Poucos civis foram tão identificados com a cara mais perversa da ditadura militar do que o ex-ministro da Justiça Armando Falcão. Autor do que seria o mantra do obscurantismo – “Nada a declarar” –, que repetia à exaustão para os jornalistas que queriam entrevistá-lo, o cearense, sempre carrancudo, usava-o para ele e deixava claro que era extensivo a toda a imprensa brasileira. Já nos primeiros meses do governo Ernesto Geisel, a Censura, sob o seu controle, baixou a determinação:

“De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação, através dos meios de comunicação social, escrito, falado e televisado, notícia, comentário, transcrição, entrevista, comparações e outras matérias relacionadas à recessão econômica. Fica igualmente proibida a divulgação de análises, resultados, ainda que hipotéticos, sobre recessão econômica”.

Meninos e meninas, isso aconteceu no Brasil e não faz muito tempo. O país saíra do “Milagre Econômico” da era Médici, e a verdade da economia não podia mais ser escondida. Mas falar sobre ela? Nem pensar. Insinuar que vivíamos uma tirania que não conseguia disfarce convincente era crime contra a Segurança Nacional. Uma charge do “filósofo” Millôr Fernandes pôs a revista Veja numa geladeira de frigorífico: Falcão obrigou a publicação a enviar a Brasília, até a noite de terça-feira, todos os textos que chegariam ao público no sábado – gelaaada!

Fez muito mais. Por conta da derrota acachapante da Arena, em 1974, baixou a “Lei Falcão”, que só permitia a foto dos candidatos na TV, já em 1976, com um pequeno e minguado currículo dos postulantes aos cargos públicos. Criador de monstros, foi também o responsável último pelo "pacote de abril" – de 1977 –, fechando o Congresso Nacional e “garantindo” a reforma do Judiciário brasileiro ao modo da caserna. Censurou peças, músicas, filmes, tudo aquilo que fosse impróprio ao povo – pelo seu conteúdo político e/ou moral. Queria cuidar dos valores da família brasileira, até porque para isso fora levado ao ministério pelo presidente Geisel.

Afinal, ele já havia demonstrado do que era capaz em plena democracia, quando ocupou, em 1961, o mesmo cargo no governo de Juscelino Kubitschek. Reprimiu estudantes e trabalhadores e recebeu o reconhecimento dos ultraconservadores tupiniquins. Numa ditadura então, sem freios, Falcão poderia exercer toda a sua truculência. Aos de cima, no entanto, demonstrava cordialidade e submissão; aos de baixo, sua força (um “ciclista”, na definição precisa dos alemães a quem ele tanto admirava quando da ascensão e glória do nazismo).

E foi esse comportamento ambíguo que o retirou do ostracismo a que estava entregue na década de 1970. Sua escolha para o Ministério da Justiça surpreendeu a muitos do entorno do general Geisel, mas a definição do presidente era por si só convincente para os moderados do regime: “O Armando Falcão é suficientemente inteligente. E é combativo e esperto para fazer o que a gente quer. Todo mundo vai se arrepiar” (e para quem quer mais “arrepios” é recomendável a leitura dos quatro volumes da obra do jornalista Elio Gaspari, a mais completa sobre os movimentos intestinos da ditadura que durou vinte anos).

Mas o cearense de Quixeramobim, nascido em 1919, já havia percorrido uma longa estrada na política nacional. Escreveu sua história com atividades que não foram exatamente nobres. Deputado federal pelo PSD, no governo JK – narra o jornalista Flávio Tavares em “O dia em que Getúlio matou Allende” (e como escreve bem!) -, Falcão especializou-se em arregimentar moças pobres do subúrbio do Rio de Janeiro, semianalfabetas, para alegrar as festas do círculo palaciano. Sim, Falcão exercia a missão de cafetão "oficial". Fez sucesso com JK e seu vice, Jango – ambos femeeiros clássicos. As meninas, mais deslumbradas que amadas, ganhavam empregos para elas e seus familiares nos institutos de aposentadoria e pensões do Governo Federal. Era, mais uma vez, o erário financiando os prazeres da carne para os poderosos.

Em 1989, já morto e enterrado o governo militar, Armando Falcão resolveu publicar suas memórias: “Tudo a declarar”. Claro que a historinha acima não consta das suas sinceras recordações. Se assim não fosse, o livro bem que poderia ter outro título – que tal o que está acima?

 

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  • BASTIÃO

    Neste país é sempre assim,prezado Peninha,ou oito ou oitenta. Ou uma ditadura sanguinária ou uma democracia fuleira e esculhambada como a atual. ESCOLHAM ! Belo texto,PARABÉNS !

  • Gerardo Fortes

    Todos estes pústulas que direta ou indiretamente participaram da infame ditadura militar no Brasil, deveriam, no mínimo, permanecerem calados.

