Eu andava pela Praça Sinimbu, dividido entre o medo e a curiosidade. Contava-se que por lá, de quando em vez, passava um personagem que já era famoso na cidade: o “Fura-pacote”. O tal era um garoto como eu, só que especializado em furtos; e, pelo nome, imaginava-se a forma como ele agia para colecionar as suas muitas vítimas. Ouvi, tantas vezes, relatos detalhados de quem teria testemunhado o traquinas em ação, daí a minha crescente vontade de encontrá-lo, apesar do medo. Nunca o conheci – nem sei se ele existiu de verdade -, mesmo entre os tantos outros meninos que andavam pela praça, jogando bola conosco, nos momentos em que não estavam agindo ou fugindo da polícia.

Eram tempos de batedores de carteira, descuidistas, especialistas em furtos silenciosos, artistas das mãos leves, que faziam fama na cidade e, portanto, já eram alvos preferenciais da polícia. Alguns realizavam estragos com giletes, espalhavam-se as histórias, mas nada perto da truculência e do desamor à  vida – a própria e a alheia – da meninada de hoje, grande vítima e algoz da violência dos dias que se passam.

Mesmo com a imprensa longe da instantaneidade de agora, o Brasil inteiro ia conhecendo os mitos da bandidagem dos maiores centros urbanos – Madame Satã era um deles; Meneghetti também ponteou entre os grandes.

E estava longe de ser um homem comum, o italiano batizado Gino Amleto Meneghetti. Ele chegou ao Brasil, em 1913, já trazendo no currículo duas prisões na sua terra natal: ambas por furtar frutas “para matar a fome”. Aqui fez carreira e fama como “O Gato dos Telhados”.

Seus instrumentos de trabalho eram um martelo e uma talhadeira, que usava para arrombar portas de casas, lojas, enfim, onde estivesse o seu objeto do desejo. Mas sua grande arma, sabia-se, era a capacidade de escalar paredes e andar sobre os telhados. De tão famoso – até internacionalmente -, recebeu a visita do escritor argelino Albert Camus, no presídio onde estava “hospedado” no Rio de Janeiro. À pergunta do autor de “A peste” sobre o que queria, respondeu: “Apenas um cigarro”.

Contabilizando, já, dezessete fugas da cadeia, dribles espetaculares na polícia que o cercava – em vários estados brasileiros –, trinta e cinco anos de prisão e noventa e três de existência, Meneghetti, em julho de 1970, concedeu uma entrevista-testamento ao Pasquim. Surpreendia em tudo que lhe era indagado: Livros? Havia lido mais de 700; Autor preferido? Dante Alighieri, com o longo comentário:

-O poema de Dante é fantástico quando alude aos castigos do purgatório e do inferno. Em Dante, o senhor descobre o historiador. Na época do Dante, em 1300, ele estudava e o senhor ficava sabendo da História Grega tintim por tintim. Nos poemas dele tem a História Grega, a História Romana.

E discorria sobre outros renomados da literatura, da filosofia e da ciência, a quem ele admirava por conhecer-lhes a obra: Lombroso, os positivistas, e, em especial, os homens da poesia: Castro Alves, no Brasil; Camões, em Portugal. “São todos grandes, os poetas”.  

Era firme e destemida a sua opinião sobre religião, sem poupar o Cristianismo, amplamente majoritário no Brasil e na sua Itália:

-Depois de ler a Bíblia e todos os livros sagrados eu descobri que o catolicismo é formado de mosaicos de outras religiões. No Budismo, por exemplo, também tem a Santíssima Trindade. O Evangelho tinha quarenta cópias falsificadas, não se sabia qual era a verdadeira. A Bíblia diz que Deus fez a luz, separou o mar da terra. Isso é um absurdo, anticientífico, anti-histórico, não tem lógica. O nosso planeta é um ponto insignificante do universo.

Ateu convicto, portanto, também não devotava o menor apreço aos políticos. Impiedoso, falava sobre estes:

– São indivíduos que cobiçam posições-chaves e quando chegam lá vão pegando dinheiro. Quando eles começam não têm nada, depois mandam fazer casas com vinte andares. Como é que se explica isso? A rigor, a política dos países, os políticos, tudo isso é malandragem. Eles não têm vocação, não têm humanismo, solidariedade para ajudar o povo. Eu, com a cultura que tenho, administrava o país melhor do que qualquer um.

Cego de um olho, aproveitava o que lhe restara para suas prazerosas leituras. E, impressionante, o “bom ladrão”, que tinha um filho a quem batizara de Espártaco – o líder de uma rebelião de escravos contra Roma -, acalentava ainda um sonho: retornar à Itália. E não era por causa da saudade. Se ficasse aqui, temia ser morto pelo esquadrão da Morte, muito ativo no Rio de Janeiro. Os tempos modernos assustavam, aos 93 anos, “O Gato dos Telhados”.     

 

 

Ações na área de saúde já superam as de alimentos na Defensoria Pú
O senador que bateu a minha carteira
  • AAraujosilva

    MCRicardo, nos antigamente ladrão profissional tinha glamour e, até, cultura. Nos atualmente os profissionais da política que nos assaltam impiedosa e cotidianamente(cotidiariamente!!! no linguajar deles) são asquerosos e mais “inbeciu e inginoranti”(como vocifera seu(deles) lider-mor).

  • celso

    Bons tempos em que se olhava sob a cama para surpreender o ladrão!!!

  • Antonio Carlos

    Que definição perfeita para os nossos políticos, retratou a alma de todos. Valeu

  • Antonio Carlos

    a definição sobre os políticos foi perfeita. São todos dotados dos piores sentimentos humanos, e o que pior, exercitados com muita garra,vontade e determinação contra toda a sociedade, visando tão somente o auto-benefício.

  • carlos Nepumoceno chaves

    Maravilha de texto. Duas observações: As religões de um modo geral,através de seus ensinamentos absurdos confundem o homem, muitos se tornam ateus.(Deus vingativo,Deus cansado,Deus que castiga, etc) Quanto ao Gato dos telhados, no comentário aos políticos, certíssimo.Mas isso vai mudar.

  • alberto jorge alves laranjeira

    Meu caro Ricardo é a evolução dos tempos; antigamente era o gato do telhado; hoje é o gato da política pois tem deputado comprando fiscais de outra coligação para eleger parentes… triste fim de policarpo quaresma

  • Servidora

    AMANHÃ SERÁ O GRANDE DIA, DIA D PARA O TJ, VEREMOS NO QUE VAI DAR.