Gosto muito de uma historinha que o Rolando Boldrin conta com muita graça. Numa feira do interior, um apaixonado pelo bel canto das aves vai em busca de um canário. Chega ao passarinheiro, personagem ainda comum nos sertões brasileiros, e encontra um exímio solista. Pede o preço ao vendedor: "Cem reais. E tá baratinho." O homem faz cara feia e vê outro bichinho ao lado, silente e acanhado. Só para se certificar de que não estava sendo enganado, pergunta-lhe o preço."Este é duzentos reais."

-Mas como? O que canta custa cem, e o calado, duzentos?
-É, mas ele é o compositor.

Ser compositor e não possuir a autoria pública do seu feito é doloroso e pode resultar em reações iracundas. Como a que assisti da diva Nana Caymmi. Ela subiu às tamancas em um show no Teatro Deodoro, no Projeto Pinxinguinha, no final da década de 1970. Ao lado do irmão Dori, Nana vinha maravilhando o público, principalmente com os clássicos do patriarca da família. Da platéia ouviu-se então o grito: "Canta ‘Acalanto’, de Graciliano Ramos." Não, o nosso excepcional escritor não fez e nem faria aquela canção que o velho Dorival compusera para a filhota recém-nascida. Ela esbravejou e mandou de lá alguns dos palavrões do seu vastíssimo repertório, que, generosamente, dividia com a sua imensa legião de fãs (entre os quais me incluo) por onde passava.

Há, também, situações inexplicadas na Música Popular Brasileira. Reiteradas vezes o Rei Luiz Gonzaga afirmou publicamente que "Asa Branca" era um tema melódico que seu pai já tocava no interior de Pernambuco, quando ele era apenas um menino de pés no chão. Não adiantou: o respeitado Januário ficou eternizado por outra canção, mas não pelo hino do esturricado semi-árido do Nordeste, registrado como a maior criação do Lua em dobradinha com Humberto Teixeira.

Mas o Brasil também tem o generoso Vinícius de Moraes. Ele de tudo fez para ter Chico Buarque, o filho do seu amigo Sérgio, como parceiro. Na primeira vez, com "Gente Humilde" – a belíssima melodia de Garoto ganhou letra pungente do poetinha. Não tão boa para ele, que pediu que Chico a melhorasse. O jovem compositor não viu como, apenas sugeriu a mudança de uma ou duas palavras. "Maravilhoso!". E, em seguida, ao telefone:" Tomzinho, sabe quem é meu parceirinho agora? O Chiquinho." O carinhoso Vinícius, é verdade, não conseguiu esconder o ciúme. (Tom deu o troco com "Ligia", cuja letra Chico ganhou do "maestro soberano", sem que para ela tenha contribuído significativamente – fato contado pelo próprio).
 
Já Ary Barroso, que passeia tanto pelos escritos desta página, riquíssimo em histórias e "estórias" da MPB, cobrava dos seus calouros, sem piedade e com palmatória verbal, os nomes dos autores das músicas que os candidatos ao sucesso cantavam em seu programa. Certa feita, ao anúncio de "Se todos fossem iguais a você", perguntou à futura intérprete:
-De quem é?.
-Vinícius de Moraes.
-E o Tom?
-É dó maior.
Gongo.

Meu compadre e poeta-maior Sidney Wanderley sentiu na própria alma o sofrimento da "transferência" literária não autorizada. Talvez nenhum poema de sua produção de rara qualidade tenha conquistado tanto sucesso -principalmente entre as mulheres – quanto "Inequação", que ele teimava em não publicar. Foi vencido, felizmente, pelos apelos dos amigos e admiradores (está em "Desde Sempre", de 2000). O "autor"? Chico de Assis, um talento no palco e na lei da sobrevivência – mesmo levando-se em conta que foi ele próprio o legislador, quando se apresentou necessário.

Em São Paulo, "Inequação" era sua "pièce de resistence" nas noitadas que o tornaram conhecido na terra da garoa. Declamava-o ("Não se entra e sai da amada/como se entra e sai de um teatro…/Na verdade não se entra/ como se sai da amada:/ em nós algo se acrescenta,/ou em nós algo há que falta." Bravo! E as notívagas "deselegantes discretas" o cobriam de admiração e olhos pidões. O Chico? Ao modo. Indagado sobre quem seria o autor da sedutora obra, abria o sorriso e, humildemente, repetia a resposta de sempre:
-É de um pobre poeta alagoano.

Àquela altura da madrugada, "o pobre poeta alagoano", natural de Viçosa, havia de estar sonhando, em Maceió, com um jeito de conquistar os mais sensíveis corações femininos com o calor dos seus versos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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  • Prof Yuri Brandão

    A referência a Sidney é interessante demais, e o poema é de fato excelente! Usei-o, inclusive, em uma de minhas aulas de Língua Portuguesa e Redação, para valorizar o que é nosso e despertar nos jovens alunos ao menos um mínimo interesse, por aquilo que é o máximo. (Cont.)

  • Prof Yuri Brandão

    (Continuação) Quanto à referência a Chico, ele próprio confessa, no DVD “Chico e as cidades”, que “o poeta do amor” queria mesmo era ser parceiro do historiador Sérgio, mas este não era afeiçoado à música. (Cont.)

  • Prof Yuri Brandão

    (Continuação) Aí, depois, para enciumar o maestro Tom, Vinícius convidava Chico para parcerias. Parece que não adiantou muito, pois o próprio Chico confessa que seu “professor” foi Tom. Interessantes e intrigantes “birras”…

  • Celso pos Paracelso

    A alma agradece. Celso

  • joao miranda

    Meu querido Ricardo ,gostaria que vc divulgase o grande show que aconteceu nas dependencias do museu Theo Brandao.(ELAS CANTAM BOSSA NOVA)C/ WILMA ARAUJO/LEURENI/FERNANDARAUJO/WILMA MIRANDA/ELAINE KUNDERA/NARA.IMPERDIVEL E POUCO DIVULGADO,UM SHOW ANTOLOGICO.

  • jobson

    O grande museu Theo Brandão, realmente tem sido pouco divulgado,se você gosta da cultura da nossa terra, compareça as quintas feiras,geralmente agrada a todos.

  • adja costa

    Ricardo,por favor conta alguma história das muitas que vc já ouviu do mestre Deodato,o cara é uma figura,sou grande admiradora dele. Um abraço.

  • aldo reis araújo

    Quanto mais fico conhecendo as histórias do Sidney mais me convenço de que foi um acerto dos céus esse cara ter se debandado da Medicina para a poesia. Agradecem os pacientes e os leitores.

  • leonardo josé caldas

    Esses poetas são uns bichos muito esquisitos.”Ine- quação” é, em minha opinião e na de vários amigos meus,o melhor poema do Sidney Wanderley e um dos melhores da poesia alagoana. E o autor rejeita a criação…