Numa viagem a Caruaru, passeando pela feira imortalizada pelo Rei Luiz Gonzaga, deparei-me com algumas preciosidades, hoje cada vez mais raras: eram sacos e mais sacos de pião, ximbra (bola de gude, em outras regiões) e carrinhos de madeira – caminhões, ônibus… uma beleza! Ali estava, sem dúvida, um pedaço da minha vida – e de milhares de outros ex-meninos espalhados pelo Brasil afora.

Eram tempos em que cada casa tinha sua própria fábrica de brinquedos. Da lata de óleo de cozinha fazíamos a boleia do caminhão; da caixa de maçãs argentinas vinha a carroceria;as rodas, íamos buscar na serraria que ficava na esquina da Rua Buarque de Macedo – depois as recobríamos com borracha de câmara de ar de pneu, que também encontrávamos pela redondeza. Era um prazer imenso ver brotar das nossas próprias mãos, com o uso de tesoura velha, martelo e outras ferramentas rudimentares, o brinquedo “da hora”. Sim, porque havia “temporada” de cada uma das brincadeiras – que a gente não sabia quem ou onde havia começado, mas a cidade inteira praticava o modismo sazonal.

Era comum, na época das ximbras, passar um garoto desconhecido e pedir para entrar no nosso jogo. Se ele puxasse, de dentro do saquinho que carregava, um “oião”, era sinal de que ali estava um adversário à altura, a ser respeitado. Também era assim com o pião ou com o ferrinho – feito, simplesmente, de um pedaço de arame envergado numa ponta e bem afiado na outra, segredo para percorrer os caminhos, entre duas linhas, que os adversários iam estreitando no chão batido. É claro, já não há, praticamente, ruas sem asfalto ou sem calçamento – e nada tenho contra isso. Mas gosto de lembrar que eu jogava futebol na porta da minha casa, ali mesmo, na velha Buarque de Macedo, onde hoje “os carros passam com a mesma velocidade da vida”.

Fabriquei meu próprio patinete usando rolimãs descartados das oficinas de automóveis; construí gaiola e alçapão antes de descobrir que o passarinho fica mais bonito voando e cantando pelos céus; montei criadouros de lebres e mocós (eita bichinhos incansáveis na arte de fazer amor!); enfim, aprendi um pouco a trabalhar com madeira, gosto que carrego até hoje – apesar de não mais praticar o ofício há muito tempo (penso em retomá-lo num futuro qualquer, se existir).

Os torneios de botão da Buarque de Macedo e arredores eram famosos na vizinhança. Lembro-me bem daquela formação que me fez tricolor: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Denílson e Didi; Cafuringa, Samarone, Flávio e Lula. Por “decreto” do presidente, patrocinador e treinador do time – eu –, Flávio, o nove, “a camisa que tem cheiro de gol”, deveria ser o artilheiro da equipe feita de capas de relógio, que comprávamos a algum “fornecedor”, todas as semanas (mudávamos de relojoeiro sempre que ele se dava conta de que ali estava mais um bom negócio – era o produto que iria ao lixo, tornando-se uma joia para a garotada). Antes do Flu já viera o time com o escudo do CRB – que eu mesmo desenhara com caneta vermelha. Mal, é verdade, mas até reconhecível. Canhoto, Canavieira, Erb e outros “heróis” já haviam experimentado seus dias de glória sobre o “gramado” de eucatex.

Era o tempo de aprender a ganhar e perder. Alguns de nós, reconheçamos, não aceitavam muito a derrota. Lembro, por exemplo, que o hoje economista Marcos Calheiros decretou a morte do seu artilheiro, Afonsinho (do Botafogo), sob as rodas do trem que passava, diariamente, com destino ao porto de Jaraguá. Motivo da sentença: Afonsinho havia perdido um pênalti numa partida decisiva. Culpa do “técnico”? De jeito nenhum, afinal nós treinávamos – pra valer – em casa, armando estratégias para derrotar o adversário. O botão, este sim, fizera feio.

Demandava paciência e pouco dinheiro ter em mãos o objeto do desejo. Depois, tudo já era encontrado pronto nas lojas, feito de plástico e de outros materiais. Num cálculo impossível de ser feito – verdadeiramente -, acho que o primeiro brinquedo eletrônico que dei de presente ao meu filho custou mais caro do que tudo que gastei na minha infância inteira em matéria-prima para a minha fábrica particular. O capitalismo, só para variar, ganhou mais uma – e tem ganhado todas.

João Vicente, o meu neto debochado e gaiato, já tem um time de botão feito de capa de relógio esperando apenas que ele avance mais no tempo e que eu tenha ainda algum tempo para provar que o escrito aqui é mais do que uma fantasia que se fez recordação.

