Até a ficha cair, demorou algum tempo. Aquela música enjoadinha, que tocava sem parar, me incomodava não apenas por ser muito chata – ela remetia-me a um período da minha infância desagradável de lembrar. Era só ouvir A velha debaixo da cama – faz algum tempo, um bom tempo –, e eu recordava, depois com clareza, que a tal senhora havia feito morada sob o meu colchão. Já adulto, descobri que eu sofrera de “terror noturno” (e bote terror nisso), uma fobia que crianças  – e nem só crianças – de todo o mundo tiveram e têm de enfrentar.

Hoje, quanto mais escuro o quarto, melhor eu durmo. Não sei como nem por que, venci esse medo e adquiri outros. Tenho, e não nego, um tipo específico de fobia social: a fobia de palco, o que me provoca a tal “angústia antecipatória”, à qual já não insisto em tentar superar. Assim, ganharam ouvintes e plateia dos shows que já não faço. A música virou ‘apenas’ uma paixão definitiva, ainda que ingrata – por não correspondida.

Daí, ler Bem que eu queria ir, do americano Allen Shawn, foi um ótimo aprendizado. Perseguido a vida inteira por sua agorafobia de estimação, ele tem encarado um destino difícil de cumprir. Resolveu, talvez como catarse, estudar e escrever sobre o tema. À luz da Neurociência, da Seleção Natural e da Psicanálise, ele se deparou com um universo grandioso, muito além do que podia imaginar ao pretender aprofundar-se sobre o tema.

Estão catalogados cerca de 500 tipos de fobia (alguns bem específicos), o medo paralisante cuja origem nem sempre é explicável. Músico, escritor e professor universitário, Shawn, de uma família de intelectuais, já havia se debruçado sobre a vida de um dos seus compositores preferidos, Arnold Schoenberg, que sofria de… triscaidecafobia, ou, simplesmente, o medo do número 13  – enroscava-se e errava feio quando se deparava com o compasso de número atemorizante.

Sua agorafobia – ou o medo de espaços públicos abertos e/ou descobertos, numa definição mais simplista – pareceu-lhe, então, até mais compreensível do que algumas situações de pânico absurdas  “a olho nu”. O siderofóbico, outro exemplo, não poderia ser “poeta”, por temer as estrelas (!). Os portadores de genofobia estão, praticamente, condenados a não procriar – têm medo do sexo. A estes se juntam os hedonofóbicos, tementes ao prazer.

Há pessoas que não suportam ouvir a própria voz, fonofóbicos que são. A estasifobia é própria dos que não conseguem ficar parados. Temor de se ver ao espelho? Isotrofobia. À nudez? Gimnofobia. E vão por aí as esquisitices dos pobres e tolos humanos que somos (serei, eu, antropofóbico?).

Existem, sabemos, as fobias mais comuns: claustrofobia (medo de lugares fechados e/ou apertados); acrofobia (medo das alturas); ataxofobia (dos muito incomodados com a desordem ou a desorganização); além de outras centenas de sofrimentos difíceis de suportar num cotidiano que se pretenda um  tanto saudável.

Se você, ao contrário, não carrega consigo uma dessas limitadoras da qualidade de vida, não perca a “esperança”: quem sabe se uma fobofobia – medo de adquirir fobias – não está a lhe espreitar numa esquina da fugaz existência?

Só lamento que os verbofóbicos não possam ler este texto domingueiro: se o fizessem, saberiam que não estão sozinhos no mundo.

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  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Um BOM domingo, Caro Ricardo de Seu MOTA … menino LINDO desde 1958!
    apois é Verde a Ponta afiada Jatiucando a Pajuçara, tá tudo LIMPO tipo Agepê?
    Disfarço HÁLITOS eu , ao redor ventos diluem FLATOS: À nudez … Vc acima de TUDO desde 1975!
    Aí a porca do rabo ! entorta ? gimnofóbica, MINTO? […] (EU, antropofóbico?), Vc, comendo todXs!
    > ONDE num mora ninguém, num passa ninguém … desd 1942-1995, aos 53 de flor-IDADE.
    – nem namoro ninguém lá: me sinto BEM … ouvindo Antônio Gilson Porfírio, Ripinha da TELERJ!
    > NUM tem bloco na rua NEM carnaval homO, só de rabo de saia à passarinha … úlcera e diabetes?
    – TEM a + linda cantiga numa casinha BRANCA n’alto da serra da µ-ondas desmatada pela TIM
    > Via Embratel vieram ALGAROBAS cívicas nos 1970’s contra Coqueiros cínicos, grilagem COLONIAL
    – No RABO de foguete d’um cachorro magro, fogão d’lenha fumaça SEM névoa NEM guerra em 3′ 29″
    https://youtu.be/Oplj90FQBSA

  • Juvenal Gonçalves

    Puxa, Ricardo!
    Depois de todas essas fobias, fiquei com medo de comentar!
    Limito-me a dizer: Belo e “pavoroso” texto!
    Bom domingo e Boa semana, sem medos, para todos!

  • Maria

    Que conversa é essa de medo hein, Ricardo Mota!? Quando criança o meu momento mais aterrorizante era quanto faltava energia, sem contar que só conseguia dormir todos os dias com a luz do quarto acesa, tinha que olhar varias vezes em baixo da cama e a chave da porta tinha que ficar escondida. Hoje acredito que o medo faz parte do ser humano e esta presente de alguma maneira em qualquer etapa da vida como um instinto de sobrevivência mesmo. No meu caso não é muito bem vindo, mas existem pessoas que gostam de senti-los. Continua…

  • Maria

    … Algumas vezes ouvi dizer que a maneira mais eficaz de combater o medo é justamente fazendo aquilo que dá medo. Eu sinceramente, não consigo agir dessa forma: “talvez por medo”, mas tenho certeza da minha evolução quanto ao lidar com o medo. “Antes eu tinha medo da morte, hoje eu tenho medo da vida” rsrsrsrs. Procuro diariamente trabalhar a maneira que as informações chegam a minha mente e lá onde mora o medo… Eu estou sempre em oração e podem acreditar consigo excelentes resultados. Excelente domingo! “Quando eu era criança, morria de medo de bêbado …Hoje sei que agente não faz mal a ninguém!”

  • Zé MCZ

    “E há também a verbofobia, que é o medo das palavras. Nesse caso, é melhor ficar calado, disse Juan de Dios Martínez. É um pouco mais complicado que isso, porque as palavras estão em toda parte, mesmo em silêncio, o que nunca é silêncio total, certo? ”
    Roberto Bolaño – sem S, escritor chileno, que não se encontra mais aqui…
    Imagino que a véia debaixo da cama tenha origem no terror imposto pelos adultos (normalmente pelos pais ou avós, esses muito raro), o que faz desandar, a partir daí, a bússola que rege o bom senso. Então vêm as fobias. Quem tem só uma já é terrível, o que dizer de quem tem mais…
    Se há cerca de 500 tipos de fobia, é bem possível que ninguém é imune! A vacina é tentar ver (pode ser difícil sozinho) que tudo não passa de fantasma, igual à véia debaixo da cama. Tem que jura que ela tá lá! Mesmo a cama sem os pés.

  • Luciano Carvalho

    Estou com medo de comentar. Boa semana a todos, se tiver coragem…

  • Há Lagoas

    Irretocável, como sempre!
    Boas semana a todos.

  • Elvis Grande

    Adquiri algumacoisafobia depois de ler este texto! Além das fobias que já tenho, coisa de nós, humanos.