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Quando comecei a ter uma noção de sociedade era a década de 1980. Ainda usávamos fichas para falar ao orelhão, cartas para nos comunicarmos com aquele parente distante e quando algum caso de violência repercutia era através da TV, dos jornais e revistas impressos. Foto só em máquina fotográfica e quem tinha uma com filme com 36 poses era considerado abastado. Eu tinha horário certo para assistir a desenhos, programas infantis e costumo dizer que minha primeira babá foi a TV, já que minha mãe trabalhava até aos domingos para manter os boletos sob controle.

Acompanhei a chegada da internet, sua expansão e aqui estou eu hoje do alto – nem tanto – dos meus 41 anos, refletindo que fiz bem em não ter filhos. A Educação que recebi é considerada abusiva para os padrões atuais. Apanhei de cinto, levei beliscões quando agia inapropriadamente. Minha mãe era autoridade real e eu tinha que obedecer. Ponto final.

Um pouco mais velha, filha de mãe solteira, vivenciei coisas e situações que me fizeram decidir que só teria filhos se encontrasse um companheiro à altura, disposto de igual forma e com inclinação à adoção. Nada de criar sozinha. Opção minha.

Observando de fora da condição maternal percebo que muitas das crianças que chegam ao mundo atualmente já nascem numa espécie de bolha hiperconectada. O perfil nas redes sociais é criado ainda na gestação e segue com imagens do parto e primeiros passos e, pasmem comigo, os pequenos parecem já saber posar para fotos antes mesmo de começarem a dar os primeiros passos.

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Já vi e sei que você também já viu uma criança chorando em local público. Antes éramos repreendidos por nossos responsáveis, hoje nos são dados pequenos poços de tecnologia onde afundamos na web, ignorando – ou quase – a realidade. É um controle remoto momentâneo que nos dá a sensação de termos os pequenos sob controle. Mas quem os controla, na realidade?

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Me pergunto onde essa overdose de tecnologia pode conduzir as próximas gerações. E foi conversando com uma especialista em psicologia infantil, Flávia Tavares, que obtive algumas respostas.

Toda criança ansiosa se torna deprimido na fase adulta?

Não. Mas para isso precisa cuidada o quanto antes.

A ansiedade é uma das características mais presente nas novas gerações. Diferentemente das anteriores, as crianças já chegam ao mundo imersas em ambientes onde a tecnologia dita o ritmo do trabalho e das relações. Não se engane: é preciso tratar para que não evolua para um possível quadro de depressão. E os casos estão chegando cada vez mais cedo aos consultórios.

Com a ansiedade chega o pior efeito colateral: o imediatismo. Um toque e lá está um vídeo, uma foto, uma mensagem, instantaneamente. Essa imersão tão precoce nas tecnologias modifica tanto a forma como crianças lidam com o tempo quanto a maneira como absorvem e processam as informações. Ambos os fatores podem colaborar para o aumento dos níveis de ansiedade.

Pesquisas apontam que o uso das tais telas a partir dos 2 anos já pode alterar as emoções dos pequenos. Até 4 anos, meninos e meninas que são mais expostas à tecnologia, apresentam o dobro de chances de perder a paciência e, pouco menos da metade delas, 46%, possuem menor probabilidade de se acalmar em situações de excitação ou estresse.

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Mas não dá para colocar tudo na conta da tecnologia. O comportamento dos pais, esse sim pode ser um fator determinante. Adultos ansiosos terão mais chances de transferir esta característica para os filhos. Nada menos que ser os melhores alunos, obedientes, os mais descolados, e não transparecer tristeza. Com tanta pressão, os pequenos acabam mais vulneráveis a cobranças externas e desenvolvem a autocobrança, uma característica que deveria surgir mais tarde, já na adolescência.

