Nota. Para que serve?                                                   

(Osvaldo Epifanio)

 

Uma realidade deixa-me bastante preocupado: a exasperada prática da nota escolar. Chega-se até mesmo à excentricidade em sua defesa, ao impulso incontrolável para executá-la, à obsessão. De tanto acioná-la, a escola tornou-se refém de seus caprichos.

Recentemente atribuí notas a uma atividade de redação no ensino médio. Foi uma experiência frustrante; os resultados, melancólicos. Mais de 75% dos alunos ficaram abaixo da média, não exatamente em seu limite, mas muito aquém do 6,0 (seis). Essa experiência me reporta a tantos outros casos de professores que foram condenados à inabilidade justamente porque deram notas vermelhas à maioria de seus pupilos. Tornaram-se a imagem da ineficiência e tiveram que redirecionar sua avaliação para contemplar os insatisfeitos (os pais entre eles). "Ora, se quase todo mundo tira nota baixa, o culpado só pode ser o professor." Não era (é) isso que todos diziam (ou dizem)? Avaliava-se, comumente, o mestre não pela sua sabedoria, intenções, estratégias, justiça e critérios, mas pelas notas que ele registrava no diário de classe.

No meu caso, as reações ganharam o mesmo perfil, com alunos ensandecidos atrás de explicações nem sempre críveis. Os questionamentos foram duros, a palavra enfurecida derramava seus brados sobre minhas inúteis respostas e justificativas. Não conseguia sequer conversar pausada e educadamente com eles, tamanha a agitação em sala de aula. Uma guerra estava declarada. Eu, certo de que as notas representavam a realidade de aprendizado daquele momento; eles e elas, incrédulos. Não havia acordo, tentavam a todo custo anular o resultado. Não recuei, oficializei-as e tive que usar a firmeza de quem já estava calejado com tal situação. Ganhei a batalha, mas depois uma série de exposições, falas intermináveis, exemplos no quadro, esclarecimentos. Energia desprendida apenas para acalmar seus ânimos. O que interessava a eles não era o conhecimento que poderia ser adquirido a partir dos erros, mas a nota que mostrariam aos seus pais. No entanto, senti-me um vitorioso solitário, pois a insatisfação ainda reinava. Tudo isso por causa de minha apreciação sobre suas produções. Não enxergavam seus desacertos, os problemas graves de escrita, as incoerências e os níveis sofríveis de linguagem. Era ela, a nota, que ditava as regras.

Mas uma outra experiência explica tudo isso. Há pouco tempo, avaliei outras atividades, dei notas (também muito baixas) e não as coloquei na planilha, ou seja, não valiam nada. Foi um espanto o sossego. Não se ouvia reclamação, o descontentamento tinha cessado, não precisei gastar a saliva com infindáveis justificativas. Surgia um caso de amor com as turmas. Vi-me o próprio! Corria em minha face o sorriso dos bondosos de coração e de notas. Nada mais interessava, nem mesmo as redações calamitosas. Agora, era insistir numa política de boa vizinhança que tudo daria certo, inclusive o erro. A aprendizagem foi para o espaço, porque não houve a menor preocupação com o processo.

As duas histórias acima, realmente, aconteceram comigo.

E me pergunto:

É possível saber qual o nível de conhecimento do aluno apenas com o registro do dez, três ou zero? Isso não é mesquinho? A consciência de que a nota é uma conseqüência e não um fim em si mesmo não deveria vir em primeira instância? Esse sinal gráfico não serviria apenas para massagear o ego dos alunos e dos pais? Não há o reconhecimento de que ela representa uma parte mínima no universo da aprendizagem?

Gostar de estudar, ter imaginação, ver o erro como um degrau de maturidade, ser inventivo e crítico, observar a escola como um instrumento de transformação pessoal, contribuir com a aula, estar disponível, ser aberto ao diálogo, reconhecer os erros, reagir à preguiça, combater o mercantilismo das notas ("Professor, é para ponto?"), pesquisar, buscar respostas aos desafios, ter o professor como um aliado (ele tem experiência e é especializado), criar condições afetivas no trato com o grupo, ficar atento aos exemplos alheios e abraçar aqueles que são eficientes e equilibrados (colegas e professores dão provas constantes de solidariedade, respeito, honestidade, gentileza, amizade), assumir responsabilidades, adotar um horário de estudo, ter fé, cuidar da saúde, equilibrar as horas de sono, gostar de música, memorizar uns poemas, ir ao teatro, tirar um tempinho para o cinema, escrever um bilhetinho apaixonante, usar um perfume agradável, ler, apaixonar-se pela história de sua terra natal, desvendar os próprios talentos, não adiar os problemas e sim resolvê-los com agilidade para evitar rancores e tristezas, conservar o material didático, cuidar do ambiente escolar, participar dos eventos esportivos, religiosos, culturais e científicos da instituição de ensino. Tudo isso, eu sei, é bastante pessoal. No entanto, são modos simples e podem ser adotados a qualquer momento, dão certo em todos os contextos.

Sei que, às vezes, somos céticos em relação a alguns desses valores, mas o esforço em reconhecê-los já seria um passo importante na construção de uma escola dinâmica e tentadora.

Se pelo menos a metade disso fosse posta em prática, não ouviríamos mais aquela frase que tanto angustia os educadores: "Pai, mãe, não aprendi nada, mas tirei um dez!".

