Ilustração: Life Centre

Um grupo de seis amigas do qual eu faço parte há mais de 25 anos tem o hábito de se reunir de vez em quando para tomar um café. Sempre escolhemos locais diferentes para o bate-papo e daquela vez decidimos comer cuscuz recheado na Avenida Amélia Rosa, em Maceió.

Sentadas em uma das mesas da Cuscuzeria vimos quando um casal da nossa faixa etária chegou. Calados, homem e mulher sentaram-se um em frente ao outro e sacaram seus celulares. Ao contrário de nosso animado grupo, onde o aparelho foi proibido justamente para nos olharmos nos olhos enquanto conversávamos sobre amenidades, eles permaneceram calados. Nenhuma palavra durante toda a refeição. Sequer nosso burburinho incomodou. NADA.

Eles simplesmente estavam imersos em seus universos solitários e sequer consideravam a presença do outro. Feito máquinas, interagindo com o mundo através do telefone e desconectados entre si. Esboços de sorrisos, mas não direcionados a quem compartilhava o alimento. Na hora de comer, comeram olhando para os aparelhos. O único momento em que ouvi vozes foi quando o rapaz pediu que a esposa pagasse a conta. Levantaram e saíram do restaurante em silêncio, cerca de uma hora depois.

Quando já estávamos na esbórnia das sobremesas deliciosas, um outro casal entrou na Cuscuzeria e sentou justamente na mesma mesa. Idosos, eles escolheram as cadeiras uma ao lado da outra e logo em seguida sacaram seus aparelhos.

Amigas desde o ensino médio, apelidamos o grupo de “Cretinas”

Sorrindo, eles usaram os telefones enquanto conversavam sobre o pedido, depois viram alguns vídeos engraçados juntos e falavam animadamente sobre a família. Muito delicado, o velhinho depositou o braço sobre os ombros da amada e beijava sua testa. Às vezes, tocava em suas mãos. Ela retribuía, deitando a cabeça em seu ombro e falando baixinho segredos de liquidificador. Pareciam passarinhos. A conexão entre os dois era nítida. Não havia silêncio, sobrava intimidade.

De repente, olharam para nossa mesa onde estávamos admirando a sintonia deles, caladas. Sorrimos todos e terminamos nossa refeição falando sobre a importância de estarmos verdadeiramente presentes em momentos simples como um café.

Imagem ilustrativa (mas representam bem o casal idoso <3)

Conversando com minha amiga Pompéia (a cito porque além de ser uma mulher sensível nas questões humanas, é uma das melhores psicólogas que conheço) ela me explicou que comer à mesa em família promove a transmissão de conhecimentos, possibilita a educação doméstica (a pequena ética, conhecida como etiqueta, que regula os códigos de conduta social) e promove o desenvolvimento de várias habilidades sociais. Muita coisa pode acontecer numa simples refeição cotidiana. Parece até exagerado dizer isso, mas o fato é que não é.

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A função socializadora das refeições em família O simples de comer, de compartir uma refeição, dá uma ideia de comunhão entre as pessoas. A alimentação tem um forte papel socializador nas interações sociais porque permite haja transmissão de conhecimentos, possibilita a educação doméstica (a pequena ética, conhecida como etiqueta, que regula os códigos de conduta social) e promove o desenvolvimento de várias habilidades sociais. Muita coisa pode acontecer numa simples refeição cotidiana. Parece até exagerado dizer isso, mas o fato é que não é. Atualmente é cada vez mais raro encontrar famílias que desfrutam desse momento de congraçamento. Os maiores aprendizados possibilitados pela alimentação familiar, feita com supervisão dos pais, é o adiamento da gratificação e a superação da frustração. Numa refeição em família, o cardápio é decidido com base nos hábitos e gostos da maioria e nem sempre o alimento preferido será servido. A criança, faminta, não vai encontrar na mesa a comidinha que mais gosta, ficará bastante frustada, comerá o que há para o momento, e aprenderá que isso é normal, aguardando que, numa próxima, seus gostos sejam atendidos e sua comida favorita seja servida – sem dramas nem birras. E se for servida sua comida favorita será ensinada que não pode se empanturrar dela, pois terá que dividi-la com outras pessoas. Outro aprendizado importante é conseguido graças a percepção que deixar o melhor bocado para o final é gostoso, e ensina que não haverá premiação se não houver paciência e esforço, que para se conseguir algo realmente bom, há de haver algum sacrifício, e tudo bem. A responsabilidade pelas refeições, numa família com relações saudáveis, deve ser de todos, desde as compras no supermercado e a elaboração dos cardápios até a lavagem da louça. Esse tipo de gestão familiar prepara os pequenos membros da família para as atividades laborais e desenvolve habilidades úteis na sua vida adulta. Continua nos comentários. Comente também. Vamos falar mais sobre isso.

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Por outro lado, o progressivo abandono das refeições compartilhadas incrementa a solidão e o egoísmo do “cada um por si”. Ninguém mais parece se responsabilizar em fazer um esforço para estar em casa, na mesa, e culpa a falta de tempo.

A medida e a qualidade de tempo e atenção que doamos a alguém declara, sem palavras, o quanto essa pessoa é importante para nós.

“Com o tablet ele fica mais calado e a gente pode conversar melhor”, ouvi uma mãe dizer pra amiga em uma mesa da praça de alimentação de um shopping aqui de Maceió, dias atrás. O menino de uns seis anos estava sentado na mesa, mas com o aparelho, fones, totalmente absorvido pela internet.

Chuva de selfies entre os adultos até conseguir o ângulo, sorriso, filtro perfeitos. Na hora de incluir o guri na imagem, ele sorriu roboticamente sem tirar os olhos do tablet.

Dá menos trabalho.

  • valfrides augusto

    OTIMA matéria, importantíssimo quebrar esse vicio.

  • Maria Dieldja

    Linda a sua matéria, Dayane. Lembro que quando percebemos esse casal ficamos as cinco paradas observando por quanto tempo eles ficariam ausentes da presença um do outro. Tão pertos e tão longes.

  • Elaynne

    Essa interação que a mesa oferece é tão sagrada! O alimento, o papo, a conexão… Tão raro hoje em dia, pois cada um tem seu tempo, seu espaço. Esse dia foi uma lição de vida sobre como queremos e devemos passar o tempo com os que amamos.

  • Sheila Santos

    Acredito na refeição em família, sempre tive isso na minha casa e hoje sem a presença do meu sinto muito a falta. Mas ainda continuamos com o hábito. E contato visual e a troca é muito importante para o crescimento do ser. Parabéns!!! Pela matéria.

  • Iris Fortes

    Eu sempre converso sobre isso com meus amigos. As relações estão cada vez mais distantes sabe? Ao mesmo tempo que conseguimos uma comunicação com amigos que estão a quilômetros de distância, a gente não consegue desvincular desse celular nos encontros presenciais. A internet facilita a informação porém ficamos presos a esse mundo. Cada vez mais dependentes pra tudo. E não acho totalmente ruim a evolução da tecnologia. Porém em excesso acaba adoecendo as pessoas. Quando eu era criança eu pude aproveitar na rua cada brincadeira. Hoje vejo crianças reunidas e cada uma mostrando o celular/tablet do momento. Quando era adolescente eu sai,dancei,bebi e fiz minhas besteiras…hoje em dia vejo as pessoas preparadas para filmar e jogar na “rede” qualquer vacilo do outro (ninguem ajuda nessas horas. Povo se preocupa em quem filma primeiro)… Enfim. Tá preocupante mesmo. Otima materia.