudou a trazer, para uma exibição em Maceió, um grupo teatral universitário de Sergipe. Foi bem razoável a apresentação da peça “Cordélia Brasil”, no palco do Deodoro. Terminada a sessão, um dos atores procurou o líder anarquista, com quem eu conversava no hall do teatro. O diálogo foi hilário e ao estilo:

-Nô, nós vamos dormir onde?

-Eu vou arranjar um lugar pra vocês. Vai ser numa das salas de um cursinho de um camarada nosso.

-Lá tem colchão?

-Colchão?! Vocês estão loucos! Eu fiz treinamento de guerrilha no meio do mato, dormindo na lama, e você vem falar em colchão? Mas, ora…

E havia sido assim a sua vida: o ex-comunista, quase guerrilheiro, tornara-se anarquista, mantendo a rudeza no falar e os hábitos da improvisada caserna.

Hoje, Nô Pedrosa pode ser encontrado varrendo as salas de uma escola municipal, na Mangabeiras, de segunda a sexta, às 6h da manhã. E, assim como o personagem de Gabriel García Márquez, no clássico “Ninguém Escreve ao Coronel”, continua esperando o pagamento dos salários que uma OSCIP da vida insiste em lhe dever. Mas ajudou a escrever, ao seu modo, um pedaço da história de resistência na terra das Alagoas.

 

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  • José Carlos Fernandes Neto

    A questão é como achamos a forma quase que única de entender o ser humano. Ser diferente e ter convicção antagônica a nossa é quase uma loucura. Nô é talvez único nessa forma de vida. A nossa é pelo ter a qualquer custo, como se na passagem pela terra fossemos obrigados a acumular capital e patrimônio.

  • Valdeck Gomes de Oliveira Junior

    Se Nô Pedrosa tivesse lido Milton Freedman, Gramsci, poderia ter a noção de como desmontar o capitalismo. Digo isso, porque a maioria do esquerdismo brasileiro estuda até a medula sobre Marx, Engels, mas esquecem de conhecer as teorias direitistas para melhor argumentar e desarmá-los.Maquiavel já sugeria conhecer o inimigo. Contudo, não deixa de ser uma pequena voz contra os desmandos capitalistas, hoje neoliberais.
    Meu nome: Valdeck Gomes

  • Anônimo

    Doutor NÔ !!! Para os íntimos; e íntimos todos são, daquele figuraço que é o Nô. À minha saudação
    matinal(06:33h), no cruzamento das Av. Jatiúca e Dona Constança, ele, aquela figura esquipática, sempre responde com uma boa e ferina tirada contra
    a burguesia. Até no grito o bom e irreverente Nô acerta: naquele madrugador horário estou sempre cumprindo uma tarefa de motorista da família. Cousa de pseudo-burgues …

  • Domingos Arabutan Correia da Rocha

    Fim de semana 12 assassinatos em Maceió, culpa de LULA. Em 2009 até 20/10 PAGOU a Dívida Pública R$ 515 BILHÕES e só GASTOU R$ 5,6 Bilhões com SEGURANÇA. ELEITOR VOTE CERTO em 2010.

  • José Monteiro da Silva Filho

    Ricardo, ao longo da minha vida, conheci figuras parecidas com Nô Pedrosa. E hoje, tiro lições de vida com o que a vida negou, e deu, a esses seres humanos único; valorizando minha família, meus amigos, pessoas inteligentes, que talvez não deixem história de vida como Nô Pedrosa, mas, que estarão escrevendo suas histórias. Isso é viver.