Janot e Alexandre de Moraes: dois erros que não resultam em um acerto
Governador Witzel já é o maior adversário de Bolsonaro no campo do presidente
  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Êita, Ricardo … um bom domingo 0 a 0:
    > SãPaulo e Flamengo ontem 28set19 – SÁBADO no Maracanã.
    – Em Maceió o CRB animando a torcida: 1 a 1 no Rei Pelé – 78 de anos de majestade.
    > E o Trapichão desde aos 49 saúda os 74 de VIDA do goleiro Félix da seleção TRI 1970:
    – vimos também 0 a 0 na 8ª rodada do Brasileirão: Flu e Fla – Maraca 09jun19.
    E vamos aos achismos q’enriquecem DOMINGOS como este hoje:
    1. […] o 1º brinquedo eletrônico Q dei de presente ao meu FILHO [R Mota acima]
    – custou + caro d Q tudo q gastei […] em matéria-prima p’a minha fábrica
    2. […] o meu NETO debochado e gaiato, já tem 1 time de botão [Idem]
    – feito de capa de relógio esperando
    E antes que me perca, mais que achismo, uma questão de FÉ.
    Pois quem sabe faz a hora, nunca espera acontecer. Pois É!

  • Manoel Miranda

    Ricardo, faltou a arraia (que hoje chamam de pipa). Tomei muito tombo tentendo erguer meus projetos ao céu.

    • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

      ‘Tamo junto c’a Gretchen MÃE do Tammy, Ricardo Mt e Manoel Mr … devagar, devagarinho,
      – C’est lentement, c’est lentement … bien, bien lent
      # Tá Delícia, Tá Gostoso ℗ 1995 BY Sony Music Ent Brasil
      > Devagarinho É que agente chega lá … SE vc num ‘credita
      – Vai tropeçar e seu dedo se arrebenta … cÚ certeza Ñ $’güenta
      > E vai xingar … conheci um cara Q queria o mundo abarcar
      – Mas de repente … deu c’a cara n’aXfalto: olhou p’alto a chorar
      > Sempre me deram FAMA d ser mui devagar, desse jeito dribl’espinhos
      – Vou seguindo mÔ caminho, sei onde vÔ chegÁ … da PEDRA ao sub-terra!
      https://youtu.be/cK5sXM7j8EY

  • SEBASTIÃOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    MUITO BOM , MATÉRIA . . . O QUE COMENTAR COM ALGO TÃO REAL E VERDADEIRO , EMBORA SÓ CONSTE NAS REBARBAS DA MEMÓRIA DE ALGUNS . RECORDAR É VIVER . . . A “TEMPORADA” DAS BRINCADEIRAS, VOCÊ A DESCREVEU MUITO BEM , ERA UM MISTÉRIO QUE NEM A PULIÇA INVESTIGAVA , SIMPLESMENTE ENTRAVAM E SAIAM DE NOSSAS VIDAS , SUTILMENTE . . . HAVIA MALOQUEIROS (TODOS ÉRAMOS) ( MALOQUEIROS DE FAMÍLIA , CLARO ! ) MAIS ESPERTOS ( POBRES ? ) DO QUE OUTROS , E ENTRAVAM NO JOGO PORTANDO UMA XIMBRA INTEIRA ( A DE JOGO ) E DUAS BANDAS DE XIMBRAS (KI-KI-KI—KI-KI-KI) . SE PERDESSE AS DUAS PARADAS , ANUNCIAVA NA MAIOR CARA-DE-PAU : ” VOU VOANDO ! ” E PEGAR UM “VOÃO” DESSES , DAVA TRABALHO . TINHA PIVETE QUE POSSUÍA A VOCAÇÃO PRÁ SER VOÃO . GERALMENTE ERA UM POUCO MENOS FAVORECIDO ECONOMICAMENTE DO QUE O RESTANTE DOS “CARAS” DA TURMA . MAS , TUDO ISSO ERA RESOLVIDO DENTRO DE UMA ATMOSFERA TÃO DEMOCRÁTICA , JAMAIS VISTA SIMILARMENTE NO MUNDO DOS HOMENS , ATÉ HOJE . . . SAUDAÇÕES DEMOCRÁTICAS !

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Eis aí mais uma joia de suas crônicas… e mais uma vez sobre a vida da maneira mais simples, que representa, de uma maneira ou de outra, a vida de todos nós… quem não jogou bola na rua, rodou o pião, jogou o ferrinho, a chimbra ou bola de gude, na época de nossa infância? admiro a capacidade de construir os carrinhos de madeira e lata, que não aprendi a fazer mas vi um ou dois amigos com essa capacidade, mas aprendi a fazer botões de pvc (também chamado de galalite), derretendo ao fogo dentro de moldes de lata (normalmente tampas de algum tipo de garrafa ou vasilhame qualquer)… o que aprendi, mesmo, foi fazer as armadilhas de lata de óleo para capturar caranguejos goiamuns lá para as bandas da foz do Jacarecica… cheguei a juntar mais de trinta em um criadouro de caixões e pneus velhos… e como cantado pelo rei Roberto Carlos: velhos tempos, velhos dias… coisas boas da vida, apesar das dificuldades encontradas na época… mas, alguém já o disse uma vez: tempos difíceis fazem seres humanos fortes… e tempos fáceis, fazem serem humanos tolos e desperdiçadores… Boas lembranças para um Bom Domingo.

