Chico Buarque de Holanda entrara naquela disputa por conta de uma "provocação" do "Todo Redondo", apelido que ele dera ao baiano Gilberto Gil, com quem convivia naqueles idos de 1966, em São Paulo. O amigo de Caetano compusera "Ensaio Geral" para ganhar o II Festival de Música Popular Brasileira. Chico ainda não levava a sério a condição de compositor. Tivera uma passagem, no ano anterior, praticamente despercebida, no Festival da Excelsior. Já havia gravado "Pedro Pedreiro", "OLê-Olá","Sonho de Carnaval" -músicas que a minha geração canta até hoje -, mas tudo ainda era uma brincadeira de estudante.

  Naquela conversa com Gil, numa mesa de bar, o fantástico baiano desafiou o "Carioca" e lhe mostrou a "canção da vitória", de intenso conteúdo político, o que era bem próprio dos artistas oriundos do movimento estudantil. Chico, por sua vez, já demonstrava certo fastio em relação à música de protesto. Daí nasceu "A Banda", que mobilizou a juventude paulista e quase a do Brasil inteiro (naquele tempo não tínhamos a comunicação instantânea, que só veio décadas depois.)

  Era, então, Chico Buarque – pouco antes de completar 22 anos de idade -, um relapso estudante de Arquitetura, que queria mesmo era namorar, tocar o violão e a vida no ritmo que eles pedissem. Já trazia no currículo uma prisão por roubo de carro, e, claro, a ascendência "nobre" na intelectualidade; era o filho do escritor Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes do Brasil, amante do país e das mulheres (Em 1940, ele – Sérgio – e  o poeta Carlos Drumond de Andrade saíram aos tabefes, na sede do Ministério de Educação, no Rio de Janeiro, por causa de uma mulher. Briga boa.)

 Na primeira noite do Festival, o público foi ao delírio com "Disparada", de Geraldo Vandré e Théo de Barros. A inesperada interpretação de Jair Rodrigues já deixava no público a sensação de que esta seria a música vencedora. Nem a belíssima "Um Dia", de Caetano Veloso, de lirismo raro – uma das canções, para mim, mais bonitas de Caetano em todas as suas muitas fases -, foi capaz de abalar a preferência do público.O calendário marcava 27 de setembro. 

 Dia seguinte, era a vez de Nara Leão apresentar a ingênua e envolvente "A Banda". Surpresa, de novo: o público não conteve a euforia. Nas semanas que vieram, entre um brado e outro de "abaixo a ditatura", a estudantada se dividia cantando Vandré e Chico. Ninguém ficava fora da disputa. O "Ensaio Geral", de Gil, desaparecera no meio do caminho, mesmo sendo interpretada pela já famosa Elis Regina.

 Quando chegou, o 10 de outubro encontrou um Geraldo Vandré agitado e um Chico Buarque sereno e, como sempre, boêmio. A finalíssima do Festival virara uma decisão de Copa do Mundo. Depois do palco, a expectativa: quem levava o primeiro lugar? Foi então que aconteceu. Sabendo que os jurados lhe davam a vitória, Chico procurou o diretor da Record, Paulo Machado de Carvalho, para lhe dizer:
 – O júri pode decidir o que quiser. Mas se "A Banda" ganhar, eu devolvo o prêmio.
 
 Paulinho, assim conhecido, quase tem um troço. Foi à sala onde se reunia o corpo de jurados e disse sobre "o desastre". O placar entre eles já estava fechado: "A Banda", sete votos; "Disparada", cinco. Mas prevaleceu a rebeldia do chico de Sérgio Buarque. Resultado : 6×6. Todos, inclusive o público, comemoraram como puderam naqueles tempos difíceis – e que depois ficaram piores.

 Ali nascia o homem Chico Buarque de Holanda, que, para a felicidade geral da Nação, resolveu assumir a condição de gênio maior da Música Popular Brasileira. O mais extraordinário nessa história é que o verdadeiro resultado do II Festival da Record só foi revelado quase 40 anos depois, pelo pesquisador Zuza Homem de Mello, que guardou os votos daquela noite de 10 de outubro de 1966.

