É claro que o título acima aparece apenas como uma pequena provocação. Mas quantas vezes não ouvimos o substantivo “moreno” para identificar um negro? Soa próximo a um pedido de desculpas, como se ofensivo fosse dizer que uma pessoa, entre tantas de cores variadas, é negra. Estaria embutido aí um pouco do preconceito histórico que carregamos?

Duas realidades vividas e tornadas públicas por personalidades importantes da cultura brasileira dão bem a medida do que a questão representa para nós, mesmo que não consideremos assim. Começando por Marieta Severo, atriz consagrada. (Está bem: ex-mulher de Chico Buarque.) Não foi sem amargura que ela revelou como sentiu na própria pele (sem trocadilhos) a intolerância racial no Brasil. Seu primeiro neto, Francisco, filho de Helena e Carlinhos Brown, chegou – como sói acontecer – fazendo a alegria da família. Muitos ‘amigos’, entretanto, sumiram; outros não conseguiram esconder o estranhamento ao ver o garoto, como se algo de errado houvesse acontecido.  

 

Marieta e Chico, é importante lembrarmos, sempre viveram entre intelectuais, artistas, uma gente – teoricamente – sem preconceito, pois não? Qual o quê? Aprenderam, desde então, que o verniz também cobre os de “papo-cabeça” quando a realidade da nossa mestiçagem chega tão perto.

 


Djavan, um dos nossos melhores compositores-cantores, abraçado pelo mundo, foi ainda mais contundente no seu desabafo – que eu, inicialmente, até rejeitei, para compreendê-lo como verdadeiro, em seguida. O grande artista alagoano me chamou à reflexão quando disse que era muito bem-aceito como músico, autor de melodias. Mas um poeta negro? Não, esse é um território de branco. Se bobagem é a conclusão, bobagem não é o sentimento de Djavan – maravilhoso letrista-poeta – ante as elogiosas críticas ao seu trabalho, onde o que é feito de palavras não ganha, entretretanto, a mesma grandeza e brilho no dizer dos especialistas (em regra) .

 

Convivemos há séculos com a hipocrisia de sermos um país sem racismo. Não somos. Ainda recentemente, num debate na Câmara federal, um parlamentar com nome de chuveiro bradava que as cotas raciais criariam “um fosso que não existe no Brasil”. Existe e sempre existiu. Não se apaga com um golpe de borracha séculos de escravidão, humilhação e racismo – o mais genuíno, aqui como no hemisfério norte. Desde que no Brasil aportou o primeiro navio negreiro, em 1659, os sobreviventes da travessia viraram “bichos”, assim tratados (a cólera, por exemplo, era uma doença de “bicho”). Atenuado o vocabulário, não enterramos a intolerância e o desprezo pelos homens e mulheres “de cor”.


(Uma  imagem que guardo entalhada na memória é a de uma senzala, cuidadosamnete preservada, que conheci em Ouro Preto, na Casa dos Contos. O chão, de pedra e barro, os instrumento de tortura, tudo é assutador e doloroso. Impossível, para quem traz na alma o humanismo, são sentir empatia – no conceito de Adam Smith – pelos  que sofreram ali. Conservar aquele espaço, íntegro, é manter a prova material da perversidade praticada "por brasileiros e brasileiras" – o que foi registrado pungentemente num dos sermões do Padre Antônio Vieira).
 

Mesmo no futebol, seara em que os negros, mais do que os brancos e mestiços, exibem seu talento – uma das poucas alternativas para sair da pobreza -, por décadas prevaleceu o mito de que não há grandes goleiros negros. O exemplo? Barbosa, da seleção brasileira de 1950, responsabilizado pela derrota na final contra a Argentina. Não estivessem ali onze craques abatidos pela soberba – e esta não tem cor.


O nosso cotidiano está impregnado de expressões racistas, algumas com conotações absolutamente distintas da sua origem, o que nos faz repeti-las sem nenhum cuidado. Um exemplo clássico é a palavra "mulata", que vem de mula, resultado da união entre o jumento e a égua. É um animal híbrido e, portanto, estéril (o que, no caso da nossa espécie, felizmente não é verdadeiro). Daí que, no seu berço, a mulata não é a tal. 


