Os dedos puxando permanentemente o cabelo alinhado por sobre a orelha, num ônibus com destino à Cidade Universitária? Era o Paulo Bakunin, com certeza. Calado ou falando baixo sobre algum livro "subversivo" recém-descoberto, ou ainda citando um disco novo de um dos nossos monstros da MPB, ele ia ali, ao seu jeito, levando a vida de militante. Das boas causas e da boa arte. Cinéfilo, musicófilo e antenado ao momento político como bom inimigo da ditadura, Paulo Brito, assim batizado, não era um líder estudantil incendiário ou grande orador.

(Poucos o foram, reconheçamos, como o talentoso Aldo Rebelo, responsável por um dos mais belos momentos que presenciei como discreto militante que fui. Praia Grande (SP), 1980, e lá estava o "Amarelo" enfrentando a gigantesca  platéia do primeiro grande encontro sindical do Brasil daqueles tempos. Na balbúrdia geral, com todos brigando entre si – "cabeças feitas" -, e durante quase uma hora o presidente da UNE mantendo o público na mão, até o apoteótico aplauso final.)

Mas o Bakunin estava sempre presente – testemunha e sujeito da história. Bom de música, bom de cinema e…bom de copo, também. Aliás, muito bom. Com uma qualidade rara, aperfeiçoada com o avançar do tempo. Tomava todas a que tinha direito e, sem cerimônia, dormia na mesa até que o porre se fosse – e ele retornava novinho para mais um copo.

E foi assim num sábado qualquer, no restaurante que ficava no Híper do Farol. Cliente da casa, seu sono não perturbou os demais comensais, os "bebensais", os garçons, o gerente ou o dono. Pelo menos até a hora de fechar o estabelecimento. Já era tarde e, chegado o momento, o que fazer com o homem dormitando sobre a mesa? O garçom que o atendia tomou a iniciativa: buscou em seu bolso as informações que pudessem ajudar a decifrar seus segredos domésticos. Que nome tinha? Onde morava? Estava  quase tudo escrito num pequeno pedaço de papel:"Paulo – fone xxxxx". Resolvido o problema. Feita a ligação, o gerente do restaurante chamou um taxista e deu as coordenadas:" Deixe o homem em casa. É a ordem da mulher dele. Nada de mais um gole em canto algum."

E Paulo foi "encaminhado" até o carro, ainda sonhando, quem sabe?, com a última letra de Paulo César Pinheiro, um dos seus preferidos. Tudo bem no percurso até o momento em que o Bakunin retomou o contato com a realidade. Estava no Ladeirão do Óleo, estranhou e perguntou: "Pra onde estou indo?" O taxista, incontinênti: "Pra sua casa". De nada adiantou o passageiro resmungar, jurar que não morava por aquelas bandas, nem que isso, nem que aquilo. O motorista estava decidido a ignorar seus apelos para prorrogar a noitada.

-Só paro na sua casa.

A voz assemelhada à do personagem "Urtigão" (de um velho desenho animado) não intimidou o profissional que continuou a viagem até Cruz das Almas, onde Paulo "morava" – lhe asseverara o dono do restaurante, cliente dos bons e que ainda ajudava os seus freqüentadores.

Na porta da casa indicada, o taxista acionou a cigarra e logo apareceu a mulher determinada que orientara o zeloso restauranteur . "Está aqui seu marido", apontou. Do carro surgiu o indignado Bakunin a dizer: "Esta não é a minha casa e ela não é a minha mulher." Quase que falou em uníssono com a Rita, a morena que ficara preocupada com a narrativa, ao telefone, sobre o porre do Paulo: "Ei, este não é o meu marido". Atônito, o motorista ainda indagou: "Mas ele não se chama Paulo?"

Assim chamado, também. Mas logo apareceu o outro, o "verdadeiro", que ao ver o burburinho envolvendo sua Rita, o velho amigo Bakunin – com quem estivera pela manhã – e aquele estranho nos seus domínios, já entrou na história falando grosso:

-O que é que está acontecendo aqui? Eu sou o dono da casa.

A voz poderosa de Paulo Poeta deixou ainda mais confuso o pobre homem:"Eu só vim aqui trazer o marido da mulher do senhor…".

Desistiu, deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. Melhor o prejuízo que a loucura.

 

 

 

 

 

 

 

 

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  • Geraldo de Majella

    Ricardo, essa história é ótima é cara do nosso amigo Paulo Bakunin. Esse cara é um dos grandes persosnagens da esquerda alagoana. Tenha um bom domingo.

  • Morador do Pilar

    Ricardo Mota é mais facíl mora na Faixa de Gaza, do que na Cidade do Pilar.

  • Mota

    Esta história do velho Bakunin foi demais, como disse Majella, é a cara dele. Mas tem outras, mais engraçadas ainda.

  • AAraujosilva

    Essa parada foi muito boa !!! Uma presepada desse naipe só poderia acontecer, mesmo, com os Paulos. Ambos, grandes figuras da paróquia, autênticos boêmios e políticos; dos bons tempos …

  • MarcosParreco

    Valeu Peninha,dois grandes Paulos. Faz tempo que não os vejo. Saudades etilicas.

  • JOAQUIM BRITO

    Prezado Ricardo, admirável o seu gesto de assegurar tributo a todos que comungam do mesmo ideal, mesmo que não sejam “expressões”.Estivemos até às 22 hs de hoje,27/07, em minha casa,comemorando o anivesário do Igor – sobrinho. Sabendo do seu recado, a gratidão foi total. Brito.

  • Luciano Aguiar

    Ricardo essa é ótima.O velho Paulo Bakunin como bem afirmou o Geraldo Margella é um grande nome da intelectualida de esquerda Alagoana. O Aldo é nosso referencial de esperança num sonho que já passou para muitos.

  • Gilvan Mata

    O Paulo, o eterno boêmio. Um homem decente. Como disse o Majella: Esta estória retratabem a cara do Paulo poeta..

  • Felipe Carvalho Olegário de Souza

    Ricardo, é emocionante ler uma história do Paulo escrita por você. A ditadura acabou, mas Paulo continua sua luta por justiça social, sem esquecer, claro, da boa música e dos copos de uísque.

  • enio lins

    Mota, nota 10 (com louvor)! Apesar de (muito)jovens, temos já parte de nossas vivências em forma de crônicas deliciosas – e escrevo essas linhas como testemunha auricular do ocorrido em tela, fielmente reproduzido por sua pena. Siga adiante! Enio Lins

  • Olavo Lins em 28/07/2008

    Você massageou meu ego Ricardo Paulinho Bakunin é meu amigo-irmão meu orientador político. Etilismo e boemia não sei quem orientou quem. Justa homenagem a essa grande figura humana. Abraços, Olávico (como você me chama).

  • Gilsen Dorvillé

    Grande Ricardo, mais um domingo recheado de ótima crônica. Paulo Bakunin, eterno presidente do Sindicato dos Boêmios, PHD em cultura e companhia sem igual em qualquer mesa de bar.

  • Paulo Poeeta

    Mestre Ricardo, Passei dias sem computador (o danado foi corroido pela maresia de Cruz das Almas) e só agora tive acesso ao caoso que vc tão bem relatou. Muito legal. Fiel e competente a forma como vc retratou. Parabéns Paulo Poeta