Quando iniciei a série RESISTÊNCIA, Géssika Aline Lima da Costa, de 26 anos, estava em São Paulo, concorrendo a uma premiação nacional com mais uma matéria cheia de sensibilidade. Formada em 2015, ela venceu e trouxe para Alagoas seu 12° troféu, o sexto nacional, de uma carreira recente, mas cheia de importantes conquistas.

Géssika entre os vencedores de prêmio em SP/ Arquivo Pessoal

Voltando um pouco no tempo, Géssika me conta que a escolha da profissão aconteceu durante uma gincana, ainda no Ensino Médio, quando o tema escolhido pela equipe foi a eleição americana daquele ano, com Barack Obama como principal candidato. “Enquanto produzíamos o material, descobri o gosto na escrita e na apuração das informações e decidi ser jornalista”, recorda.

Conheci Costa quando ainda estagiava e, posteriormente, ela passou alguns meses com a gente aqui na redação do TNH1, tirando as férias de um colega. Foi nesse período que conversamos sobre temas ligados às questões raciais. “Me incomoda a falta de representatividade nas redações. Somos bons, recebemos as mesmas ferramentas de aprendizagem e trabalho, mas é como fôssemos invisíveis”, observa.

Géssika ainda menina, com cabelos alisados por escova / Arquivo Pessoal

Na faculdade particular onde estudou, Géssika era a única aluna negra de sua turma. Nesta época ela também entendeu que deveria assumir sua identidade afro. “Eu alisava meus cabelos desde os dez anos de idade. Não só eu, mas todas as mulheres da família”, relata. “Decidir fazer a transição capilar foi o primeiro passo para eu me tornar quem sou hoje”, acrescenta.

Pós-formatura, encontrou poucos colegas da mesma descendência formados. Enquanto ouço seu relato, puxo pela memória e me recordo de três repórteres pretos. Nenhum deles ocupa cargo de chefia.

Filha de uma técnica de enfermagem e de um vigilante, ambos aposentados, Costa vive na mesma casa desde que nasceu, no bairro da Ponta Grossa, periferia de Maceió. “De vez em quando sou abordada por meninas do bairro e também estudantes de Comunicação Social que veem em mim uma referência e isso duplica meu senso de responsabilidade”, conta.

Apaixonada pelo jornalismo literário de Gabriel García Márquez, uma das particularidades da jornalista é decorar o primeiro parágrafo de cada livro de Gabo. “É mania”, sorri, citando o primeiro título e a tal frase. Sorrio de volta, admirada. Só faz esse tipo de coisa quem ama as palavras.

Géssika durante mais uma premiação / Arquivo Pessoal

Duas pérolas negras

‘Imigrantes africanos enfrentam discriminação na terra de Zumbi’ foi uma das reportagens de Géssika que me chamou atenção. Nela a jornalista relata a história de imigrantes africanos que vivem em Alagoas e passaram por episódios de preconceito.

‘A pele que habito’ , no entanto, foi a que mais mexeu com a autora. “Falei sobre o perfil mais vulnerável em Alagoas, do qual eu também faço parte: jovens negros e de periferia”, diz. “Ofereci o prêmio que ganhei à memória de um primo, morto à facadas em Craíbas, aos 28 anos”, acrescentou, emocionada.

Me recordo então do Código de Ética da nossa profissão que diz que “todo jornalista deve opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Este código parece correr pelas veias da minha colega de profissão, literalmente.

Arquivo Pessoal


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