Tenho “vivido” experiências alheias interessantes, por esses tempos conectados. E confesso que ainda me espanto, apesar de já ter passado dos 60, ao ver como tanta gente de boa formação, até, faz a opção – consciente ou não – por um mundo azedo, que não permite um sentimento de alegria, se não o provocado pela vingança, ainda que muito tola e efêmera.

Os temas até divergem, mas o conceito é um só: para as pessoas de quem falo, o mundo e a vida passam na tela do celular, onde desembarcam hordas de inimigos e bandos de aliados numa guerra permanente em que todos perdem – a causa que sempre será a mais importante de suas existências, pelo menos por algumas semanas.

Conto uma dessas histórias.

Um amigo querido, conhecido pela retidão de caráter e coerência, entrou em profunda melancolia por causa de algumas postagens em redes sociais em que ele se tornara o alvo a ser trucidado. Passou a viver, pelo menos por uns dias, com a sensação de que todos nas ruas o olhavam com ar de reprovação, a apontar: “Olha ele ali”.

Sofreu muito até descobrir que a vida real não havia, ainda, sido substituída integralmente pelo mundo virtual. Uma paranoia adquirida o acompanhou, provocando grande sofrimento psicológico, por dias e noites insones. Tão logo retomou com avidez o tato e o contato com gente de verdade, ele se deu conta da bobagem, dolorosa, em que estava metido.

Pouco antes de morrer, em 2016, o enorme pensador italiano Umberto Eco provocou a fúria de milhões pelo mundo afora ao dizer que “as redes sociais deram voz aos imbecis”.

Cá para nós, eu não conheço ninguém a quem possa se levar a sério que não aceite a afirmação do autor de O nome da rosa e de O pêndulo de Foucault como uma verdade óbvia demais para não ser vista por todos. É claro que a frase pode e deve ser vista através de uma porta mais larga do que aquela que as próprias redes sociais oferecem.

Que tal assim: nem todos os usuários das redes sociais são imbecis, mas se você procura um destes espécimes ele estará lhe esperando em qualquer uma das plataformas escolhidas para contato. E como naquela piada do mosquito, que ao morrer atrai centenas deles para o seu enterro, quando você fizer a conexão com o “imbecil” procurado, ele trará milhares de amigos que compartilham os mesmos gostos e crenças.

E crenças, nesse caso, unem ao ponto de que você haverá de, se não identificar o imbecil como o imbecil, apartar-se dos indivíduos/inimigos, os que não seguem os mesmos e definitivos dogmas. De repente, você encontra um personagem – que pode até se tornar autoridade da República –  a defender que a Terra é plana (há uma vantagem nessa história: se ele estiver certo, não teremos mais aquecimento global).

E o aprendizado de milhares de anos da humanidade sobre o Cosmos? Que vá alimentar os satanistas, roqueiros e aborteiros que povoam o país do “sexo e do carnaval”. Esta é uma questão de fé para os redistas, e fé não se discute – lembram-se da máxima?  Freud discordaria, mas, enfim, quem seria aquele sujeitinho de cavanhaque e permanente charuto, por esses tempos, que não mais um “judeuzinho” que quer destruir os valores da família e da sociedade tradicional brasileira – ou de quaisquer outros países, unidos que todos estão em tribos cada vez mais conectadas e universais?

(Pergunto: o que é que essa gente ensina tanto a tanta gente?)

Continuo achando muito mais fácil encontrar pessoas legais, que me provocam alegria, curiosidade, me dão conhecimento e bons motivos para acreditar que vale a pena viver nessa quadra da história humana, tão reveladora das nossas fraquezas, mais do que o contrário, fora dos ambientes primitivos/tecnológicos dos dias de agora.

Para os que acham que a vida real e o mundo virtual já se amalgamaram, e dele não conseguem mais sair, talvez seja o caso de procurar um “buraco de minhoca” por onde possa chegar a um universo paralelo, “novo”, desconhecido.

Quem sabe ele não estará ali, bem do seu ladinho, ou nas proximidades, traços apagados numa foto borrada de coletivos sem rostos.

