“O acaso e o capricho governam o mundo”, garantiu François La Rochefoucauld. Eu me inclino a aceitar de bom grado a máxima do filósofo francês, que ficou mais conhecido pelo  deboche, espírito das suas boutades.

O filme O Estranho Caso de Benjamin Button tem uma sequência primorosa sobre como o acaso opera nas nossas vidas. Retrocedendo no tempo, vai mostrando, passo a passo, como esse poderoso personagem real atuou para que a belíssima bailarina, interpretada por Cate Blanchett, viesse a sofrer o trágico acidente que a fez abandonar os palcos. Poderia não ter sido, mostra o filme – mas foi.

Assim é também no nosso cotidiano, imagino. Quanto da nossa vida podemos efetivamente controlar ou antever? Pouco, muito pouco. Destino, desígnios divinos… Fica tudo ao gosto do freguês. Eu prefiro entender que é ele, o acaso – a quem devemos tanto ou quem tanto nos deve – que nos conduz aonde não esperamos.

Acharia até pungente, não fosse cruel, o depoimento de qualquer sobrevivente de alguma grande catástrofe atribuindo aos benefícios do céu ser o escolhido para permanecer sobre o planeta. Dezenas, centenas de mortos, às vezes, e está ali o único que foi poupado, para que continue a experiência de ser humano em um mundo cada vez mais desumano. A emoção de estar vivo é um atenuante – não para as famílias enlutadas, é claro.

Mas é imenso o respeito que a ciência tem pelo acaso. E não é por acaso. A mais bela Teoria Científica (para mim) já desenvolvida, a da Evolução, tem como base nada menos do que o protagonista deste breve texto. A Seleção Natural e a Especiação (surgimento de novas espécies) acontecem por conta de mutações aleatórias, casuais, ao acaso. Não há planejamento da Natureza, mas elas aparecem, e, assim, os mais adaptados ao ambiente se multiplicam. O acaso, também aqui, é soberano.

(Teoria, no jargão científico, não tem o sentido do uso corriqueiro da palavra. Para que ela exista, no mundo da ciência, são necessários fatos, evidências, que precisam de comprovação. Não é o caso da expressão que usamos habitualmente).

Entre as muitas histórias interessantes que o nosso “herói” protagonizou, há uma que considero inigualável, por tragicômica. Falo de Ésquilo, “o criador da tragédia grega”, na definição de Aristóteles.

O autor de Prometeu Acorrentado, desgostoso por perder sucessivos concursos para seu ex-pupilo Sófocles, que escreveu Édipo Rei, resolveu se exilar na Sicília. Viveu ali até os seus últimos dias.

E que último dia teve Ésquilo!

Caminhando à beira-mar, foi alvo de uma tartaruga que lhe caiu sobre a cabeça. Aquela carapaça veio ao seu encontro graças a uma águia que a conduzia pelos ares para tornar a presa, em seguida, seu alimento – a cabeça do gênio grego serviria para partir a proteção natural do animal, seguindo a compreensão e a necessidade da ave de rapina.

E Ésquilo se foi – como mais uma obra inimaginável e imprevisível do acaso.

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  • Antonio Carlos Barbosa

    Pensamos que temos controle sobre nossas vidas. Ledo engano. Somos regidos pelo acaso. No filme argentino “Um Conto Chinês” com Ricardo Darín, o personagem cultiva o hábito de colecionar notícias de jornais bizarras, sempre regidas pelo acaso, e o principal fato do acaso, vem para sua vida, pelo evento da vaca voadora, em forma de um chinês, tal como a tartaruga na vida do grego Ésquilo.
    Belíssima película Argentina.

  • Antonio Moreira

    Recentemente – Quem não ouviu o leu alguém dizer/escrever:
    Meu Prefeito ganhou porque DEUS quis e DEUS é justo!
    Meu Prefeito é tudo para a minha cidade…
    E você, pensar assim também?

    Assim é também no nosso cotidiano, imagino.
    Quanto da nossa vida podemos efetivamente controlar ou antever?

    Há 30 e tantos anos, diante de seus 3 filhos homens(hoje, todos bem formados), um senhor
    me disse:
    Tenho uma excelente dona de casa, mas uma péssima esposa.
    Sinto muito, Antonio, meus pêsames !
    Segui a minha estrada…

    //

    Titãs
    Marvin

    “Marvin, agora é só você

    E não vai adiantar

    Chorar vai me fazer sofrer”

    “Marvin, a vida é prá valer

    Eu fiz o meu melhor

    E o seu destino eu sei de cor”

  • Antonio Moreira

    E você, pensa assim também?

  • Há Lagoas

    “Coincidência – ou acaso – não passa de um pequeno milagre, no qual Deus decide permanecer no anonimato”
    Stephen Davey
    Uma excelente semana a todos!

  • Laskdo

    Na minha juventude, quando fazia o “ginasial”, eu amava a ciência. Amava aprender sobre os planetas, as estrelas e as galáxias. Achava fascinante saber que o nosso planeta, a terra estava 150 milhões de quilômetros do Sol. Essa é a distância perfeita para estarmos dessa gigantesca usina de energia, pois um pouco mais perto, talvez hum milhão de quilômetros mais próximo seria impossível a vida na terra. E hum milhão mais distante também, seria extremamente frio. E o tamanho? É perfeito! um pouco menor, tipo a Lua que tem um diâmetro de um quarto do seu tamanho, seria impossível viver aqui e um pouco maior seria ainda pior. A nossa casa, a terra, está no lugar exato e tem as dimensões ideais para nossa existência. A Lua, nosso vizinho mais querido em comparação com as outras luas do sistema solar é excepcionalmente grande em relação ao planeta que ela orbita. Mera coincidência? A Lua é a principal responsável pelas marés, que desempenham um papel vital na ecologia da Terra. A Lua também contribui para estabilidade do eixo de rotação do planeta. Olha só, sem a Lua, feita sob medida, o nosso planeta seria como um PIÃO em baixa velocidade que acaba tombando e girando de lado. O Clima, as marés e outras condições sofreriam mudanças catastróficas.
    Graças à inclinação da terra, de uns 23,4 graus, temos o ciclo das estações do anos, temperaturas equilibradas e grande variedade de zonas climáticas. A inclinação é perfeita. Também é perfeita a duração do dia e da noite, resultante da rotação da terra. Se a velocidade de rotação fosse bem mais lenta, os dias seriam muito longos e o lado da Terra voltado para o Sol ficaria superaquecido, ao passo que o outro lado ficaria congelado. E se a rotação da terra fosse mais veloz? Os dias seria mais curtos, talvez de apenas algumas horas de duração, e essa rotação veloz causaria implacáveis ventanias e outros efeitos nocivos. Gostaria de falar dos escudos protetores da Terra, mas não vou, pois prolongaria mais do que já me prolonguei, mas fascinantes ele. E não consigo ver um projeto tão perfeito desses e não pensar que houve um projetista. Não consigo ver o ciclo da água, ciclo esse que deixa o nosso planeta autossustentável e pensar que há uma inteligência superior por trás de tudo isso. Ver as plantas absorvendo o gás carbônico que todos os animais liberam e ao mesmo tempo que liberam oxigênio tão vital para vida humana, isso dar o que pensar, não dar não? Agora para finalizar, não consigo imaginar o prendedor de roupas, três peças, coisa muito simples, se formando sozinho, acredito que nem em hum milhão da anos isso seria possível!