Fabiano trabalha servindo bebidas próximo à Rodoviária – Imagem: SA

Quem tem medo do lobo mal ainda não descobriu a angústia do que representa a palavra “desemprego”. Perder a fonte de renda – às vezes a única da família – tem sido motivo de muitos perderem também noites de sono e desenvolverem doenças de origem emocional.

Se pensarmos por cinco minutos, vamos nos lembrar de algum parente ou amigo próximo que está sem ocupação. E este não é um fator isolado. Infelizmente, o Brasil acumula 13 milhões de desempregados e outros milhares de desalentados, ou seja, aqueles que já desistiram de tentar uma recolocação no mercado de trabalho com carteira assinada.

Fila de desempregados a serem atendidos no Sine Maceió / SA

Não desanimar é algo que o atendente do Sine, unidade do Jaraguá, Thamysson Alencar, reforça em todos os seus atendimentos. “Já promovemos um curso gratuito para incentivar o reingresso no mercado de trabalho e dos 50 participantes, 42 conseguiram”, comemorou. “Entre eles, alguns que estavam desempregados há mais de 3 anos”, relembrou o atendente durante entrevista.

Sine atende todos os dias e oferece cursos gratuitos

Sentabes

Dados repassados pela diretora de Trabalho e Emprego da Secretaria Municipal do Trabalho, Abastecimento e Economia Solidária (Semtabes), Camila Limeira, mostram que:

  • Cerca de 300 atendimentos acontecem todos os dias nos postos do Sine Maceió;
  • A faixa etária que mais busca os serviços está entre 20 e 35 anos, de ambos os sexos;
  • Dez cursos presenciais são ofertados de graças para quem quer se reciclar;

Quem não puder ir até os postos do Sine Maceió também pode realizar cursos pela internet. São mais de 40 modalidades e emitem certificado pela UNB. Para ter acesso às opções basta acessar o site Escola Trabalho.

Mas o que fazer para reconquistar uma vaga? Em entrevista ao blog, a consultora de Recursos Humanos Neide Barros ressalta que a resposta para virar a página e recomeçar a planejar sua vida profissional pode estar no passado. “Redescobrir sonhos antigos e habilidades adormecidas pode ser o primeiro passo para uma mudança radical de carreira, e de vida, principalmente”, disse. “Quem sabe da coragem e determinação não nasça um novo empreendedor? ”, considerou.

No Brasil, 28 milhões improvisam

Não há problema nenhum em improvisar algo para tentar ganhar algum dinheiro antes de conquistar uma recolocação no mercado formal, mas lembre-se: mesmo sem vínculo, é preciso continuar pagando a Previdência Social (agora mais que nunca) para que no futuro não sofra com a demora no acesso à aposentadoria.

Andando pelas ruas de Maceió, me deparo diariamente com vários personagens intrigantes vendendo suas mercadorias nos semáforos, dentro dos ônibus, no calçadão do Centro ou entre as bancas de artesanato na Pajuçara. Estão por toda parte.

O que chama a atenção? Quem trabalha com luz nos olhos e otimismo nos lombos. Separei dois exemplos que podem espelhar bem o que quero dizer.

Fabiano, o garçom ‘drive thru’

A pista é o ‘restaurante’ de Fabiano / Imagem: SA

Quem passa pelas imediações d o Terminal Rodoviário João Paulo II, em Maceió, já deve ter visto um “garçom” sorridente que oferece água, sucos diversos e água de coco entre os carros. Fabiano dos Santos Tenório, de 28 anos, sempre está bem vestido e aproveita os poucos segundos do semáforo vermelho para comercializar seus produtos. E assim é há seis anos.

Morador do Clima Bom, ele divide sua rotina entre o ponto de venda e os cuidados com sua mãe, recém atingida por um AVC. “Meu trabalho também leva algum tipo de alívio aos motoristas, a maioria sempre tá com a cara fechada como se estivesse infeliz”, falou. “Gosto do que faço e já penso em contratar um ajudante”, acrescentou.

A pista é o ‘restaurante’ de Fabiano / Imagem: SA

Mas não é qualquer ajudante. Fabiano quer contratar um anão que conheceu meses atrás, no conjunto Rosane Collor. “Se o desemprego está grande, imagine para alguém que tem uma deficiência como essa? O problema é que preciso de uma roupa apropriada para ele e não tenho como mandar fazer no momento”, lamentou.

