Se alguém quisesse ver o Sandoval Caju irritado, era só associar o S estilizado, que se destacava nas praças da cidade, ao nome do primeiro prefeito de Maceió a valorizar os espaços públicos, como ambientes de convivência das pessoas – e nisso ele foi insuperável.

A resposta vinha pausada, mas enfática:

– O S era de Cidade Sorriso, uma ideia do Lauro Menezes, desenhista da prefeitura. Ele sugeriu, e eu acatei.

– O S nos bancos de praça?

– Sente-se, ora!

– E nos banheiros públicos?

– Sirva-se!

E dava a conversa por encerrada, que ele já não mais suportava a histórica provocação dos seus adversários políticos.

Seu Lauro Menezes, eu conheci ali na antiga Rua da Praia, que hoje recebe o nome do seu filho e meu maior ídolo no futebol: Roberto Menezes (o Falcão era o Roberto Menezes dos pampas).

Lembrei-me dessa história, há alguns dias, ao receber uma camiseta do Zé, com a inscrição: “Paixão pela Sinimbu”. E bote paixão nisso, meu caro. Paixões, no plural, faria mais justiça ao enredo, e eu até conto a história como a história me parece que foi (não nos fiemos nas lembranças, que elas mentem muito).

O tal do Zé – e como tem Zé também em Alagoas, inclusive este escrevinhador sofrível – é o Eduardo Canuto, que eu vi menino, já metido a galinho de briga, enfezado com o Lúcio Pezão e levando puxão de orelha do Paulão, irmão mais velho de ambos e autoridade incontestável, a aliviar um pouco a lida da Dona Eunice com suas crias, homenzarrões abusados. Entre estes, o Márcio Canuto, que já andava pelo mundo a ganhar o pão de cada dia – mas que ninguém fosse doido de tirar gracinhas com ele.

Meu companheiro de bola e de algazarra entre os Canuto, quando a vida acontecia sem que percebêssemos, ali na  Sinimbu, na praia da Avenida, no areião do Salgadinho, era o Claudinho. Que depois virou Magal, até inventar de dar ousadia à morte (uma figuraça!).

Ficávamos sentados na grama da praça, um bando de meninos, a esperar que o Roberto Menezes passasse, sem tocar o chão, planando, assim enxergávamos, para a Faculdade de Engenharia – hoje espaço Cultural da UFAL -, onde ele se preparava para abandonar sem remorsos aquela que mais o amara: a bola.

Havia as tarde “sem lei”, em que aprontávamos as aventuras que não tivemos coragem, estou convencido, de contar aos nossos filhos. Parafraseando Vinicius de Moraes, “menino não presta, não presta, não presta, meu Deus!”. E aí, o nosso arremessador oficial de pedras nas vidraças, Vicente, que trabalhava numa casa ali por perto, fazia exercer seu talento e pontaria, com a valentia que nos faltava. Antes que o barulho chegasse aos nossos ouvidos, estilhaços ao chão, as pernas já nos haviam conduzido na velocidade que só o medo – ou Usain Bolt – é capaz de imprimir.

Na mesma Praça Sinimbu saboreei, maravilhado, o meu primeiro sorvete de ameixa, uma raridade na década de 1960. Vi as meninas desfilando e capituniando, nos tempos em que a timidez era uma exigência para elas, quase que um valor social a ser alcançado (cá pra nós, isso mudou, e para muito melhor). Éramos Bentinho ou Escobar, a depender apenas em que direção iria a esguelha.

Já na fase de jovem adulto, eu gostava mesmo era de namorar por ali, hormônios saindo pelos poros, escondido, ávido e inocente amante, sob a penumbra/escuridão do fim de tarde, começo de noite, depois de sair das aulas no velho CCBi – cheio de fantasias quase sempre irrealizáveis.

Imaginação não tem limites, gente; a vida, sim.

Ia repassando as memórias vadias, e eu já nem sei o que  foi verdade, fato, apesar da nitidez das cores e dos corpos, quando o toque do celular me acorda. Era o Zé:

– Recebeu a camisa? Tem um projeto maravilhoso de revitalização da Sinimbu. Estou vendo se consigo levar adiante.

Tudo bem, Zé, mas é preciso levar a sério essa coisa da paixão. Quem sabe até, dissimuladamente, como quem nada quer, erguer um pequeno monumento sob a galharia do que restou de uma das velhas árvores da praça, discreto, que não chame a atenção dos desavisados, em homenagem aos ‘amantes da Sinimbu’.

Eu juro que não estaria sozinho entre os que se sentiriam, silenciosamente, agraciados.

