Marejei os olhos esta semana, algumas vezes. Discretamente, como convém a um homem de 62 anos de idade. Perdoem-me insistir no tema, tão repetido por esses dias, mas foi revendo lances de Pelé – que chegou aos 80 anos – que a emoção me pegou de assalto.

Talvez ali eu estivesse revisitando sonhos da minha infância, quando todos os meninos da Buarque de Macedo e arredores queriam ser negros, luzidios, de topete e carapinha, ganhando a vida de pernas nuas, ainda que isso contrariasse o desejo dos adultos – que também amavam Pelé, só que a distância. Nós, não: levávamos aquele sujeito de anatomia perfeita para atravessar conosco as noites de verão, os olhos fechados e os caminhos da fantasia escancarados.

Quando Pelé anunciou a sua despedida da seleção brasileira, eu ainda era bem menino – tinha treze anos. E só tempos depois, lembrando o sentimento que tomou conta da minha alma então, eu entendi que experimentara o luto, ali, pela primeira vez na vida. Outros vieram, é verdade, e terrivelmente demolidores, mas como foi marcante aquele momento da minha adolescência boleira!

Tive raiva dele como jamais imaginei que poderia sentir. Jurei que não veria mais futebol e, mais do que tudo, fiquei triste, muito triste, de uma tristeza tão densa e funda que não me parecia possível atravessá-la. Foi meu primeiro grande encontro com a melancolia (não o último, é claro).

Dei-me conta, esta semana, lendo e ouvindo tantos belos textos sobre Pelé, crônicas de craques do gênero, que o seu bailado dispensava quaisquer palavras. Mesmo que urdidas por Drummond, por Nelson Rodrigues, todos eles, como nós, os meninos da Buarque de Macedo e arredores, apaixonados e enfeitiçados pelo bruxo negro, o prestidigitador que nos hipnotizava com os pés.

Se eu não fui um Pelé, paciência, mas quem foi além dele?

Talvez só um filme de Chaplin, mudo, veloz, debochado, fosse capaz de decifrá-lo e traduzi-lo da forma mais inteira, com direito a closes da perplexidade estampada na face de cada um dos espectadores. E o silêncio, ao fim, se imporia, em sinal de respeito e em aceitação do limite das palavras. É bem verdade que do espanto nasce o poema, já disse Ferreira Gullar, mas fiquemos apenas com o espanto, já que o poeta, o próprio, virou uma metáfora da beleza mais humana e quase inatingível – apenas visível, ainda que nos remeta ao sobrenatural.

Já não tenho a mesma paixão pelo futebol dos tempos da Buarque de Macedo e arredores, mas a paixão por Pelé se reacende a cada vez que eu revejo a sua obra – a parte dele que me interessa (de perto, ele há de ser  apenas normal, um sujeito comum, como eu sou).

Quanto à discussão nacional, inevitável e tola, sobre quem foi o segundo maior jogador de futebol da história do esporte, eu arrisco um palpite: foi Pelé na sua má fase.

Desafio de Davi é crescer mais, o de JHC e de Alfredo Gaspar é romper a inércia
Sai a turma de Renan Filho, entra o marketing de Rui na campanha de Alfredo
  • SEBASTIÃO IGUATEMYR CADENA CORDEIRO

    MAIS UM BELO TEXTO, MATÉRIA . COMO TODO MENINO DA NOSSA ÉPOCA , REVERENCIÀVAMOS O PELÉ SEM PESTANEJAR . ERA UMA UNANIMIDADE TÃO ABSURDA TAL , QUAL A LEGIÃO DE SANTOS E ANJOS O ERA PARA NÓS , MENINOS CRISTÃOS . SÓ PERCEBI UM COLEGA , BRANCO E DE FAM´LIA TRADICIONAL QUE EMBORA SEM CRÍTICAS DIRETAS , QUANDO CONVERSÁVAMOS SÔBRE FUTEBOL , ELE SEMPRE SE REFERIA AO CRAQUE COMO “O NÊGO PELÉ ” . PARECE QUE EU FUI O ÚNICODA PATOTA QUE PERCEBEU ESTE FURTIVO DESAGRAVO , PORÉM IMPREGNADO DE RACISMO ( A PROVÁVEL RAZÃO DESTA OFENSA . . . ) . BOM DOMINGO !

  • Laskdo

    Dizem, não sei ao certo, que no começo do futebol profissional no Brasil o negro não podia jogar. Provavelmente, o fenômeno Pelé tenha sido responsável pelo fim desse preconceito. Mas Durante muito tempo, alguns clubes, não aceitavam jogadores negros no seu elenco. Diz a lenda que o jogador negro, no jogo, não Podia esbarrar ou simplesmente tocar no jogador branco que era falta. E que devido a esse “apartheid” futebolístico o jogador negro desenvolveu a ginga e o drible que encantam o mundo até hoje. Quando vc pensa na bicicleta do Leônidas e a folha seca do Didi, que no meio do percurso mudava de direção enganando o goleiro, vemos que o repertório de dribles e jogadas criados por eles, foi uma maravilhosa e encantadora saída pra aquela injustiça.

  • Manoel Miranda

    Qual jogador consegue ser lembrado por dois gols (não há consenso sobre o plural de gol) não marcados?

  • ANTONIO MARTINS

    A perfeição existe no futebol e atende pelo nome de Pelé.

  • Há Lagoas

    Meu pai, um àvido senhorzinho que não gosta de ser contrariado quando o assunto é o melhor jogador do mundo, leu comigo a sua crônica domingueira, e desdenhou de seu afã por Pelé, mas se irritou profundamente no ultimo parágrafo, esbravejando com sua sentença!
    Com 78 primaveras, a sua teimosia é algo quase insuportável, tal qual a sua defesa com relação ao Garrincha, ele sim, um deus do Olimpo, segundo sua concepção.
    Mas, depois do calor da emoção, ele admitiu que Pelé pode ser o segundo maior jogador de futebol da história do esporte, na sua melhor fase!
    PS. Confesso que meu pai é flamenguista roxo convicto, e o Botafogo é tolerado apenas pela figura de seu melhor jogador.
    Um excelente domingo a todos!

  • Sergio

    Em frente ao Castelinho na Avenida, no “racha” chutando a dente de leite, maré seca, me imaginava um Pelé.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Pelé, um bailarino no futebol.