Mitômano, farsante, “bom de copo”. São  adjetivos que se encaixam à perfeição no perfil histórico de Jânio Quadros, o mais polêmico e contraditório (quase) presidente que o Brasil já teve. Renuncista inveterado: este talvez lhe caiba mais e melhor  do que qualquer outro qualificativo. E foi assim que Jânio ficou definitivamente marcado na vida pública brasileira.

Quando governador de São Paulo – de 1955 a 1959 -, cargo a que chegou numa meteórica trajetória (foi vereador e prefeito, antes), o “homem da vassourinha”, pelo menos por duas vezes mandou seu secretário Carvalho Pinto redigir sua carta de renúncia para que a enviasse à Assembleia Legislativa. Mais uma farsa daquele que seria depois um fugaz presidente. Documentos prontos, prontamente rasgados – e não se falava mais nisso, depôs o próprio Carvalho Pinto.

Na pré-campanha para presidente (1959), quando já aparecia como o mais duro combatente “contra a corrupção” do Governo JK, fazendo eco às “vivandeiras” da UDN, Jânio anunciou que não mais seria candidato. Foi o suficiente para que um grupo da Aeronáutica, comandado pelo então major João Paulo Burnier (um dos personagens mais sórdidos da ditadura militar de 64), deflagrasse  a Rebelião de Aragarças, uma ópera-bufa, que só fez confirmar o ressentimento da Força Aérea  em relação ao que seus oficiais consideravam a continuação do getulismo (era, também, a manifesta dor de cotovelo pelas sucessivas derrotas do brigadeiro Eduardo Gomes). A morte do Major Rubem Vaz, segurança do boquirroto golpista Carlos Lacerda, em agosto de 1954, no atentado da Rua Toneleros, ainda não havia sido esquecida pela tropa.

No auge da crise, a segunda de JK com a  Aeronáutica – a de Jacareacanga aconteceu no comecinho do governo -, Jânio foi consultado, entre uma garrafa e outra, e disse que retomaria a candidatura para “varrer do Brasil o mal da corrupção”. Tomou a decisão e, certamente, mais alguns goles.

Jânio teve no udenista Lacerda um dos seus maiores apoiadores. Nem por isso dispensou à língua mais feroz e ferina da República um tratamento respeitoso. Quando presidente, recebeu-o no Planalto para uma conversa. Receber é modo de falar. Ao chegar ao Palácio, Lacerda foi encaminhado ao quarto de hóspedes, onde deixou sua mala. Depois veio o recado: o presidente vê-lo-ia em seguida. Foi para uma conversa com um assessor de Jânio e ao retornar ao Planalto sua mala já o aguardava na portaria com o aviso: Jânio cancelara a audiência sem qualquer explicação (a não oficial conta que JQ estava dedicado a uma noite de amor – e não com Dona Eloá, a primeira-dama).

Do antecessor, o elegante e sedutor Juscelino  Kubitschek, nunca teve motivos para queixas. Apesar de, por pouco, não levar um soco do mineiro em plena posse presidencial. JK preparara sua assessoria para a cena de pugilato, marcada para aquele  31 de janeiro de 1961. Lá no Planalto, dizia JQ em toda a campanha, habitavam “Ali Babá e os 40 ladrões”. Se fizesse, no discurso de posse – como prometera -, qualquer alusão à “sujeira” que precisava ser varrida do Brasil, o ainda presidente lhe daria um direto no queixo. Não aconteceu o round porque Jânio era Jânio, o bravateiro de sempre.

Quando presidente, Juscelino visitou JQ em São Paulo. Encontrou o então governador triste, sem ânimo para a vida, disse ele ao construtor de Brasília. Ao ser indagado pelo motivo de tão profunda tristeza, Jânio revelou:

– É a Eloá. Está com câncer, desenganada, em cima da cama.

O “presidente bossa nova”, médico e humanista, comoveu- se com a tragédia familiar que lhe fora ali externada. Deixou assinada a ordem de serviço para mais uma obra importante em São Paulo, ajudando a construir a candidatura do homem que o substituiria no cargo máximo da República.

Era a única verdade daquele encontro. O abatimento de Jânio talvez se devesse a mais uma ressaca. Dona Eloá, saudável e discreta acompanhante do histriônico marido, ainda viveria por muitos anos. O suficiente para ver a última e mais dramática renúncia de Jânio Quadros: em 25 de agosto de 1961.

Se louco ou mentiroso, é questão  a ser respondida pelos especialistas na alma humana, tão complexa, diversa e repetitiva – que o diga o genial Machado de Assis, que nos presenteou com O Alienista e sua Casa Verde.