Silêncio de Barbosa sobre a Operação Casmurros irrita governistas
Bolsonaro não tem dado o mínimo espaço para a oposição
  • Luciano Carvalho

    Maravilhoso texto. Eu como “Maloqueiro do Trapiche”, título agraciado nada mais nada menos por Carlito Lima, fiz uma “viagem” aos bons e distantes tempos de “maloqueiragem” nessa praça, inclusive imitando o Mijaozinho. Parabéns pelo texto, bem ao estilo de Stanislau Ponte Preta.

    • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

      Um bom DOMINGO, Luciano … c’as bencãos PROFANAS de Ricardo MOTA!
      textos elegantes com luzes e sombras incríveis de REALIDADES afetivas em cores poéticas sinceras, imaginativas!
      Próxima à METRÓPOLE antes de 1817, Maceió construi-se com URBANIZAÇÃO razoável … com praças!
      > No Sertão, quanto DESPRAÇAMENTO ao redor de ocas reunidas em TABAS carnijós de Ag Belas – PE.
      – é o que vemos ao redor de P’Açucar com PRAÇA de 7 léguas entre Grupo ESCOLAR e Cadeia Pública.
      > Em Palmeira-AL ao lado de B’Conselho-PE xucurús,
      – De Delmiro-AL arriba pancararus em Tacaratu e Petrolândia.
      > E de 2 Riachos jogando na AABB-St’Ana fez-se a Rainha em CONTO brancos no Brasil:
      – pernas de pau … ‘na grama da praça, um bando de meninXs […] pedras nas vidraças [R-Mota acima]

  • Zé MCZ

    Entendi…
    Era (quase) só o Vicente. Ah, tá!
    Mas o seu Sandoval era da época em que havia algum respeito (dá sim! para imaginar que era) com o erário redundantemente público e que atualmente é totalmente uma privada! Big! É exatamente por isso que não há mais recursos para nada!
    Rapaz, eu imagino o José Eduardo levando uns croques do Márcio Canutão, hein? Deve ter levado e tu deve ter testemunhado…
    Venho daqui dar a sugestão de botar de novo o mijãozinho. Pode ser a escultura de tu, José Ricardo Mota, quando menino. Porque de já barba feita não dá, né!?
    Valeu!

    PS: falando sobre Zé, eu também sou e às vezes acrescento Gregório, do mato!

    • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

      ANTIGAMENTE era + mUderno, Zé MCZ? … rsRs
      > Com Getúlio (1930-1945) e c’as baionetas (1964-1985) ninguém prestava CONTAS:
      – jogava pro ALTO em nome de Deus que tudo pode lad(R)eado de A$modeu$e$ … Kkkkk
      > O resto de CAIA (100% até com bons ventos) era dinheiro pra louras geladas, pró-NOVINHAS:
      – donzelas cevadas a pão de LÓ e mal pagas por gente flácid, buXos de cerveja bem petiscados!
      RECENTEMENTE sob togas imaginativas, fofoqeiros acusam e subjugados mandam prender.
      # Constragimentos PRÉVIOS sem julgamentos isentos:
      – $’Moro desculpou-se, mas NUM se arrepende!
      # A única coisa verdadeira na carta do então juiz da Lava Jato era a DATA.
      – data venia, Zé e Ricardo: esse é um efedapê, juiz LADRÃO! [15set19]
      https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2019/09/moro-desculpou-se-mas-nao-se-arrependeu.shtml

      • Zé MCZ

        É verdade, Jão monge santanense sem ser idosamente…
        Não sei se a expressão “eu era feliz e não sabia” é aplicável, talvez porque fôssemos ingênuos e sempre correu por debaixo do pano a hipocrisia. Agora é tudo escancarado! Até no VAR é assim!
        Misericórdia!
        Quem sabe um dia eu mergulhe na Utopia. Só ouvi falar, não sei do que se trata, mas dizem que melhor que Pasárgada, até porque quem é amigo do rei é o Manoel, não sei se ele foi até lá, mas iria viver na sinecura, benesse, boquinha, conezia, governicho, nicho, prebenda, tacho, veniaga. Sempre corri disso!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Vida que segue… afinal, quem não tem suas estórias guardadas na memória?… e, na maioria das vezes, em nosso egoísmo, esquecemos nenhum lugar é melhor ou mais agraciado que outro… em todos os recantos deste mundo tem lugares que serviram de palco para memórias de tantas outras pessoas… e nenhum, como disse, é mais perfeito ou melhor que o outro… o mais importante mesmo, como disse o Rei Roberto Carlos em uma de suas famosas músicas, são as lembranças que guardamos dos lugares, pessoas e experiências, pois isso é o que nos faz medir nossa dimensão humana… porém jamais devemos esquecer que somos, hoje, um ser dual: corpo e espírito… as coisas do corpo passam, o espírito permanece para sempre… e é o espírito quem guarda, em sua memória imortal, as lembranças de tudo o que fizemos e aprendemos… então, as memórias são para sempre… Bom domingo.

