Preto. Pobre. Feio.

Enquanto escrevo a última postagem da série reconsidero o poder que as palavras têm sobre quem as ouve. Se criança então, a energia gerada é potencializada, torna-se parte do DNA e é levada como cicatriz por toda a vida. O que você tem dito a quem está por perto?

Preto. Pobre. Feio.

Por que insistimos em rotular seres humanos e, do alto de uma superioridade que só existe na nossa cabeça, achamos que somos melhores? O que te faz melhor? O que ‘ser melhor’ significa? Se antes o açoite era levado nas mãos, hoje carregamos nos olhos e não fazemos questão de esconder.

Preto. Pobre. Feio. Estas foram as três palavras mais ouvidas pelo garoto Wesley Barbosa Santos, na década de 1990, quando ainda vivia em uma comunidade carente no Vergel do Lago, em Maceió. Filho de uma mãe leoa, dona Marlene, ele aprendeu muito cedo que tinha nascido em desvantagem social e que precisaria tomar uma decisão: o que fazer com aquelas palavras.

O pequeno Wesley em destaque, no Vergel do Lago / Arquivo Pessoal

“Decidi usar todo o preconceito como energia de mudança. De alguma maneira eu entendi que a melhor vingança social seria vencer na vida, mostrar que eu tinha meu valor e que eles estavam enganados”, contou Wesley, durante entrevista feita por telefone ao blog.

Atualmente o executivo tem 33 anos e vive em São Paulo, onde tornou-se sócio e diretor de comportamento de Consumo da XP Inc, uma das empresas que mais se destacou em 2019. De 2013 a 2015 ele fez parte da equipe do Facebook no Brasil, e de 2016 a Outubro deste ano, viveu uma fase muito bem-sucedida no Vale do Silício, na Califórnia, EUA. O alagoano também tem cursos de extensão em universidades renomadas como Harvard, MIT e Columbia, e gosta de compartilhar suas experiências nas principais redes sociais, ajudando quem está precisando de conselhos para aprimorar a carreira.

Preto. Pobre. Feio.

“Eu percebi o que era ser preto ainda muito pequeno. Minha mãe precisava trabalhar e deixava eu e meu irmão – que é branco – com parentes. Quando algo acontecia, era eu quem apanhava mais. Se algo sumisse de dentro de casa, a culpa era minha”, revela.  “Eu notava que sempre era comparado com meu irmão, por isso decidi me destacar de alguma forma”.

Na quarta série do colégio Santa Tereza, no Vergel, Wesley tira uma boa nota em matemática e sua mãe passa a ser sua maior inspiração. “Eu queria que ela me admirasse cada dia mais e passei a me dedicar mais aos estudos”, relembra. “Quando fiz o vestibular, não quis entrar pelas cotas. Era uma questão de honra”, garante.

Na adolescência, foi rebelde até se destacar em Matemática / Arquivo Pessoal

“Depois de formado em Adminstração e Marketing e fazer intercâmbio fora do país, voltei para o Brasil, onde concorri a mais de dez vagas de trainee. Passava por todas as etapas, mas quando chegava na entrevista presencial, perdia”, diz o executivo. “Além de preto, nordestino. O preconceito ficava nítido. E quando eu comentava com algum colega ainda tinha que ouvir que eu não era tão negro assim“, lamenta.

Depois de devorar uma revista que trata de negócios onde a matéria de capa era sobre a expansão comercial da China, Wesley decide ir morar no país asiático oriental. “Lá eu não era negro, nordestino, isso ou aquilo. Era um estrangeiro que estava ali para trabalhar”, explica.

A experiência deu certo e o executivo viveu na China por quatro anos. “Quando voltei para o Brasil, eu já tinha um bom rendimento, passei a frequentar locais mais requintados e entrei numa bolha onde só estão pessoas com boa condição financeira”, explica. “Nesse momento passei a viver outro tipo de racismo, pois era comum eu ser confundido com o entregador, o porteiro, garçom e até segurança”, revela o executivo.

Preto. Feio.

“Me recordo de passar em uma loja de carros da Mercedes e decidi entrar, a pé, para colher informações. Eu já tinha uma BMW, mas estava perto do trabalho e decidi ir caminhando. Ninguém me atendeu e eu fui para casa muito frustrado”, relembra. “No dia seguinte, de propósito, voltei com meu veículo e parei propositalmente na porta da concessionária. Desci descalço, bermuda e camiseta rasgada e três vendedores vieram me atender. Deixei claro o que tinha acontecido e que eu era negro sim, mas tinha dinheiro para comprar à vista. Só não comprei lá porque decidi trocar a BMW por outra, mais nova”, rememora.

Wesley conta que passou pela fase de relevar, de ficar revoltado (como no caso da concessionária) e agora está na fase de educar. “Quero fazer as pessoas pensarem ao invés de simplesmente reagir”, assegura.

“Três semanas atrás estive no escritório de uma empresa que trabalhei, onde fui buscar uma pessoa para almoçar. Enquanto aguardava na frente do prédio, um segurança veio até mim e informou que as entregas eram feitas na guarita, na parte de trás. Cinco minutos depois veio outro. Quando o terceiro veio, eu resolvi perguntar, calmamente, por que ele achava que eu era entregador e por que só vinham falar com ele, se tinham outras pessoas – brancas – no mesmo ambiente”, relata. “Constrangido, ele não esperava que eu conversasse sobre racismo e saiu sem saber o que dizer”.

Quando vivia fora do Brasil, suas ações eram questionadas pelos colegas de trabalho com certa frequência, no primeiro ano. “Conversando com uma conhecida, também negra e mais experiente, ela me contou que pretos em cargos de liderança costumavam passar por esse tipo de situação, mas que com o tempo aquilo acabaria. E acabou. Negros bem-sucedidos incomodam”, constata.

Preto. Assumido.

“Não acredito que isso mude, porque o preconceito está entranhado culturalmente, mas acredito em equidade. As políticas públicas precisam promover um período de fomento para negros e periféricos. Equilibrar direitos e incentivar educação de qualidade. Tirar o negro da base e dar a ele condições igualitárias. Se o preto está profissionalmente preparado, por que não dar a ele a oportunidade de liderar? Certamente terá uma visão mais ampla em formar sua equipe e avaliar, sem preconceito, possíveis candidatos”.

Preto. Exemplo.

Aos meninos e meninas que estão passando pelas situações vividas pelo agora executivo de sucesso, ele deixa a reflexão que transcreverei sem interferências textuais.

“Não se engane. A cor da sua pele importa. Existe preconceito. Existe desequilíbrio. Se você é preto, nasceu em uma desvantagem social e é importante que isso não te desanime, mas te faça mais consciente”.

“A raiva é um dos sentimentos mais fortes, cheia de energia neuronal. Transforme esse sentimento em combustível para tomar atitudes que te levem pra frente, que garantam bons resultados”. E segue: “Eu sei que falta estrutura, que a realidade não é fácil, mas você precisa fazer o seu papel e provar para as pessoas que te julgam mal que elas estão erradas”.

Preto. Bem-sucedido.

Feio? Depende de quem olha.

  • Rose Damas

    Parabéns ´por todas essas matérias no Mês da Consciência Negra.
    Por mais histórias inspiradoras como essas.