A resposta, ao estilo Mike Tyson, derrubou-me pelo inesperado. O entrevistado era o então diretor local do DNER, Nabucodonosor Aquino Barbosa (o grande Nabuco, da turma do Sindicato dos Engenheiros.) À minha indagação sobre o anormal número de acidentes nas rodovias federais em Alagoas, ele vaticinou:

-Noventa e oito por cento dos motoristas alagoanos são assassinos.

Desatei a rir, de forma incontrolável, vivendo um vexame possível, mas inimaginável, num programa de entrevistas ao vivo na televisão. Ele me olhava espantado, com seus cabelos desgrenhados, impaciente na cadeira do estúdio, e eu vivendo meu sufoco particular. Salvou-me a colega Elza Amaral, que conseguiu segurar o riso até o intervalo comercial – eu saí do estúdio gargalhando e em lágrimas, com o programa no ar. Ao final da entrevista, Nabuco avaliou que havia sido até "modesto" no tratamento dos números.

O falso glamour com que é tratada hoje a profissão de jornalista é produto da era da TV, que transformou em celebridades alguns dos rostos mais visíveis da telinha. Bobagem! Esse é um trabalho de cotidiano duro, e que nos prega peças nem sempre tão "agradáveis" quanto a que o nosso personagem acima me proporcionou. O risco faz parte da atividade, por vezes tão frustrante. Mas poucas profissões nos dão tamanha oportunidade de exercer a tal "cidadania", palavra que virou moda em bocas tão pouco recomendáveis – na maioria das vezes.

Levar um safanão? E por que não? No Fórum do Centro de Maceió (que não corre o risco de desabamento), senti as dores da profissão por, pelo menos, duas vezes. Na primeira, ao tentar entrevistar um dos acusados do assassinato do companheiro Tobias Granja, levei uma coronhada na altura das costelas enquanto subia a escada, perseguindo o preso com o microfone. A agressão partira de um militar que, a essa altura, já prestava seus serviços de segurança ao assassino posteriormente condenado.

Ainda na década de 1980, no mesmo prédio, fui acompanhar o depoimento de uma jovem que era acusada de matar o próprio marido dentro de um motel. De família rica e influente, seu interrogatório foi realizado numa sala cercada de seguranças particulares. Ao me virem tentar cruzar a porta do recinto, os brutamontes fizeram um sanduíche daquele jornalista magrinho, que ficou com os pés abanando no ar. Nada que um grito escandaloso e indignado não pudesse resolver. Entrei na sala e acompanhei o depoimento sob os olhares carregados de ódio do pai da moça. (Seria eu o assassino?)

Mas o pior ainda estava reservado para mim na belíssima orla lagunar de Maceió. Era um feriado, e pouca coisa havia para se ver na cidade. Busquei aquele lugar para registrar o crescimento de mais uma favela urbana. Entrevistava uma mulher de meia-idade quando me vi envolvido numa briga de dois homens – armados. Um, com uma faca-peixeira na mão; o adversário, empunhando um porrete tamanho família; no meio, o jornalista "convidado". Eu estava exatamente entre os dois, de quem virara escudo. Corria para um lado, eles me acompanhavam; seguia em outra direção, mas eles não abriam mão da minha companhia. Não sei quanto tempo demorou o embate, mas só me vi livre dos brigões quando um deles tombou ao som firme da madeira (o atingido se levantou em seguida, sangrando, e foi levado do improvisado ringue.) Era hora de ir para casa.

Prazeres, também há. Até quando a coisa não dá muito certo. Garoto novo, recém-saído do movimento estudantil e ainda vivendo os "silêncios" da ditadura, fui acompanhar a trabalho uma palestra do presidente do Tribunal de Contas da União, Arnaldo Prieto. Um personagem que frequentara as páginas dos jornais e revistas de circulação nacional, nos últimos anos, como um dos pivôs do escândalo das "mordomias" – os gastos particulares exorbitantes dos ministros do presidente Geisel, pagos com o nosso pobre dinheirinho. Do titular da pasta do Trabalho (Prieto) sabia-se que consumia 200 quilos de carne ao mês, 300 de manteiga e por aí seguia, com números sempre impressionantes. O insaciável ministro glutão ganhou, ao final do governo, a prebenda desejada: virou o todo-poderoso do TCU.

Depois de explanar, no TC local, sobre a boa aplicação e o zelo para com o dinheiro público, Prieto se dispôs a atender, sorridente e pimpão, o jornalista da província. Ataquei:

– Como presidente do TCU o senhor aprovaria as contas que fez no Ministério do Trabalho?