    • Maçons matando 1 leão ao DIA com agonia ao molho ROTARyAño, êpa!

      INVEJO tua imaginação, caro JEu … desinformadamente algarobeira de ROTARIANOS santanenses 1970’s, rsRs
      a p*rr# da Árvore da AMIZADE na Pça da Matriz, frondosa ALGAROBA de raiz superficial desabou num temporal. Kkkkk
      FELIZMENTE sem vítimas, menos mal! [Algaroba – Prosopis juliflora]
      > Grande consumidora de água, SECA tudo ao redor com raízes GULOSAS invadindo Bioma Caatinga atacando espécies nativas.
      – ESPINHOSA, refloresta MATANDO tudo ao redor, opção democrÔta (1964-1985) do MILAGRE econômico furado no Sertão.
      # Uma PRAGA resistente à seca por meios PERVERSOS, produz madeira BOA e intoxica animais por excesso SEM mistura.
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Algaroba_-_Prosopis_juliflora

  • Gustavo Pinto

    Nasci em 1969 e, morador da travessa França Morel frequentei muito a praça Sinimbu. Lembro até hoje das apresentações de aeromodelismo em uma pista oval que existia na Praça. Todas as vezes que passo por lá sinto um aperto no coração, pelo completo abandono daquele belo e representativo espaço. Infelizmente os gestores municipais abandonaram nossas praças.

    • Sertanejo ENLUTADO esperando Justiça e PAZ com FÉ

      Nasci em St’Ana – a RAINHA, caro Gustavo … cidade despraçada!
      Letrados sem biblagem, arruinam a PAISAGEM ao redor do Poço do JUÁ a jusante do Poço das MOÇAS, as lavadeiras.
      Aois a BÍBLIA pressupões fluência na 4 operações com percentuais de gramática e filosofia – sem isso arrebentam-se PAISAGENS.
      No Sertão, poucas cidades tem DIGNAS praças como Pç-d’Trincheiras do Ri-Panema a NORTE e P’Açucar a SUL com SanFran!
      Parnasianos VICIADOS em resumos de pré-vestibulares ao redor de confrarias ABL’$, abilolam-se pé-quebradamente, áFfff!
      Iluminados trouxeram asfaltos superfaturados SEM sombras de árvores, antes da 6 da manhã e depois das 18 horas, é o caminho!

    • Juvenal Gonçalves

      Pois é, Gustavo.
      Sinto também uma certa nostalgia ao passar por ali…
      Uma das paradas prediletas quando fazia o caminho de volta da saudosa ETFAL, rumo à Franco Jatobá, no Prado.
      Ah, e a minha primeira pizza na Sorriso, acompanhada daquele saboroso sorvete de creme!
      A antiga Reitoria da Ufal: inscrição e resultado do concurso vestibular. Curso intensivo de francês… …programações culturais…
      O Roberto Gonçalves de Menezes: meu ídolo craque do CRB e do Brasil, para nós o “Bola de Ouro” da Revista o Placar: “não compramos aquele exemplar que colocara o Piazza no lugar do galego”. O PC, para uns Paião, que o diga!
      Ah., voltando ao titulo: velha e abandonada Sinimbú, és uma senhorinha muito querida!!!
      Ricardo, parabéns pela crônica.
      Bom domingo para todos!!!

  • Nelson

    Nossas praças são a visão do inferno !!
    Vai ser preciso Sandoval Cajú reencarnar torna-se Prefeito novamente para Maceió voltar a ter praças. As praças de Aracajú dão de mil a zero nas de Maceió….se lá pode, porque não podemos ? Falta somente Homens ou Mulheres que amém Maceió, para mudar o curso da história de abandono de nossa Capital.

    • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

      Me parece faltar uma Olinda a Aracaju, caro Nelson … a praia + insôssa do Brasil CONTINENTAL!
      Em MANGUES o centro, com pontes pra arruados … sem a Bahêa, Sergipe sem tempero, árgh!
      Aos 201 (duzentos e um) ANOS a Comarca Servil desde 1817 independentada do Pernambuco, afrancesa-se!
      > Seu xará (1928-2018) N-Pereira dos SANTOS em 1971 driblou a censura democrÔta (1964-1985), rsRs
      – ATORES sem fardas, índios NUS, fraldas SEM pornografia iconogr´afica à Theodore de Bry (1528-1598).
      # Diário alemão de H-Staden (1525-1576), afrancesado à Kardec (1804-1869) sob TUPINAMBÁS antropófagos.
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Como_Era_Gostoso_o_Meu_Francês

  • Antônio Carlos de Almeida Barbosa

    Belíssimo texto. Vibrei muito, da criativa frase, com muita justiça “o Falcão era o Roberto Menezes Menezes dos Pampas”.

