Não, eu não estou zombando da pequena tragédia que foi a vida do astro pop e que terminou por levá-lo ao final tão humano. Até por causa do imenso respeito que tenho pela dor dos que o amaram de fato e sentem agora a sua morte (que, quanto mais misteriosa, “melhor” para a mídia de massa). Mas quero, sim, falar aqui sobre a espetacularização do trágico, que faz parte, hoje e como nunca, do nosso cotidiano. Os meios de comunicação de massa, a cada dia, alimentam mais e mais o gosto pelo bizarro, o teratológico, o animalesco.

“Não devemos imaginar que a razão possa jamais ser popular. Paixões e sentimentos podem se tornar populares, mas a razão sempre permanece algo restrito a poucos”. A afirmação de Goethe, pensador alemão, no século dezenove, tem sua confirmação cabal no novo milênio, e com a ajuda da tecnologia. Hoje, as redes de TV – do Brasil e do mundo – trabalham permanentemente com equipamentos que medem a audiência instantânea. Aquilo que rende público e, portanto, rende dinheiro, deve permanecer no ar tanto quanto possível. Não por acaso, os telejornais estão insuportáveis nos últimos dias (nos canais abertos ou fechados). A exclusividade do noticiário é a morte que emociona, a de Michael Jackson. Dá Ibope, dá grana – e ponto final.

Vai passar, é claro, como passaram tantas ondas, temas da moda. Ou já nos esquecemos do caso da “menina Eloá”? Pois é, foi um dia desses, mas o tempo já se encarregou de apagá-lo porque outros crimes mais chocantes, produtos das aberrações humanas, já os sucederam e com sucesso. Estupro de crianças? Quanto mais asqueroso, mais espaço na mídia. Não importa se descontextualizados, os casos. Sempre haverá, ao fim de cada “grande reportagem”, um especialista – psicólogo, sociólogo etc. – a dizer uma frase que dará legitimidade à abordagem do assunto “da hora” (Paulinho da Viola já nos ensinou que “ninguém pode explicar a vida num samba curto”).  

Os que dirigem as grandes empresas de comunicação, principalmente, podem não ter lido Goethe, mas atuam como seus melhores intérpretes. Aquilo que evoca os sentimentos de medo e de raiva da população, sem pôr em xeque o modelo de sociedade em que vivemos, é uma fonte inesgotável de negócios. Tem, inclusive, a grande vantagem de não formar a necessária consciência crítica, fundamental para a transformação.

Os jornalistas de veículos menores, de dimensão estadual, tornamo-nos reféns desse modelo perverso de lidar com os fatos. O vírus que se disseminou pelas redações dos grandes centros, por aqui faz seus estragos, demonstrando maior capacidade de contágio do que o da gripe suína (a da moda; já foi a do frango). Não defendo um jornalismo cor-de-rosa, mas o tal “jornalismo-verdade” é farsesco porque se sustenta apenas na narração – mais detalhada quanto mais cruel o fato – do acontecido. Que assistamos os noticiários, todos, indignados com o criminoso sórdido, autor da pior de todas as atrocidades já vistas – até que venha a do dia seguinte. Não há contexto que caiba no texto televisivo.

Não acho, de forma alguma, que a TV seja um mal em si. O mal está no uso que se dá, majoritariamente, a ela, transformando-a, quase que exclusivamente, em uma fábrica de consumidores. Daí, guardo a esperança de que os jornais impressos sobrevivam, investindo em artigos de fundo, análises fundamentadas, que possam nos ajudar a formar uma visão crítica do que acontece. Trazendo, também, entrevistas e/ou artigos com historiadores, sociólogos, filósofos, pensadores em geral, que se debruçam sobre a realidade o mais longe quanto possam das emoções das massas.

Nos livros, que continuam sendo fartamente produzidos (falo de gente que faz coisas sérias), podemos encontrar maior profundidade na discussão das questões que nos afligem a todos. Temos um arsenal de perguntas a fazer e devemos alimentar a curiosidade juvenil de saber não apenas o que acontece, mas, também, por que acontece. Quem sabe essa não seja uma maneira mais saudável de lidar com a dura realidade?

Quanto a Michael Jackson, uma constatação óbvia: a imprensa que não o deixou viver em paz, não haverá de permitir que ele morra em paz.