Antes as ansiedades infantis eram ligadas às fases de cada idade: aprender a andar de bicicleta, passar no bimestre escolar, a primeira vez em que se amarra sozinha(o) os cadarços do tênis, a descoberta da música e suas preferências e a chegada das datas comemorativas para comer algo diferente, colorido. Havia um constante exercício de paciência e a delícia de valorizar pequenas conquistas. Havia respeito por pai e mãe e eles, por outro lado, não faziam questão de serem nossos amigos: eram nossos pais e ponto final.

Mas o que é ansiedade afinal?

Sentir-se preocupado, nervoso ou temer algo que pode não acontecer. A ansiedade age como um sistema de alarme para manter seu hospedeiro longe do dano. Dano que ainda não se confirmou. É sofrer por antecipação.

Toda ansiedade é ruim?

A ansiedade passa a ser um problema quando impede a criança de realizar tarefas simples, como dormir, brincar ou ir à escola. Nesses casos, pode-se falar em transtornos de ansiedade, os problemas de saúde mental mais comuns entre crianças e jovens. Atualmente 20% das delas apresentam ou apresentarão algum traço ansioso.

Sinais que precisam ser observados:

São três os mais comuns tipos de transtorno de ansiedade. Informar-se sobre cada um deles pode auxiliar os pais a detectá-los e a buscarem ajuda.

Transtorno de Ansiedade de Separação

Geralmente acontece na fase inicial da vida escolar. Sintomas:

Recusar-se a ir à escola

Chamar muitas vezes os pais para irem para casa (muitas passam a urinar ou evacuar nas roupas)

Chorar e se apegar a um professor

Fazer birras constantemente

Negar-se a ir para a cama à noite

Não comer

Imaginar que algo ruim poderá acontecer com os pais

Queixar-se de sintomas físicos antes, durante e após a separação

Transtorno de Ansiedade Social (ou Fobia Social)

Pode acontecer quando a criança experimenta o temor ao interagir com outras pessoas e fica ansiosa quando é (ou pensa que é) o centro das atenções. Geralmente os pequenos que as desenvolvem evitam:

Conversar com colegas ou adultos

Ir a eventos sociais como festas de aniversário

Falar ao telefone

Fazer apresentações em público

Frequentar a escola

Comer em público

Usar banheiros públicos

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Crianças com TAG apresentam preocupações freqüentes e difíceis de controlar com relação a diferentes aspectos da vida. Elas estão a todo o tempo imaginando possíveis perigos. São comumente descritas como inseguras e perfeccionistas. Elas tendem a se preocupar com muitas coisas, tais como:

Desempenho escolar

Fazer as coisas com perfeição

Opinião das pessoas a respeito delas

Catástrofes mundiais (desastres, doenças, guerras, fenômenos climáticos)

Doenças (contrair AIDS, gripe suína; padecer de câncer)

Segurança e bem-estar dos entes queridos (família, amigos, animais de estimação)

Segurança ou dano (roubo, acidente, morte)

Finanças da família

Situações do dia-a-dia (o que vestir, para onde ir)

O que pode ser feito?

Primeiramente, os adultos precisam observar se o próprio comportamento está gerando a ansiedade na criança. Manter a calma quando o pequeno está aflito por conta de uma situação ou evento é muito importante. Pais ansiosos, filhos ansiosos.

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Dica !👆👆

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Busque ajuda na terapia. Existem profissionais capacitados para ajudar tanto adultos quanto crianças a saírem do ciclo ansioso. É preciso entender que não se trata de algo simples e que pode gerar sofrimento involuntário por toda uma vida.

Existem tratamentos alternativos que podem ajudar paralelamente no combate da ansiedade. Os Florais de Bach e as sinergias elaboradas pela Aromaterapia ajudam nas emoções infantis e podem sondar a origem do mal ansioso. Ambas têm origem natural e não há contraindicações.  

Mais natureza

Há outro fator além da tecnologia que pode contribuir de forma significativa com o aumento dos níveis de ansiedade entre as crianças: a ausência do contato com a natureza. Pesquisas recentes que mostram como retomar o contato com ambientes naturais pode trazer benefícios psicológicos e físicos para crianças e adultos.

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Que tal visitar o Parque Municipal e Maceió com seu pequeno?

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