Contruir a igualdade na diferença é a imensa tarefa que ainda temos pela frente. Fartemo-nos, pois, nas mais puras misturas humanas. Que graciosas criaturas delas surgem! 

 

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  • Neurivan Antonio Lopes Rodrigues

    prezado reporter sou seu fã de carteirinha, que se renova cada vez que leio seus comentários inteligentes e seu jeito simples e objetivos de se expressar, um abraço.

  • Patricia

    ..pra nao falar do PRECONCEITO a mulher . As diferencas salariais, as discriminacoes “veladas” ,as insinuacoes e conclusoes “machistas ” ..AINDA TEMOS MUITO A CAMINHAR ..nessa estrada . O Preconceito nesse pais , eh disfarcado e hipocrita.

  • MÁRIO ALBERTO PAIVA

    Perfeito Ricardo, belo texto/crônica. Só um detalhe em 1950 0 Brasil perdeu a copa para o Uruguai. Grande abraço, Mário Alberto Paiva.

  • pedro advincula falcão

    Ricardo, o racismo camuflado, e para alguns apenas economico-financeiro, se mostra em todos os níveis do poder do nosso país. O Brasil perdeu a final em 1950 para o Uruguai, quando crucificaram o negro Barbosa.

  • Eliseu Gomes

    Meu caro Ricardo,como diz o grande sociologo,a formação do povo brasileiro foi amaior experiencia genetica que se tem noticia,portanto,não deveria existir o preconceito.Alias,no futebol tamém.Tadinho dos argentinos…

  • Alírio Tôrres Machado

    RICARDO, BARBOSA FOI GOLEIRO DA SELEÇãO BRASILEIRA QUE PERDEMOS PARA O URUGUAI E NÃO ARGENTINA.

  • Marcos José Batisa Silva

    Meu caro Ricardo. Houve um engano de sua parte, o jogo da copa do mundo de 1950 em que o Brasil perdeu o título, não foi contra a Argentina e sim o Uruguai.

  • Gilsen Dorvillé

    Indgnar-se e combater todo e qualquer tipo de preconceíto é dever de todo ser que se diz humano. Brasil, um pais de todos…os preconceítos. Ricardo, a final de 50 foi contra o Uruguai e não Argentina.

  • Mineirim

    Caro Ricardo, uma correção, a final de 1950 foi contra o Uruguai e não contra a Argentina. Com relação a escravidão, o erro não foi apenas nosso, do Brasil, mas da Europa e da América também, mas claro, não diminui a nossa responsabilidade nesse infeliz episódio.

  • Mineirim

    Com relação a cotas para ingresso na universidade, sou contrário a isso, pois os negros são tão capazes quanto os brancos. Existindo as cotas, essas devem ser destinadas as pessoas de baixa renda.

  • darkson claudio cavalcante da silva

    E verdade o Brasil e o povo mais bonito do mundo justamente por esta mistura racial. E preciso lutarmos para sermos verdadeiros e saber que somos todos irmãos. Mais precisamos mostrar na pratica se realmente somos o que realmente dizemos.

  • Mineirim

    Ainda com relação as cotas, o que deveria existir era uma educação gratuita de qualidade, equiparada ao nível das escolas particulares, mas como isso não existe, defendo cotas para pessoas de baixa renda, sejam elas negros, brancos ou índios.

  • ALUNO

    É simplesmente confortador, a leitura de seus textos aos domingos. Hoje trouxe um tema interessantíssimo, lembro-me de um amigo, que ao ser apresentado a outras pessoas, o apresentador valorizava- para justificar amizade com um negro- a sua profissão, este é “fulano” Psicólogo.

  • pedro

    O racismo no nosso país é velado.Nada do negro presta.A religião não presta,é cidadão de 2ª classe, tem os piores salários, mora nas favelas, poucos chegam nas Universidades.Somos uma nação de hipócritas.

  • Luiz Carlos Godoy

    Ricardo, belo texto! (apesar da divergência quanto ao sistema de cotas). Definitivamente, “O preconceito é uma opinião sem julgamento. Assim em toda terra inspiram-se às crianças todas as opiniões que se desejam antes que elas as possam julgar.” (Voltaire).

