O cheirinho de boa comida pairava no ar do restaurante recém-aberto no bairro da Ponta Verde, em Maceió, quando encontrei Maria Neide Martins, que prefere ser chamada pelo nome de fé, Mãe Neide Oyá D’Oxum, para uma rápida entrevista.

O turbante bege iluminado por uma textura que me lembrou a areia da praia quando o sol a ilumina adorna um rosto calmo, maternal que me sorriu de longe quando cheguei ao estabelecimento pouco antes do almoço, me reconhecendo, mesmo só tendo conversado com a ialorixá por telefone. O dolma feito sob medida e uma saia com estampas africanas fechavam o visual. Se pudesse comparar Mãe Neide com algo, seria um passarinho.

Além de comandar a cozinha no Baobá, a líder religiosa também é mestre do Patrimônio Vivo do Estado e Embaixadora da Gastronomia de Alagoas, títulos concedidos por sua representatividade e luta pela igualdade de direitos de quem professa a mesma fé, baseada nas religiões de matriz africana.

A conversa que tivemos sobre racismo e intolerância foi tão rica que tentarei transcrever sem tantas intervenções, por entender que escrevo para quem gosta de ler e não tem problemas com textos um pouco mais longos.

Avô escravizado e avó albina, pai preto e mãe indígena, todos de origem quilombola. Mãe Neide nasceu em Arapiraca há 60 anos de uma mistura de vários povos. Todos professavam o catolicismo como religião titular, mas alguns ainda mantinham seus ‘cantinhos de oração afro’ escondidos em um cômodo pequeno de casa.

“No passado a igreja católica predominava no Interior. Ter outra religião não era visto com bons olhos, por isso minha mãe, por cuidado, era dedicada à religião oficial e nos ensinava o mesmo, com medo que sofrêssemos algum tipo de perseguição”, rememorou. “Se alguém nascesse com algum tipo de mediunidade, até reprimia o dom para não sofrer represália”.

Impossível ouvir as histórias de Neide D’Oxum sem lembrar do episódio conhecido como “Quebra de Xangô”, ocorrido em 1912.

Contam os historiadores que extremistas religiosos da época invadiram casas de culto afro-brasileiros de Alagoas e destruíram tudo. Os líderes religiosos que não morreram, tiveram de fugir se esconder nos estados vizinhos. (Vale ressaltar que a intolerância contra afro-descentes e indígenas é considerado crime de discriminação, sem direito à fiança)

Menina sabida 

“Antigamente, quando a criança nascia diferente, com algum dom inexplicável que a fizesse ver ou ouvir coisas que pessoas comuns não conseguem, era chamada de SABIDA. Ninguém queria ter esse apelido, porque havia um misticismo demoníaco que vinha com ele. Criança sabida era criança possuída por algum espírito ruim”, explica Neide. “Quando minha mãe entendeu que eu era diferente, tentou de todo jeito e com todos os recursos impedir minha mediunidade, não por intolerância, mas temendo o que poderia acontecer comigo”, relembra.

 “Minha avó paterna foi internada no hospital psiquiátrico Juqueri, em São Paulo, depois que em um dos transes começou a falar idiomas diferentes, inclusive alemão. Aquilo era inexplicável para alguém que nunca estudou e meu avô não viu outra alternativa, a não ser interná-la para que se curasse – ele acreditava que ela estava realmente doente – e passou a cuidar dos filhos sozinho”, recorda a ialorixá. “O medo que minha mãe tinha era de que acontecesse o mesmo comigo, por isso ainda na adolescência já era acompanhada por psiquiatras, no Recife”, acrescenta. “Não conheci minha avó. Ela morreu no Juqueri, abandonada”, lamenta.

Na adolescência, por não conseguir compreender os dons, Neide tentou suicídio algumas vezes. “Eu ouvia minha mãe dizer que aquilo era coisa do demônio, que preferia me ver morta do que vítima de bruxaria. Isso mexia muito com minha cabeça e passei a me sentir demonizada. Então a depressão chegou”.