 

Ordem entrega à PF documentos de candidato que tentou fraudar exame
A vingança do menino
  • ze da silva

    concordo em genero numero e grau

  • Gustavo

    Ricardo, faço das suas as minhas palavras. A cada dia que se segue a relação inversamente proporcional “audiência x qualidade” se torna mais discrepante na sociedade de massa. Não sei, ou não quero saber, aonde vai parar isso.

  • Ricardo

    Ricardo, concordo com você e o mesmo estava comentando com membros de minha família, interessante como a mídia é e você retratou bem nesta crítica, como sempre parabéns, és um dos cérebros brilhantes em Alagoas. Merece meus singelos aplausos.

  • Pablo

    Não poderia esperar outra coisa senão este maravilhoso artigo, parabéns!!!

  • Luiz Carlos Godoy

    Também acho que a TV não seja um mal em si. Afinal, “condenar a televisão seria tão ridículo como excomungar a eletricidade e a teoria da gravidade.” (Federico Fellini)

  • Jônatas

    Parabéns pelo texto. Falta ao povo essa analise, agimos sem pensar, as vezes a notícia nem nos interessa, mas como tá na moda, fica feio não saber de nada.

  • Edinaldo Marques

    A mídia de massa bem que poderia aproveitar o caso Michael Jackson, para dizer o quanto é importante as pessoas buscarem o equilíbrio de suas 4 necessidades: corpo, coração, mente e espírito. Não teria sido isso o que causou uma morte tão prematura do astro pop?

  • Bruno Oliveira Duarte Marinho

    Concordo com tudo escrito.Parabéns! Não sei se você (Ricardo) já falou sobre a questão do diploma de jornalismo, se não, gostaria de ler uma opnião sua! obrigado!

  • Celso Tavares

    1)A cada dia torno-me mais seletivo. Assim, vejo menos os jornais etc. É espetaculoso, brutal, imoral, propicia a banalização do mal… 2)Como médico, temo os extremos: os que não se cuidam e os que pretendem atingir os 150 anos. Celso Tavares

  • Tito Mendes

    Caro Jornalista, valeu pela matéria. Voce reproduz o que de melhor há na arte de transmitir.Sinta-se convidado a nos fazer uma visita na Casa da Arte em Garça Torta.Na informaçao o que importa, é o que e o porque das coisas. O como, mais das vezes é sensacionalismo.

  • ELE

    Excelente texto. Na minha opinião: quando vc diz que o modelo midiático é perverso, digo apenas que o vil metal é a base de tudo. Eles sempre esperam que fatos mais impactantes aconteçam, pois vender é o negócio deles.

  • Luís Eduardo de M Lima

    Parabéns Jornalista Ricardo Mota. Simples e brilhante. Excelente texto e conteúdo muitíssimo pertinente. Luís Eduardo Lima.

  • Prof Yuri Brandão

    Mestre Mota, O texto não podia ser melhor: dedo na ferida, e com argumentos honestos! Destaco que, além dos jornais impressos, as colunas e blogs também são, hoje, se bem utilizados, instrumentos de boas análises etc. Abraço!

  • E NO BRASIL

    No Brasil são 164 mortes/DIA violentas (tiro, faca etc.), a mídia calada, o LULA em 2009 já PAGOU R$ 273 BILHÕES a Dívida Pública e com SEGURANÇA só GASTOU apenas R$ 2,8 bilhões. Era FELIZ e não sabia.

  • Wilson

    É Ricardo vç tem razão, mas, a massa operária não lê Goethe não entende está sua filosofia, ela se vê representada por um negro que passou alegria e venceu e a mídia via sempre o lado ruim agora sim o STF acertou pra que diploma vç diz o que sabemos.

  • adriano

    MICHAEL JACKSON FOI UM VENCENDOR DE SEU TEMPO INFLUENCIOU E INTRODUZIU A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA A SUA MUSICA UMA FUSÃO PODEROSA,DANÇAVA COMO POUCOS, INFLUENCIOU MUITOS ARTISTAS DE SEU TEMPO , ALÉM DAS FRONTEIRAS AMERICANAS

  • ADRIANO

    FALAR QUE MICHEL JACKSON SO CONSEGUIU TUDO POR CONTA DAS DROGAS ETC, É O MEMSO QUE DIZER QUE MARADONA SO FOI CRACK POR CAUSA DA COCAINA (TROCADILHO)A DROGA NAUM DEU A TECNICA A MARADONA NEM A JACKSON, NASCERAM COM ESTA CAPACIDADE

  • Sandro

    Caro Ricardo Parabéns ! É a verdade nua e crua. Simplesmente sensacional.

