Desde que a pandemia se instalou entre nós, no mês de março, estabeleci algumas necessidades/atividades a cumprir. Comecei por evitar lamentá-la e busquei me adaptar, darwinianamente, aos seus tempos e modos tanto quanto possível. O ano não foi normal para ninguém, mas tentei fazê-lo o mais próximo daquilo que seria tolerável – bom, jamais.

Não inventei nada especial, apenas segui minhas urgências, meus gostos e quereres. Esclareço que sou disciplinado o suficiente para me manter fazendo o que é preciso, a começar pelas atividades físicas diárias, matinais, ainda que elas me parecessem, às vezes, um desperdício de alto custo – não eram, não são.

Home office foi um aprendizado tão natural, que me habituei a ele com uma suavidade de que não imaginava ser capaz. Agora, apresento o Doze e Dez Notícias, quase sempre, por um aplicativo que garante boa qualidade de áudio – não de conteúdo -, e o blog, por óbvio, entrou nos eixos rapidamente.

No mais, fiz aquilo que a alma me pede, insistentemente, para atenuar dores e vazios: li bastante, no começo com alguma dificuldade de concentração por causa da novidade que exigia, egoisticamente, toda a atenção para ela; vi um filme, praticamente, a cada dia, incluindo os clássicos – tenho mais de 600 DVDs -, que os streamings não oferecem; e curti bastante o silêncio, companheiro de tantas e boas horas. Claro, busquei estar sempre informado sobre o tema dominante, lendo os jornais/sites e vendo – menos – o noticiário de televisão, com sua overdose de comentários sobre a mesma coisa.

Como não tenho redes sociais, me preservei bastante dos ódios primordiais e dos clamores universais. Mas, cá pra nós, a comunicação com meus amigos e parentes mais próximos manteve-se azeitada. Como os da minha turma do afeto são poucos – e aqui, de fato, mais vale menos -, conversei ao telefone com todos e por várias vezes, trocando sugestões de filmes e livros, ou simplesmente falando das coisas da vida – as boas, as más, as que não mudam o preço do gás.

Pude constatar que, assim como eu, eles não se lamentavam – com uma ou outra exceção passageira – pelo momento vivido, encarando-o com realismo, tratando de tocar a vida da melhor forma que puderam. Aprendi ainda mais com eles: não há fórmula de bem viver, embora seja mais farto o receituário do desassossego. Acho que os reencontros haverão de superar os encontros (em prazer) entre uma gente mais velha e, quem sabe?, fiel depositária de vestígios de juventude.

Não há de lhes parecer, leitores e leitoras deste espaço, grande coisa, mas o caminho percorrido em 2020 me pareceu o que de melhor eu poderia cumprir para a travessia, e seguindo a máxima do “homem e suas circunstâncias”, até consigo somar algo mais do que tempo vivido/moído/entornado nesses meses.

Mas chegou a hora de me despedir: agora em janeiro, silenciarei, exercendo o direito que é dado aos mortos e aos que tentam ouvir a vida como uma sinfonia inacabada, com suas pausas e acelerações (antes que os últimos acordes venham a vibrar).

Entro no home ócio, em que permaneço até quando fevereiro chegar.

O blog retorna nesta quarta-feira
Câmara Municipal de Maceió começa 2021 dividida
  • Há Lagoas

    Desejo uma boas férias!
    Até porque, 2021 promete…

  • Sebastão Iguatemyr Cadena Cordeiro

    MAIS UM ÓTIMO TEXTO , MATÉRIA , FECHANDO COM CHAVE DE OURO ESTE LAMENTÁVEL ANO QUE SE FINDOU , EXPRIMINDO DOSES GENEROSAS DE EQUILÍBRIO E BRIO . BOAS FÉRIAS E UM ANO NOVO A SER DESFRALDADO COM DETERMINAÇÃO E BOM SENSO , O QUE LHE É PECULIAR . . .

  • Antonio Moreira

    Faz mais de ano, passei a ficar muito tempo em casa. Antes, só tinha praticamente o domingo livre. Confesso, ainda não consegui me libertar da perda de um ente querido e mais para completar, infelizmente contra a minha vontade estou vivendo uma nova experiência de vida.
    Faço atividade física regularmente, tenho consciência da situação atual (pandemia), portanto me vejo refém dessa doença mundial para não sair perambulando por aí …
    Vejo um senhor sentado numa cadeira da roda na porta do seu estabelecimento comercial e pergunto para mim mesmo, será que ele é um homem conformado com a vida que leva?
    Vejo pessoas, aparentemente normais em suas vidas simples e alguns têm alternativas disso e aquilo e ainda sim sem ânimo para viver.
    Pois é, assim é o humano.

    Boas férias, Ricardo.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Pois é Mota, as pessoas sensatas estão atravessando a pandemia muito parecido com o seu relato, preenchendo a vida com a arte, música, leitura, bons filmes, boas prosas e trabalho em casa. Quanto as suas férias, ficaremos numa seca de informações, comentários, contos e dramas humanos aqui no Blog. Quanto ao Doze e Dez Notícias, ficaremos sem a pitada de pimenta no nosso almoço diário, meu, da minha mãe, sogra, uma tia que mora em Arapiraca e mais uma dúzia de ouvintes. A partir de fevereiro, passaremos mais um ano juntos no Blog e no Doze e Dez Notícias.
    Aproveite bem o mês de janeiro.
    Vida que segue. Grande abraço.