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  • JEu

    Bom dia, RM… apesar das linhas cheias de desilusão e desgosto, escritas hoje… e aí me pergunto: por que será?!!! lembremos que estamos bem próximo da data mais conhecida e mais importante para a humanidade: o dia em que se celebra a vinda daquele que foi, e é, o maior de todos os profetas… aquele que nos veio trazer a luz da Verdade possível para nossa humanidade… o caminho que pode transformar a humanidade naquilo que todos desejamos: pessoas plenas de paz, amor e justiça para todos… portanto, não devemos alimentar pensamentos tão tristes nesta época… afinal, como dito no texto, precisamos acreditar nas pessoas, para que possamos nos aproximar delas com confiança… pois sem confiança, não será possível falar em relacionamentos construtivos e benfazejos… e, nesse caso, para que esses relacionamentos existam, será preciso dar voz a todos os “imbecis”, pois, segundo a CF/88, todos têm direito à livre manifestação do pensamento… é questão, pois, de foro íntimo, de entendimento próprio, de aceitação de uma opinião ou de uma “linha de pensamento”… se assim não fora, não teríamos tantas pessoas acompanhando certas “ex-autoridades” da República, por um pão com mortadela… lamento, mas esta é a verdade da realidade em que vivemos… e todos precisam ter seus “direitos” preservados… ou será que só um lado o pode fazê-lo?!!! cabe, pois, a cada um, ter a capacidade de separar o “joio do trigo”… não foi à toa que Paulo, o Apostolo dos Gentios afirmou que “tudo lhe era lícito conhecer, mas que nem tudo lhe era conveniente”… agora, é preciso que, para não cairmos na imbecilidade comum, não nos deixarmos imbuir de pensamentos e comportamentos suicidas, como se, por não gostarmos do piloto, dentro de uma aeronave em pleno voo, desejássemos que ela caísse… assim é quando não aceitamos o próximo só porque pensa de modo diferente… afinal, como afirmou Jesus: “devemos perdoar o próximo não só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes”, como forma de manter nossa saúde mental e emocional… e creio que isso cabe não só no caso dos “redistas” (mas será que só de um lado?) mas em todos os momentos da vida… Bom domingo.

    • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

      CaZZo as teorias da RELATIVIDADE falhasssem, caro Jeu … ‘táQpariu!
      Ainda dão certo até onde se sabe, mas a aliança IDIOTA pró-imbecis triunfará
      … são muitos e … ‘as redes sociais deram voz aos imbecis’ [U Eco, apud R Mota acima].
      > Dizia ALBERTO na pátria adotiva recentemente e$-TRUM-piada sem graça
      – esgraçável EINSTEIN: judeus diriam-no alemão, alemÕes queriam-no comunistas.
      Estas PIADAS de palhaço sem graça até pra bajulas e milicianos menos cegos à vista.

  • Antonio Moreira

    O dia que quebrei o protocolo:
    Sala de recepção da Clínica de Fisioterapia e no balcão de atendimento ainda se encontra uma cesta de natal para ser sorteada.
    Pacientes aguardavam o chamado da atendente – todos sentados de cabeças baixas manuseando seus celulares.
    Então eu disse – Ganhei a cesta!!! – Estou sem meu celular! Eram umas 10 pessoas de todas as idades…

    A fisioterapeuta me fez algumas perguntas e respondi – O meu Médico disse que o meu ombro está congelado e prontamente passei o dia inteiro no sol e não descongelou, não!
    Motivo de risos dos doentes presentes.
    Momentos de sofrimentos, a profissional mandou eu deitar numa cama e começou manusear o meu braço doente – gritei: valei-me Nossa Senhora dos Ossos!
    Motivo de risos dos doentes e da “mãe malvada”!
    A vida como ela é – Dentro da sala de fisioterapia não é permitido celular ligado, mas ainda tem gente que quebra a regra.

  • Fernando Dacal Reis

    Caro Ricardo,
    Muito bom para reflexão dominical. Como ficou fácil, com as redes sociais, reconhecer imbecis, até então desconhecidos e verificar o quão populosa são os clãs destes seres sofredores de psicopatias do gênero da idiotia. Só resta-nos exercitarmos o “minimalismo digital”.
    Um abraço!

  • Gesia

    Creio que Freud deve estar estudando a psicanálise nas redes sociais lá no andar de cima…. Eu mesma me sinto uma imbecil as vezes, e sei que não sou!

  • Carlos

    Efêmera , a vida, beleza , juventude em fim tudo e uma passagem e o importante a nossa consciência do bem que deixamos ou do mal… Missão em vida, para muitos fazer o mal uma missão e não estou me referindo ao desnaturado governador Renan Filho , pelo mal que ele fez com os aposentados e no entanto deve está feliz foi um missão de vida. Olha só citei ele como exemplo sem esquecer que ele tem milhões de seguidores.

  • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

    Um BOM e quase-natalino DOMiNGO com pingos nos i$, caro Ricardo Mota!
    > O homem sério que contava dinheiro parou, o faroleiro que contava vantagem parou
    – A namorada que contava as estrelas parou pra ver, ouvir e dar passagem [Chico 1966], em o2′ 11″
    https://youtu.be/WZWcpEgJZAY
    C’a Banda à toda na VIDA pra qd’o CARNAVAL xegá (1972) c’KK-Diegues agora aos 77, em o2′ 54″
    https://youtu.be/zu2B2z9XRxQ
    c um “buraco de minhoca” por onde possa chegar a um universo paralelo, “novo”, desconhecido.

  • Há Lagoas

    Meus amigos são de carne e osso, mesmos aqueles que discordam de mim, os quais, mantenho sempre um diálogo cordial, independente das divergências ideológicas. Quantos a internet, tenho poucos amigos, até porque, em nossos dias ter um bom amigo é um “artigo de luxo”, dado a sua escassez. Mas, por vezes a distância nos obriga a fazer uso da rede, mas em nenhum momento, a mesma nos permite fazer amigos sem o contato físico do olho no olho.

  • Antônio Carlos

    As redes sociais são hospedeiros de gente de vida vazia.