Quem subiu e desceu as ladeiras de Olinda, ou curtiu o carnaval à moda antiga da capital pernambucana, dificilmente deixou de cantar os versos antológicos de Antônio Maria: “Ô ô ô saudade/ Saudade tão grande/ Saudade que eu sinto/ Do Clube das Pás, do Vassouras …” (Frevo nº1 do Recife). Logo ele,”o meu Maria” de Vinícius de Moraes, compôs um hino para a terra que deixara por duas vezes – a última, definitivamente. A primeira, aos 19 anos, foi uma fracassada despedida. A fome, a miséria e a humilhação, no Rio de Janeiro, o fizeram buscar novo abrigo em Pernambuco e em outros Estados – o Ceará e depois a Bahia, de onde voltou, em 1948, para a “cidade maravilhosa”.

Eram, mais do que nunca, tempos de migração para os nordestinos que tinham algum talento artístico. Em 1940, o muito jovem Antônio Maria Araújo de Morais, filho de um usineiro que foi à bancarrota, desembarcou no Rio atendendo ao convite de outro pernambucano candidato ao estrelato: Fernando Lobo (pai de Edu Lobo), de quem foi tão amigo quanto desafeto. Na primeira fase da relação carioca viveram entre copos e bordéis, na então capital do Brasil. A pobreza não impedia que encontrassem formas alternativas de diversão – como lhes era possível. Chegaram a disputar, bêbados, em companhia do pintor Augusto Rodrigues, uma prova de natação…na banheira do minúsculo quarto-e-sala em que sobreviviam. A água, claro, transbordou, invadiu os apartamentos vizinhos, e, no dia seguinte, foram despejados do prédio.

Tanta amizade assim não resistiu ao passar dos anos. Maria e Lobo assinaram juntos – em 1952 -, como em outras canções, o clássico da fossa “Ningém me ama” (de autoria só do primeiro. O inverso também aconteceu em “Preconceito”). E quando veio o tempo das desavenças, os dois romperam estrepitosa e publicamente. Com artigos publicados em jornais cariocas se acusaram mutuamente de plágio e trocaram desaforos a valer. A canção que os levou a conhecer o sucesso transformou-se no busílis da discórdia. Para encerrá-la de forma desmoralizante o gigante mulato, já jornalista consagrado, argumentou:

-Devo explicar que as palavras “de fracasso em fracasso” não são de Fernando. E é fácil provar, porque a palavra “fracasso” está escrita corretamente, isto é, com dois esses(ss). Caso fosse, em verdade, uma colaboração sua, eu juro que lhe respeitaria as cedilhas(çç) habituais.

Por nada, também, Maria armava uma confusão (trocou muitos tapas nas noites cariocas) e encerrava, com seu jeito iracundo, uma conversa que considerasse desagrável e inoportuna. Como aconteceu com a mulher que o procurou nos corredores da TV Tupi – onde foi pioneiro e faz-tudo – pedindo ajuda para a Campanha Contra o Câncer. Ao apelo, Maria foi enfático: “Pois eu sou a favor.”

Não foi esta a doença que estancou sua alegria triste de viver, em 15 de outubro de 1964, meses depois do golpe militar. “Cardisplicente”, como se definia, um infarto fulminante tirou-o das noitadas que dividia com o poetinha Vinícius (sua crônica sobre Maria, de 1968, é uma pungente declaração de saudade). Amou e foi amado por belas e fantásticas mulheres – Danuza Leão, a quem  “roubou” do patrão Samuel Wainer (no Última Hora), foi a última grande dama do seu coração. Deixou amigos, é verdade, e outros tantos que não lhe derramaram lágrimas de despedida.

Alziro Zarur, precursor dos “pastores do rádio”, estava entre aqueles que não dedicavam afeto a Maria. E não era para menos. Levado ao famoso programa “Preto no Branco”, da TV Tupi, o para-religioso, autor do bordão “Jesus está chamando”, foi provocado, na voz soturna de Osvaldo Sargentelli, pelo produtor do programa – claro, Antônio Maria:

-Sr. Alziro Zarur, se Jesus está chamando, por que o senhor não vai logo?

 

 

 

 

 

 

 

 

Coaracy viaja a Brasília e dá entrada hoje em ADIN sobre conselherios do TC
Serão deuses os internautas?
  • Zealberto

    Peninha, suas crônicas dominicais são imperdíveis. Parabéns. Zealberto

  • Gilsen Dorvillé

    A boemia carioca contada de maneira simples e competente. Que maravilha. Falar em carioca, já é tempo de você nos presentear com alguma(das inúmeras peraltices) do nosso querido Plinio Lins. Um grande abraço.

  • fabio

    Zarur detestava tal bordão por um simples motivo: era judeu. Não acreditava no jesus, por isso provocava o para-religioso maria. Nada demais apenas fé diferente.

  • Arnóbio

    Ricardo, assim como a contemplação da orla de Maceió, em manhãs ensolaradas, como as de hoje, em final de inverno, suas crônicas são de um saudosismo agradável e uma nostalgia gostosa.

  • celso tavares

    E muito bom ‘brincar’ com as palavras. Esse titulo e muito bom. Celso

  • Mário Lima

    Ricardo, suas crônicas domingueiras nos faz um bem danado, ver a história do Antonio Maria é uma delas, parece que foi psicografada – a crônica está a cara e feição do mestre pernambucano. AH! Antes que me esqueça, eu sou da velha turma que curtiu de montão o carnaval em Olinda. Parabéns

  • Mario Alberto Paiva

    Ricardo, Excelente o texto, principalmente o trocadilho com o título mas, com certeza, a Música “Voltei Recife” é de outro grande compositor penambucano Luiz Bandeira. Mário Alberto Paiva.

  • Gilvan Mata

    Ricardo, suas crônicas nostálgicas dominicais, outras atualizadas, preenchem o cotidiano devastador da nossa realidade. É bom! Um relax! Amanhã, com certeza, novos artigos estarrecedores estarão na baila. Nossas energias tem que ser renovadas..sempre! Um abraço e parabéns pela crônica.

  • Sylvio De Bonis Alameida Simões

    Muito interessante. Parabéns!

  • M R L

    QUANDO SE FALE DA MÃE DE JESUS – TEM QUE LAVR ABOCA COM SABÃO – PPRINCIPALMENTE PONDO AL LADO DESSE FALSO PROFETA ALZIOR ZARUR – POSTedade do MAL. PERDÃO SE NÃO ENTENDI A MATERIA.

  • Gregório

    A que ponto chega o desespero,a ignorância e a falta do que fazer. Alguém pode traduzir isso aí,essa coisa do postedade? Não é que você não entendeu,meu filho.Você apenas não leu – Afinal,são muitas palavras,né?Cansa só de ver…Você precisa estudar mais um ‘tiquinho’.

  • Gabriel Passos

    Ricardo, é mais que importante frisar a importância de Antônio Maria para a Música Popular Brasileira. Excelente crônica!