Enquanto conversávamos, percebi que as roupas do garçom estavam bem desgastadas, mas muito limpas e bem passadas. Mas e a crise? “Crise mesmo a gente vai enfrentar quando a água acabar. Até lá, tudo tem jeito”, disse Fabiano, me surpreendendo com a resposta.

Irmão “Glória”

Josevaldo chega às 5h da manhã em seu local de trabalho / Imagem: SA

O senhor Josevaldo Cabral do Nascimento, de 47 anos, vende suas tapiocas quentinhas diariamente em frente ao Makro, na parte alta de Maceió, a partir das 5h da manhã. Quando paramos no semáforo, vemos ele todo arrumado com sua caixinha, oferecendo sua iguaria. Entre os carros, ouvimos um “oh, glória” dele, aqui e acolá. Evangélico, ele é o otimismo em pessoa.

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♡CONSEGUIMOS A BIKE ♡ (TEXTÃO) Este é o senhor Josevaldo. Se vc mora em Maceió, já o viu em frente ao Makro vendendo suas tapiocas pela manhã, todo arrumado e sem um fio de cabelo fora do lugar. Alegre, ele aproveita o semáforo para vender sua iguaria, transmitindo uma força que chama atenção. . Outro dia o vi enxugando os olhos, como se tivesse chorando. Não combinava com a animação que estou acostumada a ver às 5h, todo santo dia. Resolvi puxar papo pra saber oq tinha acontecido. . A bicicleta que vcs estão vendo na foto 2 não é dele. Ele já teve duas roubadas e precisou desta emprestada. Assaltos já sofreu 9. . "Um deles colocou a pistola na minha cabeça e levou todo o dinheiro". Enquanto falava, fiquei pensando que tipo de pessoa rouba alguém como o "irmão". (Apelido dado pelos clientes pq Josivaldo é evangélico e entre um "Olha a tapioca!" e outro, também rola um "Glória a Deus!") . Depois de um tempo conversando perguntei se no dia que o vi chorando ele tinha sofrido mais um roubo. . Ele:"Eu sinto falta da minha filha, Ester. Ela morreu em dezembro do ano passado. Tinha 13 anos" Eu: O.o Ele: "Eu nunca deixei minha filha lanchar na escola, mas cheguei mto cansado do trabalho e dei $5 pra ela comer um pastel na cantina. Ela comeu, passou mal e 3 dias depois morreu". Eu: …. o senhor sabe oq houve? Ele: "O pastel estava contaminado com alguma coisa de rato. Tentamos de tudo, mas ela ~desfaleceu~ nos meus braços" Silêncio Eu: mas o senhor entende que não teve culpa? Ele: "Sei que Deus não me culpa, mas minha mente humana às vzs sim. Se eu não tivesse dado o dinheiro, Ester não teria comido e ainda estaria com a gente". A voz então sumiu, as lágrimas apareceram. . Tive vontade de abraçar o senhor Josevaldo. Mas aí iríamos chorar os dois. . Então me contou que quando volta para casa, 8h, descansa um pouco, faz novas tapiocas e por volta das 14h abastece a bike emprestada e #partiu Aldebaran / Antares / Salvador Lyra e Santa Lúcia. "Chego em casa 18h, tomo banho, janto e vou pra igreja com minha família". E assim é quase todos os dias. . Percebi q o "irmão da tapioca" trabalha pra esquecer. Para não pensar.

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Já foi assaltado várias vezes e teve duas bicicletas roubadas, mas mesmo assim não desiste das tapiocas. “Daqui tiro o sustento da minha família, graças ao senhor Jesus. É ele quem me traz os clientes”, assegurou, sorridente.

Nos dois exemplos citados uma coisa em comum: OTIMISMO. Outra coisa que vale ser citada: nenhum dos dois personagens disse que a jornada diária é fácil, mas dá para perceber que eles fazem o que gostam (e com excelência).

Josevaldo chega às 5h da manhã em seu local de trabalho / Imagem: SA

Faça o que for necessário, mude de profissão se preciso… mas não deixe de acreditar em você. E se faltar autoestima, vá sem ela mesmo.

Mexa-se!

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