Num artigo um tanto indignado pela proliferação dos livros de auto-ajuda no mundo contemporâneo, Mário Vargas Llosa, o magnífico escritor peruano, fez uma bela declaração de amor à literatura. Disse ele que devia muito à leitura dos clássicos, que lhe possibilitaram um maior conhecimento da alma humana. Sem a presença de Dostoiévski, Cervantes, Tolstói, Shakespeare e tantos outros na sua vida, não seria ele um intérprete dos homens, de suas fraquezas e grandezas. Não era uma manifestação de erudição, apenas sua gratidão por tê-los por perto.

E é do prazer da leitura que ele nos fala. Um prazer que vai ficando escasso e inacessível, apesar da possibilidade cada vez maior de se ter às mãos um universo sem fim. Porque prazerosa deve ser a leitura, como nos ensina Rubem Alves, que o tempo transformou num belíssimo pensador. Diz ele que quanto maior for a satisfação da leitura, mais perfeito o aprendizado. "Não faço nada sem alegria", afirmou Montaigne em um dos seus ensaios dedicado ao livro, seu amigo e companheiro definitivo nos últimos anos de vida. A médica-psiquiatra Nise da Silveira, sem nenhum pudor, reconhecia que aprendeu mais sobre as pessoas nos livros de Machado de Assis do que lendo os compêndios de psicologia. De novo, o prazer – eis o segredo.

Minha relação com os livros, se foi um tanto caótica, de início, se firmou como um caminho menos sinuoso para o encontro com alguns dos momentos mais felizes que eu vivi e tenho vivido. Tornei-me, talvez por isso, talvez nem mesmo por isso, menos sociável. Mas o fato é que prefiro hoje a companhia de livros, os mais diversos, do que  outras vivências coletivas do cotidiano. Virei um cinqüentão chato? É possível, é possível. Mas nos livros me fio para ter uma velhice menos tediosa e mais "juvenil".

Foi com eles, os livros (que me ajudaram a sair do fundo do poço quando nele me vi), que descobri a maravilhosa experiência de poder mudar de opinião tantas vezes quantas acontecerem, sem que isso me traga qualquer peso na consciência. Os princípios, ao contrário, sedimentam-se a cada leitura – um aprendizado sem fim. E me é ainda impressionante a descoberta da própria ignorância ao abrir uma pequena janela do conhecimento. Razão se dá a Sócrates (Platão), ao afirmar que "só sei que nada sei", este, talvez o maior ensinamento dos livros.

As amizades e convivências me foram fundamentais para a abertura dessas janelas, desde a minha adolescência: Sidney Wanderley na poesia, na literatura, na filosofia; Fred Farias (do Palmeiras) na história; José Geraldo Marques na ciência – e a eles (e a outros, também) sou eternamente grato. Percorri meus próprios caminhos, mas a influência que recebi destes amigos é a base da minha formação como pessoa e como alguém interessado no que acontece ao redor – que o humano nunca me seja indiferente.

Sempre que penso na paixão pelo livro me vem à memória a descrição, lida onde já não sei, da reação de Borges (Jorge Luís Borges) ao receber de presente, já cego, uma nova edição da Enciclopédia Britânica. Tateou-a como se ali estivesse o corpo da mulher amada, um tesouro a ser eternamente descoberto.

Numa de suas cinco palestras na Universidade de Belgrano – em 1978 -, publicadas em "Borges Oral", o escritor argentino iniciou sua mais perfeita declaração de amor ao companheiro de sempre:

-Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista. O telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é a extensão da memória e da imaginação.

Talvez não precisasse dizer mais nada, mas o fez:
– Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade concedida aos homens.

Não, eu não duvidaria jamais do mestre.

 

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  • Rildo

    Bom ver esta declaração de amor aos livros. Tema recorrente esta semana em meu blog. http://cartunsecia.arteblog.com.br/ Parabéns!

  • Marcos Paredes

    Brilhante sua matéria sobre Mário Vargas Llosa e, com sabedoria agraciou dos Alagonas, com a Médica Psiquiatra, alagoana, Nise da Silveira. leam o “conclave”.

  • Arísia Barros

    Legal, Ricardo. Compartilho contigo esse amor/desejo pela palavra escrita aquela que reinventa mundos, traça caminhos,consolida amigos/amigas e afetos eternos. Abraços, da Arísia Barros

  • Roberto Costa

    É verdade, Ricardo. Nada como as aulas de sociologia e politica de Graciliano Ramos, sem falar na literatura técnica adotada até hoje de Pontes de Miranda. Na leitura você cria e viaja talvez mais que o próprio autor. O seu cenário adapta-se da melhor forma no que esse escreve.