A adolescente Maria Neide, aos 15 anos / Arquivo Pessoal

“Minha tia Marina então veio nos visitar e garantiu que eu não era doida, mas precisava  ser cuidada da maneira correta. Quando escapei por pouco da última tentativa de suicídio, a médica que cuidava de mim me convenceu a participar de reuniões kardecistas, que estavam iniciando suas atividades em Arapiraca. Me lembro que o local das reuniões era muito simples, um quartinho assim, ó, não tinha nem reboco nas paredes. Foi ali que comecei a aprender sobre mediunidade e descobrir qual era meu chamado”, recorda.

Aos 14 anos Maria Neide já frequentava a Federação Espírita em Maceió, mas esbarrava em um dilema. “Nas reuniões, os espíritos que traziam mensagens psicografadas eram evoluídos, mas os que faziam parte da minha matriz eram considerados obsessores. Mesmo assim segui frequentando até que um dos líderes veio até mim e revelou que minha missão estava atrelada à religião de matriz africana. No kardecismo entendi que ser um espírito de luz é ter um bom coração, pensar no próximo e tudo isso refletir em nossas ações”, diz. “Visitei alguns terreiros e encontrei minha mãe na fé, Celina, que está viva até hoje, lúcida aos 102 anos. Sou ialorixá há 38 anos”.

Preconceito, machismo e racismo

Casada há 32 anos, mãe de quatro filhos, Neide explica que é preciso entender que muitas vezes o preconceito vem de pessoas com histórias de vida que não permitiram a elas o conhecimento necessário. “O que dói mais é quando a pessoa sabe exatamente o que está fazendo e decide pelo racismo, baseado no ódio. O ódio em si é irracional, não permite que quem o sinta raciocine com equilíbrio”.

Mulher negra, ativista, líder religiosa e mãe de homossexual. Os quatro atributos da minha personagem a coloca em uma vitrine virtual – potencializada pelas redes sociais – e a torna alvo de todo tipo de manifestação de ódio. Durante a entrevista, em alguns momentos, percebi os olhos marejados da idosa, mas ao tratar do amor à família (que se estende aos filhos na fé que adotou) o olhar fica mais carregado de afeto.

“Foi Deus quem escolheu e me confiou tudo que tenho hoje. Ele sabe a quem dá o peso e eu procuro respeitar e honrar o que vem até mim, com muito amor”.

Quando o virtual ameaça o real

Em 2015, um caso de intolerância religiosa envolvendo Mãe Neide e um de seus filhos na fé, o ator Henri Castelli, causou uma verdadeira tempestade na vida da ialorixá. “Eu sou a mãe preta de Henri. Entre nós ele é filho, não o famoso, tanto que prefere ficar em nossa casa quando vem à Maceió. Meu terreiro fica no conjunto Village Campestre e ele prefere ficar lá, ajudando nas rotinas, inclusive na limpeza”, revela. “Esperamos pela Duda com expectativa, conheci a mãe dela que, mesmo sem tanto contato comigo, sabia Henri é um homem do Axé e sempre foi bem tratada”, recorda.

Em 2015, Castelli publicou nas redes sociais fotos da filha, Maria Eduarda, vestida com roupas africanas durante uma visita à mãe Neide, o que causou fúria na mãe da menina, Juliana Despirito. Também pelas redes sociais ela se manifestou contra o ator e, segundo a Justiça, cometeu crimes ligados à intolerância.

Apoiada por Henri Castelli, Mãe Neide decidiu registrar queixa e não pediu indenização, apenas que Juliana respondesse pelo desrespeito que praticou. “Fui exposta, e colocada nas capas de revistas e jornais do país. Eu estava em todos os sites também”, relembra.

