“Há muita gente que pensa que culto é apenas quem leu muitos livros. No entanto, se tivesse tido, como eu, a oportunidade de ouvir João cantar as músicas sertanejas que ele sabe, veria que ele é a expressão viva de uma cultura que não está nos livros, mas na memória e no coração dos artistas do povo.” A afirmação é do poeta Ferreira Gullar, maranhense como o João a que ele se refere. Que nasceu em Pedreiras, em 1933, onde foi enterrado, em 1996.

Personagem raro, o João do Vale. Neto de escravos, é o autor de mais de quatrocentas composições – sem nunca ter tocado qualquer instrumento. Muitas das suas músicas ele vendeu sem assinar, fato que era comum no Brasil até a década de 70. Alguns pesquisadores, por exemplo, acreditam que Xote das meninas (Ela só quer/Só pensa em namorar…), assinada por Luiz Gonzaga e Zé Dantas, é dele, mas esta é outra discussão interminável.

O grande momento do artista João do Vale aconteceu em dezembro de 1964, vinte anos depois de ter chegado ao Rio de Janeiro, fugindo de casa, em São Luís, onde morava com a família muito pobre. Era o mês de dezembro quando aconteceu – no dia 11 – a estreia do show Opinião, no Teatro de Arena, no Rio. Considerado o primeiro grito de liberdade contra a ditadura militar instalada no Brasil naquele ano, o show reunia no palco, além de João do Vale, Nara Leão e Zé Kéti, autor do samba que deu nome ao show.

Com texto de Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, entre outros intelectuais ligados à esquerda brasileira, o Opinião fez grande sucesso, principalmente entre os jovens estudantes. Um estrondo! João do Vale apareceria ali com várias canções importantes, entre as quais, Carcará, que lançou Maria Bethânia – substituta de Nara no show – para uma das carreiras mais sólidas na música brasileira.

O ex-operário da construção civil, ex-caminhoneiro, ex-faz-tudo, enfrentou três derrames, conseguindo sair de dois deles sem grandes sequelas, mas nem assim deixava o vício que o acompanhou por toda a vida: a bebida. Não tinha meias-medidas: era conhecido por beber até ver o companheiro de copo cair. Ele? Pronto pra outra, sempre.

E quando esta era a questão, aí o João não era merecedor lá de muita confiança. Ele é o protagonista de histórias que o mundo da música repete quando o assunto é João do Vale. Uma delas aconteceu na volta de uma viagem que fez em 1975 ao Nordeste, com Cristina Buarque de Holanda, cantora, pesquisadora e irmã de Chico Buarque , que o João fazia questão de dizer – inclusive no seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro -, era o seu melhor amigo.

(Chico ajudou-o até o fim da vida, em 1996. Produziu um disco com as músicas do pródigo compositor maranhense, reunindo a nata da MPB, numa fase em que o autor de Pisa na fulô, Na asa do vento, Peba na pimenta, entre outras, mais precisava de socorro.)

Pois bem. Eles haviam trazido de São Luís duas garrafas de tiquira, uma cachaça muita apreciada no Maranhão. João veio tomando conta (?) das preciosidades, e quando chegaram de volta ao Rio, Cristina pediu:

– João, me dá a minha tiquira.

– Ah, camarada, uma das garrafas quebrou na viagem. Adivinha de quem era?
Nem o próprio Chico, “meu grande companheiro”, escapou da trama do João quando a temática foi a bebida. Depois de um show em Santos, João do Vale foi procurado pelo chefe da alfândega local, amigo de infância e juventude de Chico Buarque, a quem queria fazer chegar uma garrafa do uísque escocês preferido pelo compositor carioca.

De fato, na semana seguinte, João levou ao amigo a garrafa do escocês, só que…vazia. Entregou e explicou:

– O caso foi, companheiro Chico, que seu amigo escolheu a bebida certa, mas o portador errado.

 

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  • Antonio Moreira

    “Há muita gente que pensa que culto é apenas quem leu muitos livros”.
    Uma vez um cidadão me procurou e perguntou o meu grau de instrução, pois ele disse que já
    tinha lido mais de 2.000 livros e já havia debatido com pessoas de muitos estudos.
    Achei estranho a forma que fui abordado e respondi-lhe que estava ali(no trabalho) porque tinha passado em um concurso onde só tinha uma vaga.
    Depois ele passou a me chamar de amigo.

