O antropólogo Hermano Vianna me parece uma ótima figura, além de ser irmão do roqueiro Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso). Também, e é o que indica ser, um apaixonado pela tecnologia.

Esta semana, em artigo publicado na imprensa, o antropólogo expressou a sua admiração pelo GPT-3, um sistema de Inteligência Artificial capaz de proezas inimagináveis para os homens comuns. Por exemplo, diz ele, produzir obras literárias semelhantes às de Guimarães Rosa!

Calma, ele provocou o programa com a linguagem rosiana e obteve a seguinte frase: “Uma fogueira crepitante brinca e lambiça em torno de um lindo carvalho”. Vianna se encarregou de dizer que o Rosa não escreveria uma frase assim, que não vale um milésimo de Diadorim, muito menos de Riobaldo, filósofo por sabedoria e vocação – e não por formação.

Eis o que me parece ser o definitivo limite da Inteligência Artificial, que está tomando conta de várias profissões, como sói acontecer na história da ciência e da tecnologia. É a tal da disrupção tecnológica, que o brilhante Yuval Harari tratou de iluminar, no centro do palco, em duas das suas obras: Homo Deus e 21 lições para o século 21.   

Cá para nós, o escritor israelense também acredita que a IA vai virar uma criatura criadora de clássicos, como o nosso Rosa. Mantenho-me na controvérsia, ainda que sem as luzes dos citados, acreditando que parecido nunca será igual.

Peço, então, socorro aos do ramo – e encontro.

No ótimo Máquinas como eu, o escritor inglês Ian McEwan reinventa a lógica da ficção sobre o tema da IA, com um final surpreendente. Desenvolvidos a partir de princípios morais bastante rígidos, os robôs Adão e Eva se mostram incapazes de conviver com humanos e seus (nossos) valores gelatinosos: a tragédia inverte o sinal (sem spoiler).

Chamo a atenção no romance de Ian McEwan para um detalhe, que se apresenta importante para o momento: a persistente tentativa de Adão, o robô que pertence ao protagonista, de se tornar poeta. Ele une todas as informações disponíveis sobre a criação dos vates, mas nunca atinge o status de um grande dos versos e controversos. Adão é muito bom no que faz – e sente -, mas não chega a tanto.

E este parece ser, pelo menos por esses tempos, o limite à Inteligência Artificial: criar uma arte que seja definitiva, como fazem os humanos especiais – ainda que poucos.

Um deles, Machado de Assis – finalmente descoberto como escritor negro -, não acreditava  muito nessa estória de inteligência natural, a dos homens e mulheres viventes, ainda que as decentes. Muito antes que o mundo se impactasse com a notícia da chegada da IA, o Bruxo do Cosme Velho já avisava: “Não vão por aí que vocês vão quebrar a cara!”

Onde está escrito isso?

No delicioso conto Cantiga de esponsais – uma beleza!  Narra, o genial autor brasileiro, a saga do músico e professor Romão Pires, cuja grande obra, perseguida até no seu leito de morte, foi “um canto esponsídico” – a melodia dos casais apaixonados (em vias de núpcias).

O “triste” Mestre Romão, aí pelas seis décadas de vida – território onde transito -, ao ver seu fim próximo tentou arrematar aquela que seria sua definitiva contribuição à humanidade romântica. Havia parado no lá, uma nota tirânica que ele não conseguia ultrapassar, mesmo investindo suas últimas forças na criação. A despedida se aproximava. Derrotado, o compositor resolveu, enfim, rasgar o resultado de toda a sua vida: ao lixo, notas e harmonias!

Já ouviram falar em armadilha do destino?

Ei-la!

Os últimos suspiros de Mestre Romão trouxeram pelo ar o que a inspiração lhe havia negado: uma jovem mulher, a quem ele via pela janela do quarto ao lado do marido, na sua despedido de moribundo, começou a “cantarolar à toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada”.

Na canção, após “um certo lá”, derramou-se uma linda frase musical – a  que lhe fora negada por toda existência. A arte da vida lhe impôs a mais amarga e definitiva derrota:

“O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça e à noite expirou.”

Que venham os robôs. 

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  • Há Lagoas

    Em poucas palavras, sem alma não existe escritor.
    Logo, a IA nunca poderá produzir nenhuma genialidade literária!
    Uma boa semana a todos!

  • Antonio Moeira

    Pois é, parecido não é igual:

    Em um almoço de negócios, nos Estados Unidos, um Engenho Brasileiro, falando em inglês, repetiu muitas vezes a palavra “PRETEND”.
    Exemplo : A empresa “pretende” investir … para dobrar o faturamento…
    Logo, uma Brasileira disse ao seu marido, Americano: Eu sei que você está achando estranho, mas no Brasil a palavra “pretender” …

    False Cognate – palavras iguais ou parecidas – idiomas diferentes.
    Em inglês , o verbo To pretend (significa fingir) e To intend (significa pretender).

    //
    Eu ouvi esse relato de uma Professora de Inglês, Brasileira, casada com um Americano. Eles moram nos Estados Unidos.

  • Laskdo

    Excelente! O texto desperta a imaginação, coisa que IA por si só nunca fará. A Inteligência artificial nada mais é do que um silogismo tecnológico, parte de duas premissas, alimentada por uma IH (inteligência Humana) para chegar uma terceira, conclusão. Quando a IA criar todas as premissas aí sim, seria igual, mas enquanto isso não acontece, fica só parecido, mas não igual. O maior exemplo é a Trilogia do filme que começou há quase 30 anos: “O Exterminador do Futuro”. No filme mostra exatamente isso, a Skynet é uma inteligência artificial altamente avançada, que alimentada pela premissa de que deve proteger a terra dos seus predadores, chega a conclusão óbvia, de que deve exterminar a raça humana e assim começa o fim da humanidade, no filme. Esse é o receio de muitos cientistas. Enquanto ficar só na literatura, tudo bem! Tudo bem mesmo?

  • Antonio Carlos Barbosa

    Sobre o tema, ressalto o belíssimo filme “Blade Runner O Caçador de Andróides” de Ridley Scott (1982).
    E vamos a telinha.