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  • Mário

    Há alguns meses, em uma palestra do professor Claudio de Moura Castro em Maceió, perguntei-lhe a respeito das políticas de educação continuada e aprovação automática. Ele respondeu que a pressão por causa ds notas (notas de verdade) realmente tem resultados.

  • Mário

    O professor comentou que o medo da reprovação impele os alunos a estudar mais. Mas, as estatísticas comprovariam que o aluno que é aprovado mesmo não atingido determinado patamar aprende mais quando progride de série.

  • Mário

    Nâo conheço as estatísticas citadas pelo professor naquela ocasião, mas, como professor da escola pública, deparo-me com uma realidade onde é quase impossível ensinar alguma coisa, pela absoluta falta de conhecimentos básicos e compromisso dos alunos.

  • Mário

    Outro dia, o jornalista Olavo de Carvalho escreveu um artigo interessante. Ele digitou no Google os seguintes termos: “Educaçaõ direito de todos” – milhares de referências. Ao digitar “Educaçaõ dever de cada um” – nenhuma referência. Dá o que pensar.

  • karla vieira

    por vavor coment sobre o aument de trabalho dos professre do estdo/quem tem 20 hras só dav 15 e agor quem tem 20 hras tem que dar 18/o trablh aument mas o salaro não porq?muit profess foi prejudicd com isso gostaria que por favor faç uma materia com o assunt/obrigd

  • jefferson lima

    o ensino fica pior quando os proprios professores fraudam seleções de professores para ensinar no projovem, foi feita denuncias no MPE, pessoas só com graduação selecionadas por apadrinhamento, enquanto profissionais com mestrado não foram convocados, isto é, uma vergonha, roubo,etc. absurdo

  • Ascanio Junior

    Belo texto, realmente ser educador é um desafio para gigantes, pois educar criticamente contra a lógica do mercado só acordando todia dia e cantar aquela música do Chico: ”Sonhar mais um sonho impossível,lutar quando é facil ceder,vencer o inimigo invencivel …. Voçe escreveu: TER FÉ.

  • Julio Silveira

    Perfeitas as suas colocações Ricardo, essa é uma realidade do ensino, onde na maioria das vezes, a culpa não é do professor!

  • Dakson Pereira

    Tenho dito isso, ao longo dos anos, aos meus quatro filhos. E digo mais: Não existe escola ruim, nem professores ruins, mas alunos preguiçosos e ruins, existem aos montes. O artigo vai ser tema de uma reunião de família.

  • Helena

    Continuando e passa a ser quantidade. E, quantidade é medida e medida registrada, infelizmente.

  • AAraujosilva

    Nota??? Pra que serve? Hoje, o que vale mesmo são as NOTA$; uma grana preta, no palavrório em moda. A falência do ensino é algo patente e bem programado pelas “zelite” políticas dominantes. A plebe ignara e faminta é tudo que tais “zelite” sonhavam e precisam …

  • Plinio J V Lins

    Ricardo, só queria sugerir um ponto: onde ele recomenda “gostar de estudar”, que tal trocar por “gostar de aprender”? Desde garoto conheci muita gente, e ainda conheço, que gosta de aprender, mas não de estudar. Resolver isso eu não sei, mas talvez fosse a chave. Abraço.

  • Antônio

    Alguns alunos tiram notas baixas (por não estudarem) e justificam-se: – “nota não mede conhecimento”; “não almejo notas, mas conhecimento”. Entretanto, se o aluno adquiriu um nível de conhecimento satisfatório, a prova e a nota constatarão isso. Logo, não é coerente nivelar por baixo.

  • Elizabete Patriota

    SOMOS TODOS REFÉNS DAS NOTAS, DESDE O NÍVEL MAIS ELEMENTAR AO NÍVEL MAIS ELEVADO DE ENSINO. O PIOR DE TUDO É QUE HÁ, EM MUITOS CASOS, UM VERDADEIRO ABISMO ENTRE O DEZ OU OUTRAS NOTAS “ALTAS” E O DESEMPENHO DE QUEM AS OSTENTA.

  • Maria Neta

    Estou feliz com suas inquietudes e angústias,porque mostra que você é professor de verdade,a inércia nos torna “morno”.Siga em frente !Você não está só.

  • Ruth Vasconcelos

    Ricardo, como educadora posso assegurar que o maior desafio que enfrentamos no universo do ensino é despertar nos estudantes a paixão pelos estudos, pela leitura e pela “arte de viver”. Sem essa paixão não há possibilidades de uma vivência educacional em sua plenitude…

  • Ruth Vasconcelos

    … O estímulo é fundamental para que tanto os professores como os estudantes experimentem o gratificante sabor da aprendizagem. Mas, como conquistar isso num ambiente tão desfavorável como o que vivemos?

  • Ruth Vasconcelos

    Passamos por um momento difícil de crise e declínio de valores que intensifica a descrença no conhecimento como uma fonte de realização existencial. O pragmatismo e o imediatismo têm falado mais alto; e os efeitos são desastrosos, pois tem comprometido a formação de gerações e gerações.

  • Ruth Vasconcelos

    É complicado pensar como esses jovens,que têm vivenciado tantas limitações no processo educacional, poderão ser futuros educadores e pais/mães de futuras gerações. A finitude humana exige o repasse de conhecimentos; assim como a formação de novos pesquisadores e educadores.

  • Ruth Vasconcelos

    Como garantir isso se os professores estão desestimulados (pelas péssimas condições de trabalho e baixos salários) e os estudantes estão desinteressados pelo conhecimento, porque estão descrentes no futuro que possam ter? Desculpem a generalização; há exceções, é claro!