O homem, ruborizado e apoplético, passou a berrar – dedo em riste – que era "honesto!". Em pouco tempo, eu estava cercado e era empurrado por "gentis" seguranças e puxa-sacos do ministro – que me passavam uma descompostura. Saí dali, sorriso no canto da boca, graças ao colega Adelmo dos Santos, que me protegeu e me levou até a saída do estabelecimento (comercial?). É claro que a entrevista não foi ao ar, mas dormi naquela noite com o sentimento do dever cumprido (está bem: desforra é mais honesto.)

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  • Alagoana

    É RICARDO….PARA SE DESTACAR O PROFISSIONAL PASSA POR CADA UMA….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….PARABÉNS….

  • BASTIÃO

    Prezado Peninha,se desejas manter essa agradável sensação de dever cumprido ou degustar um “COMBO” de dever cumprido + desforra,é facílimo;basta en – trevistares 90% das “autoridades” desta rede de patifarias que se chama alagoas.

  • carlos mauiricio

    Caro Ricardo- Sendo você um jovem reporter brilhante, em um futuro não muito distante, poderá escrever suas memorias as vezes hilariantes outras mostra o quanto a natureza humana é capaz.

  • Márcia

    Concordo com o Carlos. Ricardo, não deixe de nos presentear com um livro, contando suas experiências, e obrigado por dividi-las conosco.

  • Artur

    A FELICIDADE UM DIA BATERÁ EM NOSSA PORTA. JÁ PENSOU RICARDO MOTA E TANTOS OUTROS JUNTOS NA ALE CONTRIBUINDO PELA MORALIZAÇÃO DOS PODERES EM ALAGOAS? 2010 PODERÁ SER A RESPOSTA PARA OS ALAGOANOS, MUDANDO: GOVERNADOR,SENADOR, Dep. FEDERAL/ESTADUAL. UM Gov. DO LADO DO POVO SEM PROCESSO.

  • Prof Yuri Brandão

    Querido “vingador” Ricardo, Até agora dou risadas… Excelente texto! Em verdade, creio que tudo foi temperado na manteiga, no alho e no óleo! Só faltou a gelada, embora na fria mesmo tenha ficado o ministro. Risos… Abraço!

  • AAraujosilva

    Meu caro Ricardo, jornalista bravo, destemido, independente, do seu naipe tem que enfrentar mesmo essas situações: do hilariante ao trágico -de Nabuco a Prieto-. O babilônico Nabucodonozor, foi um dos lídimos integrantes e representantes da “Turma do Sindicato …

  • AAraujosilva

    . . . lídimo integrante e representante da “Turma do Sindicato dos Engenheiros”. Turma de cabras-bons, cabras-de-fé, aquela; são inumeras as aventuras e empreitadas polêmicas, daquele pessoal, com Deus e o Mundo no contexto político-social alagoano; da época.

  • José Carlos Fernandes Neto

    Caro Ricardo, Estamos juntos na missão de ser chatos e contrários as picaretagens.

  • Hagá

    Ricardo Motta, no meu tempo se dizia que há duas escolhas na vida que representam a felicidade ou o oposto: a profissão e a esposa. Sua vocação profissional para o Jornalismo é estupenda. Parabéns! Estamos criando uma pequena massa crítica aqui em Alagoas!

  • Elizabete Patriota

    “PORQUE A VIDA SÓ SE DÁ PRA QUEM SE DEU, PRA QUEM AMOU PRA QUEM CHOROU PRA QUEM SOFREU…” ESSA DO POETINHA SERVE COMO MEDIDA PRA VOCÊ, TENHO CERTEZA. BELAS REMINISCIÊNCIAS! ÓSCULOS.

  • FRED

    CARO RICARDO, VOÇE PARA MIM É O VERDADEIRO EXEMPLO NO JORNALISMO. A VERDADE É QUE O NOSSO POVO SEMPRE TEVE COMO GRANDE TRUNFO EXALTAR OS GRANDES CORRUPTOS E BANDIDOS NOS ORGÃOS PÚBLICOS,

  • Ivan Brito

    Parabéns Ricardo, um lindo texto. Lamentavelmente o assassinato de Pedrinho Farias caiu no esquecimento, menos para quem o conheceu. Coisas de Alagoas.

  • Nelma Barros

    Caro Ricardo, como é bom começar o mês de março lendo um texto tão bom, leve, hilário, sério…Nunca mude esse seu jeito, pois você é a nossa voz. Parabéns, com a benção de Deus

  • vanessa omena

    Ricardo, imagino o que você ainda tem para contar sobre a sua trajetória brilhante como repórter e blogueiro, principalmente em tempos de taturanas e outros bichos… Vá em fente… abraços vanessa

  • celso

    Santo remédio para que está desalentado!!!!

  • ADRIANO LEMOS

    RICARDO VÇ JÁ FAZ PARTE DO FOLCLORE ALAGOANO… COMO DIZ MINHA FILHA, VÇ É O CARA… UM ABRAÇO E PARABENS.