Com a repercussão nacional do caso, chegaram também os internautas que destilavam ódio gratuito, ameaçando não só a líder, como sua família. “Foram mais de 60 mil comentários atacando a nossa religião, alguns iam além e prometiam invadir e queimar o terreiro”, fala, angustiada. “Com o medo, desenvolvi síndrome do pânico e passei a ser medicada. Enquanto meus filhos não chegavam da faculdade, eu não tinha paz. Tinha medo de ser apedrejada. Tinha medo que fizessem algo com eles também. Quando o telefone tocava, eu relutava em atender. Foram meses de puro terror”, rememora.

Juliana foi indiciada por intolerância religiosa e responde em liberdade.

A palavra é RESISTIR

Desde muito cedo, Neide percebeu que precisava lutar para que seus filhos vivessem em um mundo menos preconceituoso, o que segundo ela, parece estar longe de se tornar realidade. “Se for preciso, começamos tudo de novo, mas não podemos deixar de lutar por direitos igualitários”, enfatizou.

A quebra do silêncio por parte dos seus quase 200 filhos na fé é algo que a ialorixá também tenta fomentar. “Quem tem que ter vergonha é quem pratica o racismo, quem carrega o preconceito em si. Quem sofre tem que denunciar e buscar seus direitos legalmente”, aconselha.

Além do terreiro no Village, Mãe Neide também cuida de outro, aos pés da Serra da Barriga, berço Quilombola em União dos Palmares, na Zona da Mata alagoana. “Lá cultuamos a parte da Jurema e dos caboclos”. No mesmo local também há um espaço gastronômico, usando especialmente para as festas dos santos.

Iabassê: a cozinheira do Sagrado

“Quando comecei na vida religiosa, me preparam para ser Iabassê, ou cozinheira do Sagrado. Fui ousada e aproveitei tudo que aprendi com minha avó materna, Cecília, que era a cozinheira do Quilombo. Criei, através da comida, uma maneira de ganhar algum dinheiro para manter o terreiro. Depois chegou a proposta de receber turistas com a culinária afro, e com isso criei o projeto social que mantemos até hoje, graças a Deus”, comemora.

“Quando me convidaram para cozinhar na Serra da Barriga, anos atrás, percebi que era um novo desafio a enfrentar. Fogo à lenha e muito o que aprender. Me lembro de um dia que me disseram que eu ia cozinhar para 80 pessoas e o evento atraiu 800. Depois deste dia passei a cozinhar com o auxílio das filhas mais velhas do terreiro, que me ajudaram por um longo tempo”, recorda.

O dom sagrado de Mãe Neide ainda foi aprimorado com o curso de Gastronomia que ela fez em uma faculdade particular na Capital, que a capacitou para ter seu próprio negócio. “Eu queria vender acarajé, mas quando vi tinha nascido o Baobá”, comemora, sorrindo.

Satisfeita com a conversa, agradeci e me despedi da Iabassê / mulher negra / líder religiosa / ativista e mãe arco-iris com um longo e afetuoso abraço.

Enquanto nos despedíamos, perguntei à agora chef de cozinha se ela acha que a proposta do ambiente afro vai dar certo. “Quando inauguramos o restaurante, denunciaram que estávamos construindo um terreiro, como se estivéssemos praticando algo de errado”, relata.

“Trouxemos um pedaço do quilombo para dentro da Ponta Verde e esperamos que quem chegue aqui sinta-se acolhido. A gente só pode dar aquilo que tem dentro da gente e aqui temos resistência, tolerância e amor”.

Da porta do restaurante vi quando ela conversou com duas funcionárias e retornou à cozinha, sorrindo.

Voa, passarinho.

  • ELIETE SOUSA DE ARAUJO

    Matéria linda ! só podia você Dayane escrever com tanta emoção a história da Mãe Neide.

  • Denise

    Gente que texto maravilhoso.
    Longo, porém gostoso de se ler.
    Sentimos tocar a alma, a transcrição dos momentos são de uma leveza pura.
    Mãe Neide é um ser de LUZ!!!
    É importante sempre mostrarmos estas histórias.

  • Rose Damas

    Matéria linda e cheia de sabedoria.
    Mãe Neide,todo meu respeito e admiração.