Eu estava na fila do supermercado quando senti um leve toque no ombro, seguido por uma voz calma que me abordou: “Ricardo!”.

Era eu, claro, e me voltei para ver quem me chamava. Como sempre fui um ótimo fisionomista, descobri logo que se tratava de alguém, um sujeito, que era meu contemporâneo. Mas as vantagens da minha memória não mais me ajudaram a ir adiante no rápido enredo. Fomos colegas de escola, de rachas em gramados ruins ou na areia fofa da praia, ou simplesmente nos encontrávamos em turmas diversas, de paqueras ou festinhas, em tempos que faz tempo?

Não forcei a lembrança – de pouco me adiantaria. O que chamou a minha atenção, rapidamente, era que ele – fosse lá quem fosse – havia envelhecido bastante, arrastava uma perna, não sei se temporariamente. Isso que lhe dava uma idade que me parecia bem além da minha geração, o que os seus traços fisionômicos, no entanto, desmentiam (e se fosse uma mulher, o julgamento seria ainda mais impiedoso?).

Nossa, estaria eu tão passado nos anos assim? Acho que não lhe provoquei a mesma sensação, afinal eu tenho envelhecido ao modo – como ele, como todos -, só que isso acontece publicamente, o que inibe o fator surpresa,  pelo menos para quem permaneceu aqui em Alagoas e ainda se dá ao trabalho de assistir televisão. Barba branca, cabelos cada vez mais ralos, barriga protuberante, tudo isso já faz parte do pacote Mota – este Mota, pelo menos.

Talvez por ter perdido, e há muito tempo, o medo de morrer, as limitações que a idade impõe ainda não me incomodam tanto. As dificuldades do sono, estas já me são velhas conhecidas (com a licença do trocadilho), ainda que isso seja um incômodo insuperável.

“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”, nos adverte o Homem Comum (de Philip Roth), que se define como o “sapateiro feliz”. Ou seja: o cara que descobriu suas precariedades e limitações, contentando-se, sem estresse, em ser o que é – não o que imaginou que poderia ser lá pelos “tempos dos pardais”. E, cá pra nós: todo mundo tem seus “tempos dos pardais”, que a imaginação inventa mais o passado do que o futuro, quando a vida avança. Aqui pelo meu lado, não trato tanto das reminiscências e vou consertando sem pressa os sapatos que me chegam. Quando los recuerdos vêm, bem-vindos – se me trazem um cheiro e/ou um tempero agradável.

Ah, sim, descobri que gosto cada vez mais das coisas de que gosto, e cada vez menos das coisas de que não gosto. Acho uma boa lógica, embora pessoal e intransferível. Seguindo François La Rochefoucauld, para quem “o primeiro dos bens, depois da saúde, é a paz interior”, ando desdenhando mais o que dizem os do lado de fora, principalmente os que estão dentro das redes (anti) sociais – o inferno que Dante, felizmente para ele, não conheceu.

Não pretendo que haja alguma sabedoria nisso, mas, de repente, não mais que de repente, tenho o silêncio como um dos amigos, íntimos e confidentes, com os quais melhor me relaciono (“O silêncio… é a gente mesmo, demais”). Se dá para entender, lá vai: ele me possibilita um número maior de encontros, conversas e interações, descobertas de novidades inimagináveis, do que o contrário. Não, eu não ouço vozes, pelo menos internas: elas estão estampadas numa folha de papel – aos milhares – ou numa tela de cinema, ainda que de dimensões pequenas, bem menores do que aquela que me fez em paixão pela Sétima Arte (celular em cinema me mói o juízo).

A tal da arte – quem diria? – nos dá uma sobrevida encantadora e entusiasmante, com gosto de quero mais: “A arte limpa da nossa alma toda a poeira do dia a dia”, já disse Picasso, o voraz amante – e não apenas das tintas e das telas.