    Valeu. Bom domingo.

    Vida que segue.

  • Há Lagoas

    As lembranças de uma época em que a ótica de ver o mundo através da lente de uma criança faz o adulto de hoje ser grato por seu passado. Não vivi as décadas aqui descritas, mas minha imaginação me leva a ser um expectador – feliz – das travessuras dos que tiveram este privilégio.
    Espero que o projeto da praça Sinimbu – juntamente co a revitalização do velho e boêmio Jaraguá – se torne uma realidade.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Ricardo … um BOM domingo pra Vc!
    Pra mim MELHOR seria sem a ressaca da desarmonia etílica desde a sexta-13, amarga!
    – Sente-se, ora! … – E nos banheiros públicos? … – Sirva-se!
    Do JEITO que as coisas seguem, comeremos COCÔ penso com otimismo!
    Mesmo assim, com a LEI do descomimento em dias alternados do tenetim ALTERADO:
    – a eMe num vai dar pra todo mundo, diz PitBull vira-latas alehio à RAÇA nacional: cão FILA!
    [FILA brasileiro] := raça de PORTE grande a gigante, 1ª raça brasileira reconhecida internacionalmente.
    – CÃO que nos guarda e nos ilumina, amém com N Sra atrelada à colonização d’europeus com cães de trabalho.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Fila_brasileiro
    > A genética do Fila brasileiro é desconhecida, entre outras 2 OPÇÕES:
    1. Cruzamentos entre 3 raças inglesas de grande porte, surgiria GIGANTE brasileiro pela própria NATUREZA.
    – Herdando estrutura óssea de mastins ingleses, pele solta e orelhas baixas de bloodhounds + resistência de buldogues?
    2. Mais plausível e + embasadamente FILA descende de grandes cães portugueses e espanhóis
    – Mastín Leonés (Mastim espanhol) e do Castro Laboreiro (entre outros) desde trazidos c’União Ibérica 1580-1640.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/União_Ibérica

  • Zé MCZ

    Aqui conta se a origem da praça Visconde de Sinimbu:

    https://www.historiadealagoas.com.br/praca-visconde-de-sinimbu-antigo-ponto-de-travessia-do-riacho-maceio.html

    E quem quiser saber mais sobre a geografia, a sociedade, a economia, a política e muita, mas muita politicagem do nosso estado que amanhã completará mais um ano de emancipação (?), deixo a sugestão; para quem ainda não conhece:

    https://www.historiadealagoas.com.br/

  • Everson Silva

    Show de bola essa narrativa, Mota, uma volta ao tempo e que tempo hein!? Boa iniciativa do Vereador Eduardo Canuto e m revitalizar aquele local de muita simbologia para muitos e bons. Não viví esses tempos de glórias mas espero pelo menos usufruir dessa concretização se ela for.

  • Maria

    O tempo não envelhece na imaginação do sonhador e que bela recordação domingueira. “Todo(a) Mais sermos não é tanto pelo querermos como pelo vermos com tranquilidade. Naturalmente, por tanto,como o tempo,e, artificialmente,com sem tempo. Antes da palavra, o pensar,para lá da palavra observar o sentir,todo o vivenciar, todos os sentidos.”

  • Victor Bosa

    Parabéns Eduardo Canuto pela atitude de revitalização da Sinimbu, e a você também Ricardo por abordar esse assunto.
    Tenho 43 anos , daí não participei dessa amizade maravilhosa que existiu nessa praça.

    Mas sou filho do Bosa ( Frutuoso), e te relato Ricardo e Eduardo .
    Durante toda minha vida escutei os relatos de saudades de meu pai a respeito da Sinimbu , até hoje ele consegui passar por ali sem contar alguma história daquele tempo, e são dessas belas lembranças que permanece no coração de vocês, que filhos igual a mim que não participaram dos momentos da Sinimbu , mais hoje tem um carinho especial por ela , até mesmo imaginando como era vocês curtindo.
    Hoje coincidentemente o Bosa trabalha no Fórum da Praça Sinimbu.

  • Oliveira

    Não sabia do s da sinimbu, hoje aumentei meus conhecimentos, conhecer nossa história é obrigação. Obrigado Ricardo Mota