  • Lagar dos Tempos

    Sr. Jornalista,
    Uma crônica domingueira de um mundo muito feliz, que hoje não existe mais, mudou-se para o computador. Foi exatamente assim, sem tirar nem pôr, que vivi e atravessei a minha infância e adolescência. Sem mais palavras. Parabéns por resgatar um verdadeiro continente perdido!

  • Cid Carlos

    É Ricardo, são saudades de um tempo bom que não volta mais! As brincadeiras da criançada, eram brincadeiras inocentes! Não havia maldade entre a criançada! O negócio era se divertir! Tempo da ximbra, da finca, do pião, pula corda, carrinhos feitos a mão, carrinho de rolimã, navios e aviões de papeis feitos a mão, espadas de madeira feitas a mão para imitar lutas dos filmes de espadas, máscaras feitas a mão para imitar o Zorro, amarelinha, esconde esconde, ioiô, sem deixar de citar o jogo de bola, etc.! Abraços, amigo!

  • Zé MCZ

    Rapaz…
    Eu tive time de botão com capa de relógio, e eu tinha fornecedor na família, mas usava mesmo botão feito de vidro inquebrável ou mica transparente (assim dizia a galera), geralmente de janelas e portas dos antigos ônibus. Eu mesmo manufaturava, depois lixava com folha de cajueiro brabo e dava polimento com caco de louça ralado, a quina da mão e flanela. Ficava nos trinques!
    O brinquedo que eu mais desejei foi um ônibus elétrico que passou um bom tem na vitrine da Loja dos Presentes, que ficava numa das do comércio (não lembro), no Centro. Mas com toda certeza o meu melhor ônibus foi de lata, madeira e borracha envolvendo as rodinhas. Com ele atravessei o mundo, ainda que tenha sido as ruas do bairro.
    Peladas nas ruas descalçadas, muitas vezes tinha os três turnos, mesmo ouvindo o sermão em casa…
    Mas não dormia sujo!
    Acho legal você apresentar o time de botão para o neto, mas faça dois e que ele tenha sorte de encontrar um adversário que queira jogar. Mas até lá vão criar um APP desse joguinho. Pode ter certeza! Até futebol de preguinho, com o som da moeda batendo.

  • Maria

    Que saudades dessa época! Éramos tão felizes em comparação com o mundo de hoje… As vezes me pergunto onde foi que tudo se perdeu? O que restará para os nossos netos? Será que conseguiremos retomar muitos desses valores que foram essenciais para o nosso desenvolvimento e hoje estão invertidos? Minha mãe escutava o meu grito e dos meus irmãos “peraí mãe” era pra ficar mais tempo na rua e se ela falasse ta na hora já viu…As brincadeiras eram saudáveis, brincávamos de bater figurinhas, bola de gude com triangulo, jogar bola,31/alerta,barra bandeira,queimado,pipa,pião,cuscuzinho, bicicleta,patinete,pular elástico,esconde esconde,rouba bandeira,pular corda,amarelinha,pelada com barrinha(eram brincadeiras que não acabavam mais) e muitos brinquedos fabricados por nós e nossos pais.

  • Maria

    Nossos pais eram presentes em nossas vidas e eu adorava tomar banho de chuva e pegar tanajura quando eles deixavam, é claro! Colecionava figurinhas, papel de carta, selos,cartão telefônico e tazos…tudo em sua época. Lembro bem do tempo de escola, as pesquisas nas bibliotecas feitas a mão, a aula de educação física era de verdade, a tabuada e o hino nacional tinham que estar na ponta da língua. Zoava e brigávamos com os amigos, mas logo estava tudo resolvido e seguia a amizade… Piolhos? Uma infinidade que parecia que não acabavam nunca. Naquele tempo ser gordinha era sinal de saúde e se fossemos crianças magras biotômico neles rsrsrs. Em festinhas de aniversario de amiguinhos com mais condições não existia lembrancinhas, era apenas um pote recheado de doces e que alegria quando alguém o quebrava. Todo mundo junto e misturado e como era bom… Era maravilhoso Ricardo Mota!

  • Mário Jorge

    Essa semana passada estávamos na SMS Maceió, tratando desse assunto importante na hora do cafezinho, algum desavisado falou em galalite, pronto, atiçou nós os coroas, o assunto uniu todo o fazer times de futebol de botão, bom muito bom o assunto nestes tempos estranhos.

  • Antônio Carlos de Almeida Barbosa

    Lembranças revividas na Rua XV de Novembro, esquina com a Rua Esperidião Rodrigues em Arapiraca, através do seu texto perfeito.

    Vamos em frente, com o tempo passado no nosso tempo presente.

  • EDUARDO ANTONIO DE CAMPOS LOPES

    Saudades. Faltou a “peteca” (estilingue).
    PS: ainda mantenho meu time de botão (capa de relógios, galalite e goleiro de caixa de fósforo). Só é marcar uma partida. Kkkk

  • Há Lagoas

    Só acessei hoje o seu blog.
    Preciosidade, lembranças do tempo de infância…
    Bons tempos de criança lá na Cambona.