Não é raro alguém observar que eu me comporto em tal ou qual situação de forma semelhante à do meu pai. Eu mesmo me flagro, às vezes, em reações ou hábitos que não seriam originalmente meus – herdados que foram do seu Luiz Mota. E não só dele, é verdade, mas esta uma presença constante na minha vida, mesmo que nem sempre percebida. Penso que é dessa forma que as pessoas se tornam imortais, através daqueles com quem conviveram ou compartilharam o amor durante a sua existência (deixo de lado, aqui, a genética). Será assim, também, com os que nos sucederão? É a humanidade seguindo seu (des)caminho.

Sei que não é esta a imortalidade que a maioria das pessoas busca – creio, inutilmente. Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão, do século XIX,  que abordou de forma profunda  e, por vezes, com humor, um tema tão árido (talvez até impróprio para os domingos). Dizia ele que "a morte é uma coisa séria, já se deixa concluir pelo fato de a vida, como todos sabem, não ser brincadeira. Sem dúvida, nada temos de mais digno a receber do que ambas". Seguindo os ensinamentos de Platão, pela boca de Sócrates, para quem "filosofar é preparar-se para morrer", Schopenhauer antagoniza o temor que carregamos ao conhecimento:

-Quando prevalece o conhecimento, o homem avança ao encontro da morte com o coração firme e tranqüilo, e daí honramos sua conduta como grandiosa e nobre; celebramos o triunfo do conhecimento sobre a vontade de vida cega, sobre aquela vontade que nada mais é que o princípio da nossa própria existência.

Sim, somos os únicos, entre os animais, que têm a consciência da morte. O medo do inevitável encontro  vale para todas as espécies; tê-lo, conscientemente, como parte da nossa vida é "privilégio" do homem. Diz o filósofo espanhol Fernando Savater que "crescemos quando a idéia da morte cresce dentro de nós. Por outro lado, a certeza pessoal da morte nos humaniza, ou seja, nos transforma em verdadeiros humanos, em mortais". E completa Savater (que nos lembra que "a morte é iminente ao primeiro segundo da vida"): "Não é mortal quem morre, mas quem tem certeza de que vai morrer".

Até porque – retomando o filófoso alemão – "a esperança de uma imortalidade da alma vem sempre ligada à de um mundo melhor, prova de que o mundo presente não vale muita coisa". Despreza-se a vida? De forma alguma, mas – continua Schopenhauer -, "se o que faz a morte tão assustadora fosse a idéia do não-ser, então deveríamos experimentar o mesmo temor diante do tempo em que ainda não éramos. Pois é incontestável que o não-ser do depois da morte não pode ser diferente daquele anterior ao nascimento; ele não merece, portanto, ser lamentado."

Lamentam-se mais, e com razão, os dissabores da vida, as ausências impreenchíveis dos afetos vividos e desaparecidos. O que caracteria a morte, continua Savater, "é nunca podermos dizer que estamos resguardados dela ou que nos afastamos, ainda que momentaneamente, de seu império: mesmo que às vezes não seja provável, a morte sempre é possível".

Para o grego Epicuro, "tampouco há o que temer na própria morte, por sua própria natureza, pois nunca coexistimos com ela; enquanto nós estamos, a morte não está; quando a morte chega, nós deixamos de estar." No entanto, é esse  temor, e não é difícil admiti-lo, que, em momentos vários, nos impede de buscar na vida algo que poderia transformá-la num bem maior – e não  só para nós, individualmente.

Seria dispensável até, nesta reflexão, o verso de Camões -"Que o menor mal de todos seja a morte" – e, às vezes, é; ou a ironia cínica de Lampedusa -"Enquanto há morte, há esperança". Mas ignorá-la seria tolo e infrutífero. Temer morrer pode ser morrer muitas vezes, cotidianamente. Numa definição talvez menos precisa, suponho que o que sentimos, verdadeiramente, é uma saudade daquilo que não viveremos – porque a vida segue em frente apesar da nossa ausência. E isso guarda uma formidável poesia.