    Ainda criança, percebia, tinha um amigo que gostava de ler e hoje ele leva uma vida diferenciada entre seus irmãos/irmãs.
    Eu tinha um colega de trabalho que gostava de presentear com livros os seus 2 filhos.
    Também ele gostava de livros.
    Sempre que eu questionava/perguntava sobre algo, ela tinha respostas satisfatórias.
    Ele integra a Polícia Militar / AL.
    Uma vez escrevi aqui alguma coisa sobre a semana santa. Ele sorriu bastante e disse: veinho safado!!!

    Faz pouco tempo precisei modificar parte da instalação hidráulica da minha casa.
    Chamei um encanador (uma pessoa simples) – Se dependesse de mim, eu iria fazer um caminho longo e complicado. O profissional resolveu tudo em 4 horas e sem complicações. Ele abriu o acesso de uma caixa de água onde eu fazia de maneira errada a vida toda.

    E o mundo da maioria dos artistas?
    É óbvio que todo mundo vai morrer um dia, mas é comum o artista se entregar as bebidas\cigarros\noitadas e etc.
    Sempre vem na lembrança o Raul Seixas.

  • Laskdo

    Infelizmente a “mardita” já encurtou a carreira de muita gente boa. Ainda criança recebi uma lição que lembro até hoje. Lá no interior meu avô tinha uma “venda”, o equivalente hoje a um boteco. Pra atrair a freguesia ele fazia uns garrafões de cachaça. Além da cachaça ele colocava várias coisas; raizes, cascas de pau e até frutas e ele chamava de misturada. Era um sucesso! Eu vendo todo mundo pedindo me achei no direito de beber também. Tinha 8 anos, claro que meu avô não deixou. No entanto ele me explicou que quando eu crescesse poderia beber, pois beber não era errado, até nosso senhor bebeu, mas só em ocasiões felizes é que eu deveria beber. Porque segundo ele, a vida é triste com poucos momentos felizes. E pensando bem, se bebêssemos sempre que estivéssemos contrariados com trabalho, salário, CSA (eita atualmente eu estava em coma) filhos e esposa, com certeza encurtaríamos também, as nossas vidas.

  • Saogala

    Texto magistral!
    E um verdadeiro balsamo, saber que apesar de sua ideologia, caro Ricardo, você consegue citar o velho e saudoso Ferreira Gullar!
    Uma boas semana a todos.

    Resposta
    ??????????????????????

    • Saogala

      Caro Ricardo,
      Sou um leitor assíduo de seu blog, e mais do que isso, sou seu admirador.
      Mas, perdi muitos amigos – principalmente da universidade – por não me definir como progressista, e lembro que em uma das vezes foi por apenas citar o poeta Ferreira Gullar.
      Para uma grande parte da esquerda brasileira, deixar de ser um marxista, é torna-se uma persona non grata.
      Você pensa diferente, e isso é um dos motivos de minha admiração.

      Resposta

      Meu caro: Gullar é maior – e sempre será – do que essa turma belicosa das redes sociais.
      Vou lembrar sempre de uma frase-verso dele: “A arte existe porque a vida não basta”.

      Grande abraço e um viva ao Poema Sujo,

      Ricardo

  • Sampaio

    Eu admiro muito nosso Ricardo Mota, fico triste porque a politicagem consegue calar até imprensa, que o diga nosso governador manda até na justiça. Aposentados é pensionista e todos os funcionários públicos tá chegando a hora.

  • Daniel

    Estado de Alagoas passa uma borracha em sua cultura décadas à fio, piorou bastante quando o prof Ranilson França faleceu. Associei a isso, a artistas, poetas, músicos, folcloristas, poucos apoiados e que estão sofrendo nesse momento de pandemia .

  • Edson José de Gouveia Bezerra

    …que leveza!!1 Lembra que o Grupo Terra fez um show com ele no Teatro Deodoro Mota?

  • Edson José de Gouveia Bezerra

    …que leveza!!1 Lembra que o Grupo Terra fez um show com ele no Teatro Deodoro Mota?

  • Antonio Carlos Barbosa

    Nesses tempos de escuridão que o Brasil vive, ser brindado com fatos de grandes personagens da nossa cultura, é um balsamo para a alma, um alento. Valeu Mota.
    Vida que segue.

  • Álvaro Antônio Machado

    Ótima lembrança, amigo Ricardo. Acho que o João do Vale figura dentre os talentos mais esquecidos da música brasileira pela grande mídia. Compositor que transformou em belas produções a história de sua gente, João do Vale negligenciou sua própria vida, mesmo depois de tantos obstáculos que ultrapassou para dar um rumo diferente ao que o destino parecia lhe reservar.

    Em tempo: Quiçá o maior sucesso de João do Vale, “Carcará”, foi composto em parceria com o alagoano José Cândido, sertanejo de Santana do Ipanema, também conhecido como “O Menino de Puxinanã”.