Na verdade, não dá pra saber quando começa o massacre definitivo. É provável até que ele já se tenha iniciado, com golpes ainda leves, que não vergam tanto o corpo, deixando o queixo ao inexorável nocaute. Mas ao conselho que Nelson Rodrigues teria dado a uma turma de estudantes de Jornalismo – “Envelheçam!” -, eu acrescentaria apenas: “Bem ou mal, essa é a única vez em que isso acontecerá na sua vida”.

Collor se tornou o adversário favorito dos majoritários locais
A plateia do ministro Paulo Guedes diz muito sobre o que somos
  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Começo, como você o fez, por relembrar os “bons tempos”, que, em suas palavas, permitia: “rachas em gramados ruins ou na areia fofa da praia, ou simplesmente nos encontrávamos em turmas diversas, de paqueras ou festinhas, em tempos que faz tempo?”… e tudo era em paz, ordem e segurança… tempos bons, bons tempos… já quanto à questão das consequências que o “tempo” impõe ao corpo (só o biológico, é claro…), dessas ninguém poderá se eximir… mas, creio, o mais importante é que, por “dentro” jamais envelhecemos… não foi à toa, portanto, que Jesus anunciou: “em verdade o Espírito está sempre pronto, mas a carne é fraca”… é ou não é uma verdadeira joia da filosofia?… e Ele falava não de coisas “irreais”, ou puramente “ideais”, Ele falava de verdades que ele conhecia muito bem… das leis da natureza de nossa realidade biológico-material ninguém escapa, e o corpo cumpre essas leis… porém, o Ser Espiritual, esse pré-existe e sobrevive ao mesmo e sempre leva (e trás) consigo todo o arcabouço intelectual e moral aprendido e apreendido em sua memória imortal… portanto, concordo com você quando diz que não é preciso temer a morte, pois essa só atinge o corpo biológico e, aceitemos ou não, entendamos ou não, continuaremos nossa jornada rumo aos patamares maiores da Vida. Tema muito bom, para uma boa reflexão, nesse domingo, que parece já ter esquecido a Data Maior (7 de setembro) para a Nação Brasileira. Bom domingo.

  • Interiorano

    Ricardo, eu acrescentaria o seguinte : “envelheça sempre querendo aprender mais, fazendo o bem, respeitando o próximo, mas, pedindo sempre a Deus todos os dias que seja com saúde, até o dia em que o massacre terminar”!

  • Zé MCZ

    “O tempo passa
    O tempo voa
    E a poupança Bamerindus
    Continua numa boa
    É a poupança Bamerindus
    Dus
    Dus
    Dus!”… (Dus ex donos, que deve continuar numa boa)

    Sidarta Guatama(não é aquela construtora) teve até atingir a juventude a vida que pediu a não sei quem (o pai terreno lhe propiciou), ou seja vivia na sombra e água fresca, na melhor zona de conforto(e que conforto! Enfadonha!). Assim contam as tradições. Aí ele quis conhecer o mundo lá fora. Durante o trajeto viu um homem idoso, bastante enrugado, talvez com a fisionomia além da cronologia…
    Então Sidarta, aterrorizado, questionou a seu fiel escudeiro: o que é isso!?
    – isso é a velhice meu senhor! É o que acontece inexoravelmente a todos! Ninguém escapa!
    Quem sabe foi aí que ele, o Sid ouviu ficha tilintar. Não caíra, ainda.
    Mas tenhamos todos a certeza que caiu!