  • Antonio de Padua Cavalcante

    Ricardo, parabéns.pelos seus serviços a JK, Armando Falção ganhou um cartório em Copacabana.E não se deve esquecer o Gama Filho – Gaminha, que era mais radical qua a milicada da extrema direita.E os revolucionários caétes?Hoje todo mundo é mocinho, mas na epóca acendiam velas para o AI-5.

  • Ricardo Moura

    Pena que tendo sido conquistado o direito de escolhermos nossos repesentantes a custa de muitas vidas de resistentes brasileiros, os políticos, na sua grande maioria, sejam picaretas e ladrões dos cofres públicos. Estão jogando a democracia no lixo e isso é muito perigoso.

  • Luiz Carlos Godoy

    “Ditadura é um discurso constante te ensinando que seus sentimentos, seus pensamentos, e desejos não têm a menor importância, e que você é um ninguém e deve viver comandado por outras pessoas que desejam e pensam por você.”

  • Luiz Carlos Godoy

    Ps1. a frase acima é do poeta e dramaturgo húngaro Stephen Vizinczey que, enquanto jovem estudante, lutou ao lado dos revolucionários húngaros contra o exército soviético. Ps2. Esse limite de 300 caracteres é, também, uma forma de ditadura. rsrs

  • Celso

    Meus Caros, O Armando Falcão não pode, assim como outros, serem julgados como “pessoas comuns”, aqueles que crescem à custa de seu esforço e sempre respeitando os princípios que regem uma sociedade decente.

  • indgnado

    esse falcão,deveria se chamar-se,pombinha de luxo.fuiiiiiiiiiiiiiii

  • Guilherme

    Eu acho que as vezes uma D…. é melhor que esta democracia bandida. Viva os de verdes.

  • AAraujosilva

    Ricardo, meu caro jovem, Seu Armando é o protótipo do fdp esférico. Fato consumado. Agora, que dizer do ardil, da velhacaria, da patifaria dos PTralhas & Cia. na pseudo-democracia que ajudaram a construir??? A truculência dos antigamente foi trocada por maior e desbragada corrupção …

  • AAraujosilva

    . . . por maior e desbragada corrupção e roubalheira na república PTista; disfarçada sob o vitupério do bolsa-voto e acalentada pelo geobleano: BraZil um País de todos …

  • M Almeida

    Extraordinario esse texto, lamento que da pena dos futuros jornalistas provavelmente não saia nada comparável. Falo da decisão do supremo sobre a desnecessariedade de formação superior para exercer a função de jornalista, uma lástima. Fica clara a influência política por tras disso.

  • M Almeida

    CONT.: Agora qualquer maloqueiro travestido de jornalista, tal qual ocorre em alagoas, usará da sua exposição na mídia para se eleger a cargos eletivos. É um absurdo uma profissão tão importante ser enxovalhada dessa maneira- qualquer cagão apedeuta se dirá jornalista, como por aqui.

  • Prof Yuri Brandão

    Meu caro, Texto excelente! Parabéns! “Nada a declarar” (a mais). Abraço!

  • Che

    Acho que o ex-Desembargador Antônio Sapucaia estudou na mesmo turma do ex-ministro Armando Falcão, pois suas medidas contra os funcionários do DETRAN-AL nos fazem relembrar uma época que a liberdade de pensamentos e expressão era combatida com métodos desumanos.

  • Che

    A máscara do ícone da moralidade alagoana está caindo!

  • Pollyanna Alves

    Nasci em 1977 e o que me assusta pareçe que nada mudou até as meninas deslumbradas continuam as mesmas. Corrupção, opressão, massacre, desrespeito. Só poucos trabalham por mudanças estou cansada. Isso vai mudar?

  • Marcos Parreco

    Ricardo, grande texto, parabéns.

  • BASTIÃO

    Formoso texto,Peninha , suas sobrancelhas em V in- vertido cada dia que passa ficam mais parecidas com as daquele saudoso ator, o Vicent Price. Mas,o que significa mesmo ser CAFETÃO? É aquela condição mais que promíscua entre PREFEITOS e VIÚVAS?

  • alagoano josé

    Este texto vrerídico nos mostra que existiu e existirá os cafetoes de gravata.Temos que observar que a prostituicäo serpenteará este país por causa dá má qualidade da nossa educäo que é a mäe da miséria.E esses politícos de meia tigela torce para que seja sempre asim.

  • gato escaldado

    Eu acho que esse ¨CHE¨ é amigão do toinho albuquerque, pois meteu o sarrafo no sapucaia, aí garoto saiba que se não fosse o sapucaia, esses larapios estariam estorquindo o povo alagoano. blz?

  • GERALDO FREIRe

    Ricardo, aproveitemos sua expressão: mais uma vez o erário financiando os prazeres da carne e rememorizemos : Mônica Veloso e o Rei do Gado ( Renan Calheiros). Concorda?