E para celebrar a vida, cá pra nós, dá gosto ler os versos do gauchinho "imortal" Mario Quintana:

 Quem nunca quis morrer
 Não sabe o que é viver

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O debate dos desanimados
Taturanas apostam em ministro alagoano no STJ
  • UNIÃO E FORÇA

    ESSE NEGÓCIO DE NÃO ALGEMAR É COISA DE GENTE QUE ANDA ERRADO E QUER CONTINUAR! ESTE ASSUNTO SÓ ESTA EM DISCURSÃO PORQUE UM AMIGUINHO(MUI AMIGO) DO PRESIDENTE LULA FOI ALGEMADO, MAS QUANTOS CIDADÃOS FORAM ALGEMADOS E NUNCA NINGUÉM QUESTIONOU? QUEM NÃO QUISER SER ALGEMADO QUE ANDE CERTO!

  • Celso

    Belo texto Ricardo Mota…você escreveu sobre um tema,sobre o qual muitos resvalariam para a morbidez,tristeza,baixo astral.Ao contrário disso tudo,você emprestou ao texto,leveza…pureza…VIDA! Parabéns…com certeza, você já encontrou a sua parcela de imortalidade…

  • Roberto Costa

    O texto está no melhor padrão de reflexão e profundidade. Sb/ a morte só quem andou de mãos dadas com ela sabe da importância da vida e a necessidade de preparar a imortalidade nesta dimensão. Educação – herança incomensurável.

  • Silva

    EI!! Ricardo, seu texto é muito bom, também muito provocante. Gostaria de acrescentar as palavras que o filósofo Sócrates proferiu ao saber que estava condenado à morte: “NÃO TENHO MEDO DA MORTE. TENHO MEDO DA DESONRA”.

  • jobson

    Se a morte não fosse realidade,com a ganância dos nossos políticos, estariamos assistindo brigas en- tre:Silvestre, Arnon,Elísio Maia,Muniz,Humberto Mendes, Zé Miguel,A.Gomes,Tenório Cavalcante e outros, e no futuro?

  • maria luiza

    Alguem tem que ter vergonha na cara, de ministro a quem quer que seja, Alagoas precisa sair dessa impunidade que mata a nós alagoanos descentes de vergonha onde quer que vamos.

  • Marcos Antonio

    Belo texto, Ricardo. Parabéns. Como diria Pe. Henrique Soares, “Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida… mas sabe que um dia morrerá!” Paradoxo, não?

  • luzenita paes dos santos

    Caro Ricardo a morte é nossa maior certeza, mas fique certo que ” quem vive sem medo nao tem medo de morrer”.

  • AAraujosilva

    Para nós outros, pobres mortais e ignaros, a imortalidade está bem caracterizada nos herdados de que trata, inicialmente, seu belo e lúcido arrazoado. Quem é filho e pai já deve ter se apercebido do “repeteco” que é e que está sendo; quantas e quantas vezes já ouvimos: “Esse cara …

  • AAraujosilva

    . . . quantas e quantas vezes já ouvimos: “Esse cara só podia ser seu filho”. Assim, caro Ricardo, estamos, também, nos tornando imortais. Os outros (i)mortais dos quais você fala, tão bem, o são meritoriamente e são “urbi et orbi” .

  • fabio

    Ricardo, Muito bom o texto. Mas algo me intriga… o que te levou a refletir sobre a morte esse fim de semana?? Saudade de um ente querido ou receio de alguma lagarta de fogo querer devorar o corajoso grilo? Mantenha-se forte, seja mas do que já é. Um abraço.

  • Diego

    E bote formidável nela(poesia)…”porque a vida segue em frente apesar da nossa ausência” Muito bom o texto!

  • Alexandre Lima

    Somente um mortal (humano) poderia encontrar VIDA, mesmo quando fala da MORTE, tornando-se imortal no meu coração e pensamentos e de todos aqueles, que mesmo anônimos como eu, o admira e respeita. Parabéns Ricardo Mota.

  • matuto doido

    DESANIMADO E DESACREDITADO POLÍTICAMENTE. CIÇERO – INDICIADO TATURANA. MANÉ DE ASSIS – DESPREPARADO SEM ESCOLARIDADE. JUREMA – TEM NIVEL, MAS APOIADA POR NAVALHA,RENAN,KATIA etc. AGRA – BOM, MAS IMATURO,INSEGURO, SEM APOIO POLÍTICO. JUDSON – É O MELHOR HONESTAMENTE,POLÍTICAMENTE.

  • Celso pós Paracelso

    Vou guardá-lo junto ao que trata da amizade, publicado há uns bons domingos. Convivendo com ela, escapando-lhe três vezes (as que tenho conhecimento), só me resta admirar a sua precocidade! Esse texto seria prerrogativa dos maiores de 70 anos, acreditava até hoje. Muito bom.