 Desde então, Chico Buarque de Holanda nunca fez qualquer referência pública sobre o que aconteceu no Teatro Record – nem em entrevistas, nem em livros, pesquisas acadêmicas, nada. Dificilmente qualquer um de nós resistiria a tanto. Mas aquele era – e é – o Chico. 

 

 

 

 

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  • Elizabete Patriota

    Vc me levou de volta a Paulo Afonso em frente ao megafone da Rádio Poty, de onde eu, menina, ouvi pela 1ª vez aquela música inesquecível. Ia buscar o leite em uma leiteira de alumínio. Acabei perdendo a hora e mamãe ficou sem o leite. Minha mãe me deu uns cascudos, mas valeu a pena…

  • sérgio

    As vezes me ligo na RTP – a rede de TV portuguesa. É um banho cultural.Se lá existisse um Chico Buarque, ele seria a atração diária. Aqui a TV nem elitista é. Talvez seja desmemoriada mesmo e equivocada. O Chico é o cara. Talento, simplicidade e acima de tudo cidadão. Ah, Brasil.

  • Nivalto Tenório

    Caro Ricardo, você é o cara, em meio tanta turbulência em Alagoas, tu ainda consegues nos lembrar de coisas boas deste país. Parabens! Porque realmente, lembrar desse empate de 1966 é reviver bons tempos.

  • CIDINHA

    SURPRESA!!!!MAIS UMA PROVA DA NOBEZA DE CARÁTER DE CHICO!!!NOS DIAS DE HOJE;”DIFÍCIL”

  • Erick

    Lamento não ter vivido aqueles tempos áureos da boa música brasileira. É lamentável ver a nossa juventude “cantarolando” – se é que se pode fazer isso – a “música” – se é que se pode conceber isso por música – o Creu. O grande culpado disso tudo é a mídia!!!!!!!!!!

  • AAraujosilva

    Caro Ricardo, “vê a banda passar cantando coisas de amor” foi um bálsamo naqueles tempos idos, de tanta rudeza. Até no estilo água com açucar o grande Chico, o Noel Rosa moderno, é primoroso; aliás, bem recomendável aos atribulados dias atuais.

  • lucila

    Ricardo, esse ponto de encontro com a cultura, que vc criou aos domingos, nos vicia, no bom sentido, claro. E esse é o meu querido Chico Buarque, um homem de muita sensibilidade, um homem de alma feminina.

  • Vera França

    Não é saudosismo não. Mas quanta saudade daqueles festivais…. Ficava grudada na TV vendo aquelas imagens cheia de chuviscos ouvindo aquelas músicas maravilhosas e torcendo muito….. Disparada na parada pra ver a banda passar.A nossa geração foi privilegiada. Parabéns pela matéria.

  • Célio

    Prezado Ricardo, se fosse por aquí, os votos terim sido comprados, como fazem nas eleições e veriam-se os jurados do festival desfilando de Ford Fusion nas ventas do pôvo, que só vê a banda passar, a eleição na mesa diretora passar, o duodécio passar e a gente é só se lascar!!!

  • Povo do Village II

    Infelizmente nossa juventude sofre da falta de sururu na cabeça, é por isso que não consegue pensar . A mídia massiva e invasiva é quem pensa por eles, que pena!!!!!

  • Tácio Cerqueira de Mello

    Grande Ricardo, O belo texto sobre chico e a MPB nos remete ao lado lúdico da vida sem esquecermos de observar atenta e indignadamente os acontecimentos da “política” alagoana, mas com a certeza de que só há vida na arte.

  • Adaelson Vilela

    PARABENS RICARDO !

  • mauricio do nascimento

    Caro Ricardo,gostaria de parabenizá-lo pelo seu lado humano de ser;pois só sendo muito HUMANO é que se vive a beleza da vida como vc demostra tão bem.Parabéns pela bela lembrança do Chico.

  • Rita

    Fico torcendo para chegar domingo e ler as suas crônicas, aulas de cultura, de saudades de conhecimento profundo de nossas raízes e vc. faz tudo isso com uma leveza e beleza impressionantes. Parabens, menino homem, sonhador.

  • samuel s anunes

    A justiça tem que fazer o seu papel e não ficar em cima do muro.