  • Verônica Batista

    FALAR EM GOETHE, DRUMMMOND, JOSÉ SARAMAGO, FERREIRA GULLAR e outros…Em um Estado “rico” em analfabetismo (principalmente cultural e político…) é mesmo ser água em um oásis. Parabéns pelo texto…

  • Valdemir

    Enquanto ocorre o sensacional sensacionalismo da mídia de massa, o verdadeiro noticiário que deveria ser discutido “em massa”, pouco é visto na TV: a corrupção de Sarney no Senado; a vergonhosa PEC pro… seja para quem for. Eles, os políticos, gostam da queda de um avião ou da morte de …

  • Valdemir

    Eles, os maus políticos, e o próprio Governo gostam da queda de um avião, da morte de uma grande astro, ou seja, de algo que comova o povão, pois é um meio de se fazer com que os fatos negativos sejam esquecidos pelo povão.

  • M Almeida

    O texto contem a dica de ouro: quem se incomoda com a programação medíocre das redes de televisão, leia livros. É simples! Quanto a Michel Jackson, com sua aparência e voz patéticas, é o simbolo de uma geração que consome qualquer porcaria que a mídia impõe.

  • Luiz Carlos Godoy

    Já que o assunto é televisão, parece-me oportuna a citação de uma frase (dentre tantas frases irreverentes que caracterizaram seu humor inteligente) de Groucho Marx: “Considero a televisão muito educativa. Cada vez que alguém na sala liga o aparelho vou para o quarto ler um livro.”

  • HONESTAMENTE

    Ricardo, mais uma vez parabens por mais um excelente texto. Realmente não se pode esperar muito quando temos como destaques de TV, coisas como Faustão,Ana Maria Brega,Lucianta,Gugú Pavão,Ratinho Sabidão,Adriane Viuvinha,etc. É gente de nível baixíssimo !

  • Marcos Negrão

    Estranho sua atitude de jornalista, Ricardo Mota. A imprensa vive de fatos, de noticias. Você mesmo toca sempre nos casos de gabirus e taturânicos (estranhamente, com menos intensidade ultimamente. É assim que se vende jornal.

  • rodrigo leite

    sei que não vão publicar este comntário, assim como não fizeram com o anterior. comentaram que falar de certos literatos numdesrto intelectual como nosso é água no oásis. Falar com a impropriedade que lhe característica, sobre quem quer que seja não é água, é veneno, no oásis.

  • vera frança

    Exclusivo é o seu blob com comentários tão bem ecritos e fundamentados sobre fatos sejam eles importantes ou cotidianos. Voce enobrece a imprensa alagoana e nós leitores aprendemos a analisar sobre outro prisma as notícias divulgadas na mídia.

  • INEFICÁCIA

    Ricardo Mota, a CASAL alega que vai ficar sem água a população de Maceió por falta de um DISJUNTOU, durante 6 dias. É muita INCOMPETÊNCIA não ter sobressalentes, só o FECOEPE tem R$ 50 MILHÕES disponíveis, mas o governo não tem um DISJUNTOR de reserva. INEFICÁCIA PURA!

  • michele

    vc assiste a tv se quiser e o que quiser se não te agrada loque um filme ou então desliga

  • mane

    Essa mesma midia elegeu elementos tipo: Fernando Collor

  • Fernando Andrade

    Com sua permissão,peço para citar o blog do GERALD THOMAS do dia de ontem 29,com título: Somos todos Jacksons ou quando os urubus não liberam a alma!Por favor leiam e reflitam!!!!!

  • Ruth Vasconcelos

    Ricardo, Nem tudo está perdido. Suas palavras alegram meu coração. Seu realismo não impede de nos apontar alternativas, possibilidades de posturas responsáveis no meio midiático. Agradecida pelas reflexões. Desejo que possamos viver e morrer em paz. Abraço!