  • M Almeida

    A ciência derrubou séculos de irracionalidade: viemos da mesma fonte, a África! É incrível como a irracionalidade se perpetua mesmo entre os “esclarecidos”. Quanto as cotas, precisamos delas para os pobres. Sou branco e ralei como qualquer pobre, de qualquer cor rumo à vitória.

  • AAraujosilva

    Barbosa, Bigode e Zizinho eram os negros(negros retintos) daquela formidável Seleção. Muito mais culpado que Barbosa, pelo gol fatídico, foi o negro Bigode que deu mole em cima de Gighia; enquanto outro negro Mestre Ziza, acompanhava a jogada com soberba: aquele lance não daria …

  • AAraujosilva

    . . . aquele lance não daria em nada(pensou!?). É, mas deu no que deu: a maior derrota brasileira no futebol. Não há sistema de cotas que resolva tão pungente discriminação, apenasmente vai escancará, discriminar oficialmente Pobre, Preto e Puta …

  • Celso

    O nosso genoma não (deveria) permite (ir) que essas discussões ainda ocorressem. Iguaizinhos! Brancos, negros, amarelos … E o Jesus ariano, apesar das evidências históricas?

  • rodrigo

    é preciso que se discuta tb q muitas vezes o preconceito contra o negro parte dele mesmo. Cito um exemplo corriqueiro: seguranças negros de supermercados de Maceió, que, ao ver um negro entrar, passam a exercer viligância ostensiva sobre o mesmo. julga-se e pune-se num piscar de olhos.

  • andre

    texto inteligente, mas sem coragem. inteligente pq faz o discurso da moda, mas sem coragem pq não toma partido claramente. Não diz se é favor ou contra as cotas. Não diz se é favor ou contra a lei que querem aprovar para obrigar a contratação de negros em todos os segmentos.

  • andré

    a maioria dos meus amigos são negros e contra as cotas. O Brasil tem pessoas racistas, mas não é uma nação racista. As leis não são racistas, não segregam. A unica lei racista é a lei das cotas e essa nova “invenção” que não passará no congresso

  • andre

    vcs ja devem ter visto uma camisa que diz 100% negro, agora imagine o contrário? o fabricante dessa camisa seria preso, afinal estaria fazendo apologia a raça brança e o contrário não? Racismo é uma via de mão dupla. E o que querem fazer nesse país é uma verdadeira divisão de cores

  • andre

    brancos negros devem gozar das mesmas oportunidades privilegiar uma cor é fazer injustiça com outra O q o país deve fazer é fortalecer a educação, igualando as oportunidades de ricos e pobres e não de preto e branco Raça não pode ser fator referencial pra um sujeito ter mais chances na vida

  • andre

    será que o barbosa foi escolhido o culpado da derrota do Brasil pq ele era preto? ou seria isso uma especie de vitimização? a imprensa adora escolher culpados, herois e depois de alguns anos mudar seu posicionamento Será que foi uma acusação racista? ou mais uma forma de se ilustrar o texto

  • andre

    seu Ricardo, lembra da copa de 1986? Aquele branquelo desgraçado o tal de Zico, perdeu o penalty e o Brasil dançou. o Zico foi considerado culpado, seria pelo fato dele ser branquelo? seria esse um pensamento racista? é preciso ter cuidado. Que o Brasil acorde antes que seja tarde

  • celsotavares

    “Os europeus que ajudaram Hitler no Holocausto”, publicado no Der Spigel neste final de semana, de autoria de Georg Bönisch e col., contribui para entendermos a mediocridade da ESPÉCIE HUMANA. Usem o Google e bom proveito.

  • Cleovan

    O nosso racismo é financeiro e não …

  • FRED

    Quero mim reportar para (DITADURA OU DEMOCRACIA), veja bem no nosso pais existe a ditadura para as classes memos previlégiadas e Democracia para os ricos. A nossa cultura racial nunca, mas nunca mesmo vai deixar de existir, a começar do nível educacional, e que o analfabetismo é alto.

  • Maria Maria

    Não somos brancos puros, somos a miscigenação, sempre tem um traço de mistura, cabelo ou pé ou nariz etc. É deixarmos de hipocrisia e nos assumirmos e valorizarmos-nos e mais criar condição de ascenção, pois hj negro na pele e amarelo ta sendo marginalizado .