Lembro apenas que tivemos mais um aniversário da farsa janista que só não deu certo para ele.

Kátia Born garante que será candidata a prefeita ou vice de Maceió em 2020
Sérgio Moro, o ministro que virou suco
  • Maria

    Prefiro ouvir as loucuras dos bêbados da praça,do que a eloquência de um enganador que decide voluntariamente deformar a realidade dos fatos e ainda sim acredita na sua própria mentira. Me desculpem os loucos que grande parte são incapazes de produzir mal a um outro. Enfim… só Maquiavel para justificar tantas mentiras. Excelente domingo!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo, nesse 25 de agosto, o dia do soldado brasileiro. E, ao que parece, as forças armadas estão sempre prontas e de prontidão para defender os verdadeiros interesses do país, mesmo que não queiram enxergar e/ou não tenham coragem para “afrontar”. Tanto é que o recado já foi dado pelo ministro das forças armadas: estamos prontos para defender a Amazônia e a soberania do povo brasileiro na região… afinal, a Amazônia e seus recursos pertence ao Brasil e a mais nenhuma outra nação “gringa”… eis a verdade e ponto final… algo para nos orgulhar sempre… e quanto ao Jânio Quadros, cuja ópera bufa terminou com sua renúncia, pois não tinha nada que o apoiasse em seu governo, logo assumiu o João Goulart que, não muito tempo depois, teve que se “afastar” para que os valores da nação brasileira pudessem ser reavivados e confirmados perante todas as nações do mundo. Bom texto para uma boa reflexão neste dia que representa o patriotismo brasileiro. Bom domingo.

    • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

      Pois JEu … neste Brasil BAURET à Tim Maia há supostos presidentes, IMPOTENTES!
      Em 1972, o último álbum: Mutantes e Seus Cometas no País do Bauret$ em 04′ 02″.
      PLAY list: Perdo má mulé mãe p’U$ rock and Roll na Vida de cachorro, é Dune buggy;
      Fôra Cantor de mambo num Beijo exagerado, Todo Mundo Pastou a Balada do Louco.
      > SE eles são bonitos, sou Alain Delon … entre famosos, sou Napoleão. – Louco é diz!
      – TE juro é melhor NUM ser normal … pensar que Deus sou eu por HORA cairá a ficha!
      https://youtu.be/6Hs8_oqVfZI

  • amorim

    Todos somos loucos e mentiroso. Quem acha que não, atire a primeira pedra. Simples assim.

  • Lagar dos Tempos

    Sr. Jornalista,
    Uma profunda e bela crônica domingueira. De fato, Jânio Quadros tinha algumas dessas características, sempre o achei, do ponto de vista histórico, um homem verbal, hábil manejador das palavras, mas pouco, muito pouco pragmático. Não era um administrador, assim como o Corvo da República.
    Sua renúncia, é cercada de mistérios e especulações, as “forças invisíveis” que o levaram a trair o povo brasileiro, em verdade, talvez fossem, em minha interpretação, o inconfessado desejo de ser um autocrata, de governar sem o Congresso e sem oposição. A loucura, a embriaguez, a mitomania, que o texto pinta com cores fortes, em estilo lacerdista, com potência demolidora rs…, é uma característica encontrada em muito dos líderes da história mundial. Winston Churchill por acaso era abstêmio, era um homem completamente “normal”? O que é o homem normal ?Poderia citar vários e vários personagens históricos “loucos de todo gênero”. Mas sem eles a humanidade não teria avançado tanto. Por isso entendo que a bela crônica deste domingo, no mais veemente estilo lacerdista, demolidor, tem um grande mérito de passar ao leitor os bastidores da história política brasileira, eis o seu ponto mais imponente, mais elevado.
    Enfim, um belo texto sobre um retalho importante da nossa história. Parabéns!
    Por derradeiro, peço ao hábil escritor e jornalista que conceda o seu perdão a personagem enfocada hoje, por seus defeitos, condene-o por sua traição ao povo brasileiro.
    Como diz o ditado “de poeta e louco…”

