Genial, o nosso Ary Barroso (1903-1964).

Autor de dezenas de clássicos da Música Popular Brasileira, ele era dono também de um humor cáustico, birrento, incorrigível que era. Dividia a sua paixão pela música com o Flamengo (deixo de usar o adjetivo doente por redundante), time  que exaltava sempre que podia. Narrava com assumida parcialidade os jogos do “mais querido”, e narrava apenas os lances do rubro-negro. Quando a bola estava no ataque do adversário, fechava os olhos e dizia “não quero nem ver”. E não via.

No seu programa Calouros em desfile, primeiro na Rádio Cruzeiro do Sul, depois na Tupi, Ary Barroso, não raro, perdia a paciência com os candidatos a artista, principalmente quando estes não sabiam o nome do autor – ou autores – da música que iriam interpretar. Mas, algumas vezes, passava do ponto.

Foi assim com Elza Soares, uma menina de quinze anos, esquálida e já mãe de dois filhos, inscrita no concurso. Vestida em farrapos presos com alfinetes, Elza foi recebida com a pergunta: “De que planeta você vem, minha filha?”. A jovem mulata respondeu à altura: “Venho do planeta fome”. Depois que cantou, no entanto, Ary Barroso se desmanchou em emoção e generosidade. Abraçou-a e vaticinou: “Nasce uma estrela”. Acertou em cheio.

Mas ficou famosa, mesmo, sua disputa com outro grande compositor: Antônio Maria (1921-1964). Autor de Ninguém me ama, a mais reverenciada canção de fossa, estilo que marcou a década de 50 do século passado, o grandalhão pernambucano era outro bom de briga (xingou pra valer seu parceiro Fernando Lobo, nessa música. E fazia isso pelos jornais, sempre que podia ou queria). Boêmio inveterado, “meu Maria”, como o chamava Vinícius de Morais, fazia muitas viagens internacionais, o que Ary evitava – apesar de suas idas a trabalho aos Estados Unidos, México e países da América do Sul.

Internado num hospital para tratamento de uma cirrose, no final de 1963 (Ary morreu em fevereiro do ano seguinte, num domingo de carnaval), recebeu a cordial visita do “desafeto”. A disputa entre ambos já durava mais de uma década. O compositor mineiro não suportava a carreira internacional de Ninguém me ama, música que Antônio Maria dizia ser mais tocada no exterior do que Aquarela do Brasil – o que não era verdade. O pernambucano, que amava a noite em qualquer país para onde fosse, sempre que retornava ao Brasil bradava o sucesso da sua música lá fora.

À beira do leito, Antônio Maria ouviu o insólito pedido de um iracundo Ary: “Por favor, cante pra mim Aquarela do Brasil”. Sem entender bem o porquê do apelo, o compositor pernambucano atendeu. Mandou um “Brasil, meu Brasil brasileiro…”, até o final, como havia cobrado o seu compositor.

Não satisfeito, Ary voltou à carga:

– Como este é o nosso último encontro, queria que você me pedisse pra cantar Ninguém me ama.

Claro, em momento tão pungente, Antônio Maria desconversou e disse que em breve ambos tornariam a se ver, para conversar, falar sobre música etc. Mas não houve jeito, o autor de Aquarela do Brasil insistiu:

– Peça, por favor.

Maria não mais resistiu e fez o pedido:

– Ary, cante Ninguém me ama.

Sorriso de canto de boca, de satisfação pela vitória, Ari Barroso alteou a voz e definiu a cena:

– Não sei!

A dor fez um samba
Somos todos afrodescendentes
  • JEu

    Pode até ser interessante o enredo dessa estória, porém, o que mais se destaca é a dor de um coração que não sabe ser grande… pois só sabe ser invejoso, ciumento e uma caixa de guardar mágoas… isso é triste, porém, não é um caso isolado, muto pelo contrário, é o RX de uma imensa parcela da humanidade… nossa “pequena” humanidade!!! afinal, são poucos de nós que poderá, de verdade, afirmar: dessa água eu não bebo… porém, creio, como o disse o Antônio Maria, já se “reencontraram” de há muito no para além desta pequenina e, muitas vezes, mesquinha, vida no planeta Terra… e espero que tenham feito, finalmente, as pazes… afinal, são irmãos até pelo apreço à música… que fiquem em paz… com Jesus…

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Grande Antônio Maria Araújo de Morais (Recife, 17mar1921 — Rio 15out1964, aos 43)
    Samba-cancioneiro MOR dos 1950’s,
    quando Dor de COTOVELO nóix curava com Seu Moreninho em St’Ana.
    Na Drogaria CONFIANÇA, nascida em sociedade em 1948,
    com o jovem Alberto, de olho no Véio Carola.

    > Se a criança acordou, dorme, dorme filhinha … dor de OUVIDO mouco?
    – Tudo calmo ficou, mamãe tem Aurissedina … puro fenol, + mentol et caterva
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Maria

    [FENOL] := detona bactérias e fungos SOLITÁRIOS bestas que saem na urina.
    – pouco eficaz contra esporos sindicalizados na pele e mucosas.

    [MENTOL] := dilata vasos penicos com vermelhidão e frio insensível à dor,
    – absorvido n’urnas malucas solta a franga do na urina e na bile oratória.
    https://consultaremedios.com.br/auris-sedina/bula

  • Alfredo

    Uma vez flamengo… Também sou!

  • Daniel

    O Neto do Ary Barroso passou por alagoas a uns anos atras e foi técnico do CRB, Alexandre Barroso, ótimo técnico diga-se de passagem