Para Celso Tavares

Teriam sido homens superiores, vindos do Velho Mundo, no século XV, que derrotaram os primeiros habitantes das Américas? Não. Hoje, a História registra que os guerreiros espanhóis, com seus cavalos e armas de fogo – um grande "avanço" tecnológico -, não teriam a capacidade de destruir tão facilmente civilizações milenares, que revolucionaram a Arquitetura, a Astronomia e a Agricultura. Mas trouxeram com eles algo muito mais letal: as "armas biológicas". Maias, Incas, os povos da Tríplice Aliança (Astecas), não foram capazes de enfrentar, de igual para igual, os micro-organismos para os quais seus corpos não tinham defesa – e a varíola foi ponta de lança das tropas que por aqui chegaram em busca de sangue e riqueza.

Quatro séculos depois, um brasileiro deparou-se com o mesmo mal, mas, nesse caso, os inimigos eram nativos. O sanitarista Oswaldo Cruz viveu e combateu, com os seus conhecimentos e a sua honra, adversários traiçoeiros e mesquinhos. Pagou caro por isso: foi humilhando e caluniado, mas seguiu adiante quando a maioria de nós teria desistido. A sua campanha contra a varíola no Brasil tomou como base a ciência, a crença na vida e, essencialmente, a coragem.

Foi uma luta árdua, que teve seu ápice no ano de 1904. O jovem médico de trinta anos, com breve passagem pelo Instituto Pasteur, em Paris, encarou até as armas dos alunos da Escola Militar – que chegaram a cercar o Palácio do Governo – em defesa da vacinação obrigatória contra a varíola, aprovada em lei. Do outro lado, estavam, ainda, parte da Imprensa, do Parlamento e agrupamentos positivistas, que defendiam a "liberdade" do cidadão não se vacinar. A mentira era aliada fundamental destes últimos na batalha: a vacina faria "mais mal do que a doença". Dizia um dos boletins "científicos" distribuídos aos milhares pela cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal:

-A verdade provada pelos fatos é que a vacina propaga a varíola, ou dá lugar ao aparecimento ou agravação de dezenas de moléstias, que matam mais que a própria varíola. As criancinhas não conservam nem sequer os dentes de leite, porque a vacina os faz apodrecer.

Um diário, de grande circulação na época, ecoava: "A direção sanitária (Osvaldo Cruz), além de tirânica é ineptíssima…Para a tropa de inquisidores, o remédio está na injeção do pus vacínico, isto é, em veneno de terríveis conseqüências nas quadras epidêmicas."  Mobilizadas pelo terror dos discursos falsamente libertários, as massas foram às ruas, ensandecidas. Num daqueles dias de guerra, cerca de duas mil pessoas tomaram de assalto a 2ª Delegacia Urbana. Quebraram combustores de iluminação pública, apedrejaram e incendiaram veículos. Até a casa de Oswaldo Cruz foi cercada – o maior de todos os males era a vacinação obrigatória.

Na Câmara, os registros que antecederam o 17 de novembro, data da sedição militar – com forte apoio popular -, mostram parlamentares indignados e fervorosos defensores do mais cristalino direito democrático. O alvo? O jovem sanitarista, responsável pela "afronta atirada à face da Nação, por inconstitucional e violenta. Este moço não pode estar em perfeito juízo". "É um idiota". "É um verdadeiro monstro." "É um irresponsável", a quem o Brasil deve a preservação de milhares de vidas, mesmo não conseguindo o seu intento, que era o de vacinar a todos, sem exceção.

E não foi para combater a varíola, especialmente, que o jovem Oswaldo Cruz pôs em risco a si e a sua própria família. Chegara ao cargo de diretor-geral de Saúde Pública, em 23 de março de 1903, ao aceitar, depois de muito resistir, o convite do presidente Rodrigues Alves. Mas iria enfrentar outro flagelo, que também fazia milhares de vítimas no Rio de Janeiro e que era alvo dos seus mais entusiásticos estudos: a febre amarela.  

No front, mais agressivos do que o vírus amarílico, os virulentos adversários da área médica. Uma gente poderosa e impermeável aos novos conhecimentos, que não admitia que a experiência vitoriosa dos cientistas americanos em Cuba, praticamente erradicando por lá a febre a amarela, representasse a verdade. Mas, se deu certo em Cuba, deduziu Oswaldo Cruz, no Brasil também haveria de dar. Investiu na profilaxia, mirando no principal inimigo: o mosquito transmissor da doença. Esta novidade era, então, inaceitável, na comunidade médica brasileira. Mas o sanitarista insistiu: atacar o foco do mosquito e suas larvas era o caminho mais eficaz para reduzir drasticamente os casos de febre amarela. Descartou, para desespero e indignação dos colegas, a desinfecção dos ambientes onde se encontravam os doentes (acreditava-se, então, que a transmissão se dava de pessoa para pessoa). Cruz foi para o "pelourinho", mas não desistiu.

O resultado do seu incansável trabalho, entretanto, veio estabelecer a verdade até hoje incontestável, e Oswaldo Cruz, ao contrário daqueles que se fizeram seus inimigos, é saudado como um dos maiores cientistas brasileiros em todos os tempos. Mas, é fato, também, que o mosquito transmissor da febre amarela continua aprontando na era da dengue – multiplicado e fortalecido graças à ação dos homens. Seu nome? Aedes aegypti.

Assembleia adia pagamento por causa de fantasmas - ex-deputados na lista
Nota. Para que serve? (a pergunta é do mestre)
  • Professor Orlando , da Uneal

    Tiveram sim Meu caro Ricardo , uma espada de aço contra flechas e escudos de madeira, mata mais de mil , basta ler os relatos do soldados de Cortez, em que cada um no mínimo , no campo de batalha , com a tecnologia de armas matava mais de 200 a 300 .

  • Professor Orlando , da Uneal

    Além do mais , teve muita “trairagem” de tribos vizinhas dominadas pelos astecas , que Cortez com ajuda de uma local que falava espanhol e servia de contato , conseguiu como dizia minha avó: com banana e bolo ..se aliar a milhares de tribos ao redor , deu no que deu.

  • Ruth Vasconcelos

    Ricardo, a história está repleta de casos e situações em que as vanguardas foram criticadas e desacreditadas. Ainda bem que o ser humano é capaz de persistir naquilo que acredita, ainda que esteja sendo censurado e desconsiderado. E, assim, caminha a humanidade…

  • celso

    Ah,o Aedes aegypti … o dengue continua matando, corremos o risco de reurbanização da febre amarela e LOGO ele participará de um novo drama, de uma doença que em tudo se assemelha ao dengue, mas pode deixar o paciente incapaz por 18 meses, a FEBRE CHINKUGUNYA, a nossa próxima epidemia.

  • celso

    Ricardo, Obrigado. Vamos lá, salvar o mundo dos nossos descendentes. Um grande abraço, Celso Tavares

  • BASTIÃO

    Este sim,é um brasileiro digno de todas as honrari- as possíveis,não uma malta de políticos e autorida- des delinquentes que associados a um batalhão de empresários desonestos, parasitam e destroem toda uma sociedade,IMPUNEMENTE!

  • Elizabete Patriota

    É SEMPRE ASSIM,QUEM TEM COMPROMISSO COM O SEU TRABALHO E COM AQUILO EM QUE ACREDITA PAGA UM ALTO PREÇO POR ISSO. EM TODOS OS LUGARES, EM TODOS AS ÉPOCAS, EM TODAS AS ÁREAS. CERTO ESTÁ MACHADO: “AS HONRAS QUE VÊM TARDE JÁ VÊM FRIAS”