  • CICERO FREDERICO DA SILVA

    Você fez lembrar o cantor e político Sérgio Reis *A VELHICE É UMA DESGRAÇA *.
    O que devemos nos preparar para chegar LÁ.
    E não ficar no meio do caminho.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    ôI, Ricardo … um BOM domingo dJaVan’eado à moda do jovem músico de 1949, um danado!
    > Sêo Djavan Caetano Viana, esposando Dona Rafaela B (dsd 2000);
    – maritalmente antes c’a Ma Aparecida S-V (1972-1998).
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Djavan
    > E assim este MOTA, Ricardo emburaca na religião INCOMENSURÁVEL na PAZ dos justos:
    – desvelando … ‘O silêncio… é a gente mesmo, demais’ … acima de TUDO arriba!
    > De cara escarafunchando queijos $uiÇo$ e morangos mofados da FILOSOFIA
    – na ½ SOLA rôta do … ‘cara q descobriu suas precariedades e limitações … acima de TODOS!
    Apois ARTES hj se faz COM ciência, e política com EDUCAÇÃO antes q’@-mundo se acabe. [07set19]
    Destruição estúpida e covarde levando as D + espécies – cães e lobos, gatos e ratos – COVARDE e traiçoeiramente, Asmodeu$!
    https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/o-artico-derrete

    • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

      Êita João … é CONTO d + desde 1982 além das contas a pagar em 2019, rapaz!
      N’O Mofo deu: Diálogo e Os Sobreviventes, O Dia em que URANO entrou em Escorpião
      > Pela Passagem de uma Grande Dor e Além do Ponto, Os Companheiros e 3ª-feira Gorda
      – Eu, Tu, Ele e Luz e Sombra
      CONTOS d’u$ Morangos: Transforamações e Sargento Garcia, Fotografias e Pêra, Uva ou Maçã?
      > Natureza Viva e Caixinha de música, O Dia em que JÚPITER encontrou Saturno
      – Aqueles Dois reunidos na SÍNTESE be$t-seLLer vendendo + Q beXta-fera: Morangos Mofados!
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Morangos_Mofados

  • Maria

    Não é preciso acrescentar dias a vida, é preciso acrescentar vida, pois a velhice é apenas um estado de espírito. A qualidade é que faz a diferença, nunca a quantidade. Aproveitar cada etapa respeitando nossos limites é saber envelhecer. Aprendi ao ver os meus pais que a “velhice” só os deixou mais sábios, autênticos e a viver em paz com eles mesmos. Meu pai dizia: Não espere a velhice chegar para descobrir o quanto é luxuoso ter tempo… Saber escolher com sabedoria entre “ganhar muito” pelo “viver melhor”. Infelizmente o câncer não lhe deu tantas oportunidades e tempo, mas sempre me disse o quanto foi feliz mesmo com suas limitações financeiras… “Cuide do presente, pois é onde você viverá o resto da vida”. Bom domingo! Saúde e paz para todos e gratidão a deus por nos permitir mais um dia de vida.

  • Lagar dos Tempos

    Senhor Jornalista,

    Uma bela crônica domingueira, que não se interpreta pelas frases e orações bem construídas, mas pelo o que não diz, lê-se nas silenciosas entrelinhas.
    O silêncio é uma grande virtude recomendada por grandes sábios da humanidade. É uma prática que exige aprendizado. A idade madura, que nos permite uma retrospectiva, muito favorece ao exercício do silêncio, evita quizílias e descontentamentos, que podem chega ao Massacre.
    O polonês Pilecki, fez-se prisioneiro em Auschwitz para salvar os compatriotas. Quebrou o silêncio para anunciar ao Mundo o massacre sangrento do Holocausto. Ninguém acreditou. Mantiveram-se em silêncio, as futuras nações aliadas. Como em silêncio também permaneceram os judeus levados como cordeiros às câmaras de gás, para serem exterminados.
    Por que não gritaram os judeus, diante da descartabilidade do ser humano, tratado como objeto? Os judeus do Gueto de Varsóvia se rebelaram. Alguns conseguiram salvar-se do grande MASSACRE que horrorizou a humanidade. Correntes da psicologia ainda se perguntam: e se eles tivessem gritado, mesmo um grito de dor e rebeldia?
    O silêncio, culto blogueiro, é uma virtude dos sábios.
    Mas, em certos contextos, conta-nos a história, pode representar o próximo Massacre.
    Um magno texto. Parabéns. Um excelente domingo!

