Eu sempre preferi os dias inúteis. Esses que passam depressa e nos dão a sensação de que deveriam se esticar, preguiçosamente, mesmo que lá na frente possam nos levar ao enjoo próprio de tudo que se estende além do suportável. Até beleza demais faz feio com o passar das idades.

Como bem já se pode ver, foram raros os meus sucessos com as escolhas ou predileções: o tempo, este rebelde incontrolável, continua ao seu modo, ignorando desejos ou limites.

Aliás, descobri isso ainda menino, quando eu tinha como maior sonho deixar de ser menino. Então, quanto mais a máquina do tempo emperrava, com uma má vontade sovina, mais eu me apequenava no tamanho que exibia. A minha escolha não valia, e eu nem ao menos tinha a quem cobrar a conta.

Das pessoas, eu sempre gostei – ou desgostei – por causa do jeito que são: silenciosas, faladeiras, impulsivas, contidas, não importava. Sempre entendi que chegava a elas – e elas a mim – quando era o momento de acontecer. Não por força dos astros, dos desastres, nada disso. Os encontros só são possíveis se há disponibilidade dos dois lados para que eles ocorram. Se não, não.

Há escolhas e há encolhas, ora pois.

Misturá-las, as pessoas? Nunca me passou pela cabeça. Um modelo de perfeição em forma de gente deve ser tão chato e tedioso quanto um ano inteiro de inverno ou de verão. Pingue-se a chuva em tempos de calor, e teremos o mais belo nascer do sol; ilumine-se um final de tarde invernal, e a chuva, quando chegar, será bem-vinda e prazenteira.

Falar ou calar, aí sim, tem sido em regra uma escolha. Muito embora, por tantas vezes, quebrar o silêncio ou mantê-lo como obediência à minha real natureza seja apenas a exata diferença entre ganhar um cruzado e levar um cruzado – alguns nos botam a nocaute, ainda que nem nos toquem o corpo.

Escrever, porém, nasceu de uma imposição. Veio quando não me restou o que dizer, e eu fui buscar no papel as palavras que alguém deixara perdidas em algum canto, por desnecessidade ou desprezo.

Nunca me importei com isso: usei-as como se minhas fossem, ainda que depois tivessem como destino o lixo de algum leitor sensato. Elas deram-me  encontros e desencontros. Que eu até não escolhi, está certo, mas o faria, num caso e no outro, se me fosse oferecida a chance de me refazer.

A principal escolha, digo e redijo, é seguir adiante – apesar e a sopesar. Carregado de um sentimento que se transforma, metamorfoseia, sempre que se depara com novos ou velhos afetos (e desafetos, quem não os tem?).

Escolher significa também renunciar, mas é principalmente se dar conta de que  achamos algo ou alguém que combina com a gente num dado momento e circunstância: aquele e aquela. É pegar ou largar. Ou pegar e largar lá na frente, em algum giro da roda da vida, na subida ou na descida.

A escolha de hoje bem que pode ser a despedida de amanhã, mesmo que doa de forma tão lancinante, que você sinta a flecha do inútil arrependimento penetrando fundo, lá onde nem os anjos nem os tolos conseguem ir.

Pior mesmo é ter se rendido ao medo de fazê-la. Assim ou assado – nunca haveremos de saber o ponto certo. É experimentar cada dia da maneira que parecer mais apetitoso, ainda que não haja um jeito único de temperar o tempo.

Alfredo Gaspar se despede hoje do MP Estadual
Ricardo Barbosa (PT): "A reforma do AL Previdência é indefensável"
  • Juvenal Gonçalves

    “É pegar ou largar. Ou pegar e largar lá na frente, em algum giro da roda da vida, na subida ou na descida.” Bela crônica, Ricardo!
    Porisso mesmo, nunca confundir: Carolina de Sá Leitão, com caçarolinha de assar leitão!
    Essa, para mim, uma famosa frase do filósofo-matemátco Antônio Carlos (o nosso querido foquinha), quem transitou no famoso Bloco de Matemática da UFAL, sabe de quem estou falando…
    Hoje diria: “cada morcego na sua própria sopa”.
    E que a “corona” ocupe a cabeça de quem houver.
    Então, dali (do seu ponto de partida) pra frente, assim ou assando, cada um que se responsabilize, o seja responsabilizado, por sua própria escolha…
    Ou então, seja escolhido por sua responsabilidade própria!
    – É um “trocadalho” do [email protected]*#
    Disse o “topografilósofo” Ossiron certas vezes!
    Aqui, do povoado Umbaubá, em São Cristóvão-SE, desejo um bom domingo e boa semana para todos!

    • Desde Colonia 1500 somos Portugais & RAMALHo$ – loucura!

      E o CORONA foi atropelado na FAVELA, Juvenal … rsRs
      Contrariando a MÁ temática este vírus criado na China segue MACARRÃO,
      espalha-se a partir da ITÁLIA feito farinha de pizza, é trigo!
      Aqui no Brasil, anda sequelado numa pós DENGUE convalescença … Kkkkk

  • Antonio Moreira

    O doutor João Toledo, disse: tem mais outro! – nem mesmo a minha mãe sabia…
    Ele foi o segundo e eu o primeiro aparecer no mundo.
    Ele extrovertido, magrinho, atirado, sorriso fácil.
    Eu introvertido, gordinho, retraído, sorriso acanhado.
    E depois de 59 anos?
    Ele me telefona todo dia para falar e Eu para escutá-lo.
    Ele – faz tempo que é atuante na rede social.
    Eu – faz tempo escondido da rede social.
    Ele – rosto e corpo mais gordinho(de bens também) e Eu mais magrinho(atividade física regular- peso: 67 kg).
    Assim ou Assado? Há escolhas e há encolhas? Escolhas ou predileções?
    Ah, sei lá!!!

  • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

    Um bom dia, caro Ricardo MOTA dsd 1958,
    aos 60’s bem temperados c’alho e sal, cebola pimenta a gosto!
    … ‘Assim ou assado [como PÃO dormido no café da manhã c Vc acima de TUDO]
    – nunca haveremos de saber o ponto certo. [Acima de TODOS com café + afetos aos lados]

    SIM, dizes d’escolher … ‘é seguir adiante – apesar e a sopesar. \ renunciar, \ penetrando fundo,
    … lá onde nem os ANJOS nem os tolos conseguem ir.\ experimentar cada dia\ temperar o tempo.

    > Um bom domingo anunciando + uma semana pra todXs, quem mexeu no meu QUEIJO em St’Ana?
    – Haja açúcar na coalhada escorrida de surpresas leiteiras da vida como ela é, Batalha fluida, Jacaré!

  • Alfredo

    A única certeza é a incerteza, exceto a certeza de um ponto final. PT saudações!

  • Petrus

    Muito legal a crônica.