O moloque com carinha sapeca, à direita, sou eu

Nasci em novembro de 1977. Cresci na periferia da Zona Leste de São Paulo e me lembro que, em plena década de 1980 e apesar da violência crescente, ainda era possível brincar com [email protected] da mesma idade, na rua. A hora para entrar era nove da noite e brincávamos na porta de casa. Queimado, marreta, pião e amarelinha eram minhas brincadeiras preferidas.

Menina miúda, já pedia para minha mãe cortar meu cabelo curto. Nunca tive cabelo longo simplesmente porque nunca gostei e quando não era ouvida, eu mesma fazia o modelo e tesourava a franja, que subia na frente por conta de um redemoinho. Vencida, dona Audinete TINHA que fazer o modelo “joãozinho” para ajeitar o estrago.

Bonecas tive muitas, mas nunca as tirava das caixas. Não via graça e sentia certo medo daqueles rostos olhando para mim, sorridentes, de cima do guarda-roupas. Minha paixão mesmo era pipa e isso era motivo de várias brigas na rua, porque os meninos não queriam me passar a linha. Alegria era ver a lata enrolada com uma linha novinha, branca, e ajudar a fazer uma rabiola linda, colorida, com tiras de plástico caprichosamente amarradas em fila.

Videogame Atari era sonho de consumo e nada feminino

Por quatro anos seguidos pedi um carrinho com controle remoto de presente, depois mudei para o videogame Atari. Ganhei a coleção do “pequeno pônei”. OK, ao menos não me davam medo. Nunca gostei de Barbie ou da cor rosa. Todas as bandas teen da época também eram formadas por meninos e eu queria me vestir igual a eles.

Joguei muita bola e tentei colecionar bolinhas de gude em um pote de vidro de Nescafé, mas meus primos tomavam posse. Eu era fascinada pelas chimbras transparentes pois se pareciam um microuniverso, cheio de estrelinhas. As mais valiosas, no entanto, eram as ‘dente de leite’.

Arquivo pessoal

Outra coisa curiosa era meu amor à água de praia e piscinas, inversamente proporcional, era meu desprezo ao biquíni. Simplesmente não entrava na minha cabeça que eu tinha de usar a parte de cima e os meninos não. “Meu peito é igual aos deles, por que tenho que esconder? ”, perguntava no decorrer da infância à minha mãe. Tive um primo gordinho que tinha mais peitinhos que eu, ele sim tinha que usar.

Fui moleque até a puberdade, quando percebi as primeiras mudanças no corpo e tive de lidar com a transição, perto dos 11 anos. Foi nessa época também que me vi apaixonada platonicamente por um menino da quinta série e, depois, por um vizinho que tinha acabado de trocar os dentes da frente (as paixões seguiram platônicas até os 16 anos, mas isso eu conto em outra postagem).

Tive uma família que me via como criança e não me obrigava a seguir nenhum padrão (exceto o biquíni), e mesmo recebendo influências masculinas externas e tendo mais interesse no universo dos meninos, sou hétero. Por que?

Deixando questões técnicas a quem são de direito, meu testemunho simples é que o ambiente social no qual eu fui inserida não determinou minha sexualidade porque ela já nasceu comigo. É instintiva. Cada um é do jeito que é, ainda mais entre quatro paredes.

Com a maturidade, descobri o prazer da maquiagem e do salto alto. Mudei o corte de cabelo, cores então…nem se fala. Vestidos, esmaltes e toda sorte de biquínis também aprecio hoje, mas não se engane: ainda esqueço da vida vendo uma pipa no ar e saio no tapa por uma bola de gude, sobretudo se for transparente.

Sua natureza só diz respeito a você e às pessoas que amará no decorrer da vida. Sua sexualidade é sua, de mais ninguém.

  • Cristina Kovacs

    Ela nasceu como luz, mas de verdade diferente de sua época..com sua mente inquieta e questionadora sempre acima da média.
    Vc é assim alguém incrível que amamos conviver..

  • Erika

    Que relato interessante que ne fez pensar que certamente me faltaram coleguinhas meninos na infância para ser uma pessoa um pouco mais “maloqueira”, mais leve. Some resta rezar para que me apareçam amigas mais leves que eu.

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