O título desta postagem foi inspirado em um artigo que li na Revista Piauí meses atrás que falava sobre uma nova lei foi aprovada no estado americano da Califórnia passou a proibir a discriminação de cidadãos que decidissem usar um penteado afro. O decreto aconteceu depois que casos como o do adolescente Andrew Johnson, que cursava o ensino médio em Nova Jersey, teve seus dreadlocks cortados durante um torneio estudantil de luta livre. 

Estamos em 2019 e a humanidade ainda precisa de uma lei deste tipo.

Chico Cesar tem uma música homônima:

Reprodução / Youtube

No Brasil 54% da população é negra. Se pesquisarmos por gênero, seremos 51,6% de mulheres. Por muitos anos, permitimos que a indústria da beleza “branca” ditasse as regras para um padrão nórdico, quando somos um país de população misturada. O peso maior sempre sobre os ombros das mulheres, com seus cabelos e corpo “ideais”.

Na década de 1980, me recordo de ir com minha mãe para o salão e observar de um lado mulheres brancas fazendo “permanente” e deixando os cabelos cacheados artificialmente (o líquido usado para o procedimento era tão fedorento que passei mal), e do outro lado, negras com seus cabelos crespos fazendo o processo inverso. Aquilo não entrava na minha cabeça. Por que simplesmente as pessoas não aceitavam seus fios naturais? Depois entendi que há uma indústria que lucra milhões com nossa eterna insatisfação.

Mas o movimento de aceitação veio, e nasceu na periferia. E ele foi tão forte que obrigou a indústria a mudar suas linhas de produção. Dez anos atrás quase não se via produtos para cabelos crespos, mas agora o leque de possibilidades é enorme. Essa liberdade veio pra ficar.

Foi nesse processo de transição e descoberta da própria beleza que as publicitárias alagoanas Estefanie Myllena e Alana Frazão, ambas de 26 anos, se conheceram em um curso de aperfeiçoamento para cabeleireiras que trabalhavam com fios afro.

“Há seis anos atrás assumi meus cabelos naturais fazendo o que chamamos de Big Chop. Este corte consiste em passar a máquina e retirar toda a química, deixando apenas os fios naturais”, explica Estefanie. “Antes disso passei anos alisando os cabelos, desde a infância”, conta. “Quando assumi a forma natural dos fios, senti a necessidade de estudar a maneira de como cuidar deles, foi então que me profissionalizei como cabeleireira e me atentei ao universo cacheado/crespo “, lembra.

Estefanie aos seis anos e já com cabelos relaxados / Arquivo Pessoal

Já Alana me contou que aos 5 anos ela já se percebia diferente das outras crianças. “Além da pele escura, meus cabelos não balançavam ao vento como o das outras meninas. Pedi minha mãe para deixar mais molinho, pois ao comparar com os das minhas coleguinhas, meu cabelo era duro”, relembra.  “Inicialmente relaxei, depois alisei e tive momentos de tristeza quando aconteciam os cortes químicos. Eram mechas inteiras caindo durante o banho”, lamenta.  

“Cansei. Aos 13 anos, coloquei trança e foram 4 anos sofrendo a cada três meses fazendo manutenção. Aos 17, decidi assumi meus cabelos, mas novamente não aceita por conta do volume, relaxei outra vez. Já era minha segunda transição capilar. Usei tranças mais 2 anos. Aos 19 anos, no segundo ano de faculdade, super esclarecida de quem eu era, me senti preparada, cortei meu cabelo com a ajuda da minha mãe e desde então assumi meu crespo”, recorda Alana.

Alana aos 12 anos, com os cabelos alisados / Arquivo Pessoal

A agora especialista em cabelos afro relata que era ridicularizada nas ruas e, de tanto procurar por profissionais capacitados e não encontrá-los, decidiu tornar-se cabeleireira.  “Ali me encontrei enquanto profissional, aliando minha graduação em comunicação social”, garante.

“Trabalhei três meses num salão específico para cachos, depois passei atender em domicílio por quatro anos. Dentre os cursos na área da beleza, encontrei Estefanie, nos identificamos enquanto negras, crespas, mães, publicitárias e nutríamos projetos de um espaço para cacheados semelhantes”, diz.

A parceria dessa dupla afro-empreendedora resultou em um salão, o Casa Nêga, que funciona no bairro do Poço, em Maceió. O objetivo, segundo as sócias, é cuidar dos cabelos e também acolher e ajudar as clientes a descobrirem a própria beleza, natural. “Nossa maior realização é saber usar todo produto e equipamentos necessários para a transição, promovendo o reencontro de nossas clientes com suas identidades, oprimidas por anos”, fala Alana, satisfeita.

“Assumir seus cabelos não  trata somente da questão estética. É um ato político, conceitual. É dizer “não” aos padrões e “sim” à liberdade de ser quem se é”.

Dito e feito.

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