Quem frequenta a escola pública em Alagoas sabe que estudar é um desafio que tem como principal rival o desânimo. Seja pelas condições estruturais, seja pela sobrecarga encarada pelos educadores. Não nos esqueçamos do calor, já que apenas uma pequena parte dos prédios escolares possui salas climatizadas. Pode faltar tudo, menos professores vocacionados. Educadores que nascem com o dom de ver o potencial de seus alunos, muito além da realidade que estão vivenciando naquele momento escolar.

E foi justamente a palavra de uma professora do Ensino Médio, a Maria José, que fez o agora educador físico especialista em Fisiologia do Exercício, Leandro Monteiro Silva, de 32 anos, despertar. “Tinha 19 anos e conquistado meu primeiro emprego em um supermercado quando encontrei com a professora”, conta. “Eu achava que tinha conquistado algo grande, mas ela me abriu os olhos perguntando se eu queria passar a vida toda ali”, relembra Leandro. “Então disse que acreditava no meu potencial e que eu deveria tentar fazer faculdade”, contou.

As palavras da professora Maria José caíram feito bomba na cabeça do jovem, que perdeu o sono pensando na conversa e decidiu tentar uma vaga na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). “Quando passei no vestibular, fui até ela e agradeci. Jamais esquecerei suas palavras”.

Leandro nos tempos do Ensino Médio / Arquivo Pessoal

Nascido e criado no bairro do Benedito Bentes, Leandro sempre estudou em escola pública e ingressou na universidade através do sistema de cotas raciais. É filho do motorista de ônibus Luiz Manoel e a dona de casa Josilene Abel. Desde cedo, sua rotina escolar foi permeada por brincadeiras racistas. Quando chegou à universidade, pensou que fosse mudar, mas isso não aconteceu. “Tive um amigo, o Fabio, que me ajudou muito. No geral, os grupos foram formados e eu não fiz parte de nenhum deles”, relatou.

No decorrer do curso, o professor de educação física tentou estágios em várias academias de Maceió. Em duas delas ele foi claramente segregado. “Na primeira, me disseram que eu não tinha o padrão de beleza necessário. Quando pedi pra explicarem melhor, fui informado que o dono não contratava professores negros”, explica. “Na segunda percebi pelo olhar da moça do RH quando me apresentei que tinha perdido a vaga na hora que ela me viu”, relembra.

Formado há oito anos, o educador físico comemora o novo emprego conquistado em uma rede de academias com três filiais em Maceió. “Felizmente isso ficou para trás e hoje trabalho em um local que valoriza meu currículo e vivência profissional. Estou muito feliz”.

Leandro casou-se com a pedagoga Jéssica, também é negra. O casal gerou dois filhos: Nicolas e Nicole. Eles deixaram a comunidade onde cresceram e compraram uma casa em uma parte melhor do mesmo bairro. “Ainda assim percebemos a troca de olhares entre vendedores, quando vamos a uma loja”, conta. “E mesmo quando percebem que somos clientes, só nos atendem se pedirmos”, entrega.

Apesar dos episódios que vivencia no dia a dia, Leandro se considera bem sucedido. “A sociedade está acostumada com o preto no balcão, como entregador, pedreiro e tantas outras profissões de base, mas quando ocupamos um lugar diferente, acima da média, a tendência é ouvirmos piada duvidando da nossa capacidade”, lamentou.

“Para vencer não precisa ser rico. Entre meus amigos fui o primeiro a conquistar um curso superior, mas foi com muito esforço. Eu dormia quatro horas por dia porque tinha de trabalhar os dois horários e estudar à noite”, relembra. “Entre os filhos de meu pai, idem. E olhe que somos nove!”, conclui, sorrindo.

  • Danubia Rodrigues

    Top, que historia!! Já admirava agora muito mais!

  • Josymar Costa

    Parabéns pela excelente matéria. Admiro tanto a autora como o personagem.

    • Deivson Santos

      Excelente profissional, atencioso e prestativo. Não conhecia sua história de batalhas, mas, pelo nível que se encontra hoje, a vitória foi alcançada. Parabéns ao protagonista e sua autora!