Série contará histórias reais / Design: Carlyson Oliveira

Por muitos anos eu quis saber um pouco mais sobre minha ascendência , devido ao sobrenome herdado de meu pai. No Museu da Imigração, em São Paulo, descobri uma série de curiosidades sobre achegada de meu ancestral, Ernest de Laet, no porto de Santos, no navio a vapor Albatroz, em 1870. Além do parente belga, descobri que o imenso arquivo histórico também tinha relíquias de outros povos: judeus, franceses, turcos, italianos, e por aí vai.

Me lembro do guia falando sobre os povos que “construíram o país” e, depois que concluiu a narração, perguntei: “onde está a ala destinada aos descendentes africanos? ”. Não tinha. “Deve ter algum museu destinado apenas à Escravidão”, cogitou o rapaz, meio contrariado.

Não quero causar polêmica nem desmerecer a história dos povos que escolheram o Brasil como morada, mas aquela conversa com o guia me deixou reflexiva. Foi pelo braço africano que o Brasil foi construído, ainda que forçadamente. Suor e sangue negros estão nos alicerces de cada casa grande, plantação e correm nas veias de 54% da população brasileira atual (dados do IBGE). Quem não tem sangue negro, tem um açoite nas mãos de seus ancestrais.

O leitor pode questionar: mas a Muralha da China e as pirâmides do Egito também foram levantadas por escravizados, então por que toda essa atenção com @s [email protected]?

O historiador Laurentino Gomes explica – e eu concordo – que o povo africano foi o único a ser escravizado “em massa”. Principados inteiros foram rendidos e submetidos a trabalho forçado por 350 anos. Dos doze milhões e meio de pessoas escravizadas na África nesse período, quase dois milhões sequer conseguiram chegar vivos à América. Em média, 14 corpos lançados ao mar todos os dias, ao longo de quase quatro séculos.

Cerca de cinco milhões de vidas africanas tiveram como destino o Brasil. De cada 100 escravos que chegavam ao país, 86 eram negros e 14 europeus.

Sergio Buarque de Holanda, outro historiador que se dedicou às raízes do nosso povo, defende que o período escravagista foi tão intenso que reverbera até hoje, principalmente em como a sociedade enxerga o trabalho mais simples, braçal. A herança comportamental é desvalorizar quem trabalha muito. Torna-se inferior.

Meu raso entendimento então me levou a pensar que, mesmo escravizados, os negros se mantiveram firmes à sua fé e cultura. Hoje temos um povo plural e bonito em vários tons e texturas. Tudo graças a eles.

Decidi então, neste mês em que se comemora a Consciência Negra, contar histórias que mostram a resistência herdada da raiz africana por pessoas comuns, que vivem e fazem a diferença em Alagoas.

Nada mais justo para quem tem como cenário a Serra da Barriga, onde os personagens principais, Zumbi dos Palmares e sua mulher, Dandara, lutaram pela libertação do povo contra o sistema escravista da época. E deram suas vidas pela causa.

Não acredito em meritocracia, mas sei o poder de influência que uma história vida pode causar em muitas outras. E existem [email protected] [email protected] atualizando as definições da palavra RESISTÊNCIA.

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