  • Fernando Dacal Reis

    Caro Ricardo,
    Aprendi a distinguir bem o ser “velho” e ser “idoso”, com isso, cheguei aos privilégios da “Lei”, 60 anos, e diga-se de passagem, bem vividos, feliz por ser idoso e não me considerar velho. Trago comigo os ensinamentos de Cícero, expostos por Catão: “Por certo, os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida.” Como o medo da morte já perdi faz bastante tempo, resta-me preservar as amizades e esperar a hora do retorno.

    • Zé MCZ

      Olha,
      Com as mudanças que estão ocorrendo de forma atropelada(como se não houvesse amanhã), a lei do sexagenário vai mudar para lei do octogenário ou nonagenário! Prepare se física e psicologicamente para encarar a fila dos comuns. Sem privilégios!
      Talkey!

  • Antônio Carlos Barbosa

    Com o passar do tempo, já se vão 57 anos, aprendi a duras penas, que devemos desejar o imprescindível, o indispensável, e assim, viveremos melhor, sem muita fantasia, com uma velhice aceitável. E quando não for mais possível ter autonomia e qualidade de vida, abreviarei minha partida, simples assim.

  • Fernando

    Quanto mais lembro do passado, mais amo o presente. Alguns dias atrás viajei ao Chile, foi a primeira vez. Minha esposa 52 anos, foi quem fez a reserva daqui mesmo de casa e por meio de um aplicativo alugamos um flat, que acomodou a nós e um outro casal da nossa faixa etária. Antes fizemos o check in pela internet, isso já diminuiu uma fila de espera. Ao chegar em Santiago descobrimos que estávamos sem internet, no aeroporto mesmo, em menos de 5 minutos liguei para minha operadora e pronto, estávamos novamente conectados com o mundo. Baixamos um aplicativo de tradução de voz que nos ajudou muito, pois o meu espanhol é “mui pouquito”. Depois dos trâmites necessários, Chamei um UBER que nos levou a hospedagem. Eu havia trocado uns Reais por pesos chilenos, mas foi quase desnecessário, o cartão de crédito me serviu para tudo. Era tudo muito fácil e prático, antes de visitar um lugar já conhecíamos o percurso, a temperatura do lugar no momento, opiniões das pessoas e até o cardápio. Ricardo, quanto mais conheço essas facilidades, mas me convenço que foram criadas para nós de mais idade, pois facilita demais a nossa vida. Sou dos poucos, da minha idade, exceto pelas pessoas amadas que se foram, que não tem saudade do passado. As pessoas que amei e que se foram, ao longo dos meus quase sessenta anos, essas aguardo vê-las ansiosamente, pois acredito que essa vida não é tudo que há, tem muito mais e um dia vamos nos encontrar. Não para lembrar do passado, mas para planejar o futuro.

    • Fernando

      E acrescento com toda convicção, se o “gênio da lâmpada” me oferecesse a oportunidade de viver de novo, meus 20 anos, mas que pusessem em dúvida o meu casamento com minha esposa e a existência do meus três filhos, além de dar garantias da vida que tenho hoje, mesmo com os remédios que tomo, com certeza recusaria.

  • Há Lagoas

    A maturidade não está ligada – necessariamente – à velhice, mas a idade nos direciona a saber viver a vida em vez de simplesmente passar por ela. É a experiência , não sem dor, seja ela no corpo ou na alma – ou nos dois – que aos solavancos descortino cada dia como se fosse o ultimo. E os pequenos detalhes fazem toda a diferença. Coisas que na minha juventude, não percebia, hoje me regala os olhos.
    Quanto a profissão de jornalista, lamento informar que a velha geração não será substituída por esta geração. Caminhamos para a mediocridade, e no futuro, muito provavelmente: o caos…
    Seria esse o preço da modernidade?
    As mídias sociais nos enlaçam de tal forma que poucos são os que se salvam. Mas, acredite, sempre haverá um remanescente, e você me faz acreditar nisso.
    Uma boa semana a todos!

  • EDUARDO ANTONIO DE CAMPOS LOPES

    E como é bom aprender com a experiência. Sempre gostei de ficar com os de mais idade (velhos não).