  • Alicio Oliveira

    Ricardo, Não há uma só vez em que um individuo viaje na leitura sem voltar com bagagem maior do que levou. Sei que até existem autores ruins mas nenhum livro é tão sem importância que não se possa aprender algo com ele. Lamento fato de poucos terem acesso o prazer do livro

  • Feliep Carvalho Olegário de Souza

    “Uma casa sem livros é um corpo sem alma”… se não me engano, Sêneca. Parabéns!!

  • Antonio de Padua Cavalcante

    Não concebo minha vida sem os livros.Parabéns, Ricardo, pelo texto.Uma vida sem livros é uma sala sem luz.Antonio de Padua Cavalcante

  • Sisino Borges de Santana

    Parabéns pela belíssima crônica Ricardo! O livro é uma paixão eterna! Quem não ler vive nas trevas!

  • sergio doria

    Escreva de segunda a sábado dessa forma e, só no domingo, fale de política.

  • Marcos Paredes

    Ilustre amigo Ricardo, obrigado por nos deixar embevecido, no entanto, sugiro que faça alguns cometários sobre a Grandiosa Nilse da Silveira, ícone na trajetória Getulio Vargas e Jango. De-me um pouco de sua cultura.

  • Gilvan Mata França

    Ricardo, Concordo com tudo que colocou. A sede por conhecimentos vem da alma e faz-nos sentir a vida prazeroza. Sinto-me como você: Feliz por ler. A sua obstinação e a sua diversidade por leitura é grandiosa e te faz feliz…da mesma forma acontece comigo. O conhecimento é da alma.

  • AAraujosilva

    Meu caro Ricardo, a respeito e despeito da beleza e profundidade desse texto, desse tema e dos livros, estou lhe enviando “in off” uma fábula fabulosa: “O porteiro do puteiro” (de domínio público). Aliás, facho da política educacional da república PTista: quanto mais ignaro, melhor !!!

  • João

    Ricardo, Escrever é bricar com palavras Ler é encantar-se com as palavras Suas crônicas dos domingos, tem revelado um mágico da escrita.O poeta octavio Paz: “Quando sobre o papel a pena escreve, a qualquer hora solitária, quem a guia? A quem escreve o que escreve por mim,…”

  • joão

    “Aurélio Buarque de Holanda Ferreira amava as palavras. Amava-as como se elas fossem mulheres – e mulheres nuas, que se levantavam de suas camas imaginárias, vestiam-se de luz e de sombra, caminhavam ao seu encontro, distanciavam-se, juntavam-se e bailavam. E cantavam.” LEDO IVO

  • Rubens Villar

    Grande Ricardo, talentoso sempre! Acompanho você e o Roberto Vila Nova,aqui no TUDO NA HORA, com respeito e admiração.

  • M Almeida

    Na verdade, os livros são as únicas possibilidades de lazer das pessoas cultas e sensíveis. Eles amenizam a revolta ao ver tanta barbaridade que acontece na sociedade atual. Em Alagoas, por exemplo, é possível viver sem um bom livro? Vale a pena sair à noite? Bandidos e idiotas nos cercam…

  • Ricardo Gois Machado

    Para complementar sua crônica, sse ei tivesse liberdade para tanto: ‘Ler é mais importante que estudar” – Darcy Ribeiro Ah! como seria esta nossa terra sse a juventude lesse e entendesse essas suas palavras deste domingo… Abraços Ricardo Gois Machado

  • Sylvio De Bonis Almeida Simões

    Muitíssimo legal! Agradeço-lhe a excelente mensagem.

  • Gilvan Mata França

    As veses um homem sente-se vasio. Felizmente a leitura existe para preencher este vazio. A diversidadeé dela é fascinante… Infinitamente prazerosa…

  • zelia cavalcanti

    Dizer mais o quê? Parabéns, sempre

  • vanessa omena

    Belíssimo texto! abraços vanessa

  • Blog do AnDRé fALcÃO

    Excelente, sua crônica! Lê-la, um prazer imenso! Parabéns! Aproveito para convidá-lo, e a seus inúmeros leitores, para visitarem meu blog, em http://www.blogdoandrefalcao.com André Falcão

  • Tito Mendes

    Compreendo o dito no todo e se me permite expressar uma particularidade,vou além, esperando ter compreendido por inteiro.Lamento a superficialidade do mundo lá fora.

  • Prof Yuri Brandão

    Meu bom Ricardo, Então, você é um LIVRO (ou uma biblioteca) para todos nós, e da melhor espécie! Fraterno abraço.