  • Lucas Farias

    Prezado Ricardo, a demagogia falso moralista e o apelo populista de salvador da pátria não ficaram apenas no passado. Bolsonaro é uma prova de que não aprendemos por completo a lição histórica de Jânio Quadros. O presidente atual vocifera contra os outros poderes quando não agradam a suas vontades, retalia governadores e prefeitos que não aderem a seu governo com cortes de recursos e investimentos, mobiliza a máquina de fakenews e a horda de seguidores incondicionais para atacar pessoas e instituições e até convoca atos para tentar intimidar opositores, embora sem o sucesso que desejaria. Isso sem mencionar a avalanche de mentiras e descomposturas que, além de desinformar e produzir ignorância, prejudica nossa imagem internacional com efeitos concretos sobre as relações comerciais do país. Não acredito, todavia, que seja capaz de ceder aos apelos do campo mais lunático, que deseja uma intervenção das Forças Armadas para fechar o Congresso e o STF. Pelo menos nessa questão, alcançamos, nós, sociedade civil, e nossas instituições, uma consciência histórica suficiente para não admitir uma nova ditadura militar, assassina e corrupta. Não viveríamos sem a garantia de respeito à lei e à Constituição, sem órgãos de controle e fiscalização atuantes e independentes para investigar abusos e violações, sem tribunais independentes que não sofram ingerências do poder militar, sem as liberdades de expressão, imprensa e manifestação, sem a produção crítica e científica de nossas universidades, sem instrumentos contra os abusos de autoridades e violações de diretos humanos, sem um projeto de Estado que se baseie na dignidade da pessoa humana, na cidadania e no pluralismo político, que vise ao combate das desigualdades, à erradicação da pobreza e à construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Estamos ainda distantes da realização de um Estado de Bem Estar com essas qualidades, mas não tenha dúvida de que mais longe estivemos durante o Golpe de 1964 e o passado tenebroso que representa. Acho que esse último episódio sobre a devastação da Amazônia, com a repercussão internacional que alcançou e a com a ameaça de sanções econômicas contra nossos produtos de exportação, inicia uma guinada na percepção sobre o Bolsonaro entre desavisados e ingênuos. O prometido combate à indústria da multa e o desmantelamento de órgãos de proteção ambiental como o IBAMA criou esse cenário propício à destruição, às queimadas e ao avanço de madeireiros, grileiros, mineradores, pecuaristas e suas milícias armadas. A exoneração de dirigentes para colocar apadrinhados e aliados, as punições contra fiscais que cumprem seu dever autuando e multando criminosos (a exemplo da demissão do fiscal que multou o presidente por pesca ilegal), o corte de 95% de investimentos em políticas ambientais, o desprezo a povos indígenas e quilombolas, o esvaziamento da FUNAI, disso tudo o resultado é o de que o número de multas aplicadas pelo Ibama por desmatamento ilegal, em 2019, foi o menor em 11 anos (uma queda de 34%), enquanto as alertas de desmatamento subiram 278% em um ano. A explicação a isso saiu em matéria da Veja: “Madeireiros usam discurso do governo Bolsonaro para intimidar Ibama: Fiscais relatam que os desmatadores ilegais passaram a se sentir mais ‘empoderados’ neste ano” https://veja.abril.com.br/politica/madeireiros-usam-discurso-do-governo-bolsonaro-para-intimidar-ibama/. E houve gente que, por ignorância e paixão ideológica, considerou bobagem a questão ambiental, como se não fosse relevante para o povo brasileiro, os mesmos que pedem paciência ao suposto mau humor do presidente, como se suas palavras não repercutissem na realidade. Como o presidente é o responsável direto pela perda de poder dos órgãos de proteção ambiental e estimula o avanço das atividades agrícolas e extrativistas ilegais na Amazônia por garantir a impunidade, além de ter ignorado as notícias sobre as queimadas e só agido com muito atraso por conta da repercussão internacional que esse crime alcançou, vejo configurados aí elementos concretos de crime de responsabilidade e de crime contra a segurança interna do país (sem incluir outros crimes possivelmente já cometidos pelo presidente). Embora configurados em tese, a denúncia e o processamento desses crimes praticados pelo presidente dependem de uma conjugação de ambiente político favorável, perda de apoio e iniciativa do Legislativo. Um fato, no entanto, é certo: Bolsonaro está menos seguro na cadeira de presidente hoje do que estava no começo de seu mandato. Um abraço.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Caro Ricardo, um BOM domingo … à J-Gilberto bahÊano destronado à Tróia, louco de TUIA!
    > LOUCO pelas ruas ele andava e o coitado chorava: transTorNou-se vagabundo, valia NADA!
    – Pra ele a mulher amada era @[email protected]: conselhos lhe dei, esquecesse U$ falÇo amor, convenceu?
    # Ela nunca mereceu NEM reparou em o2′ 28″ … dsd 1958!
    https://youtu.be/TdhCAgSgSRc

  • Djalma

    Sempre tem quem acredite nos mentirosos e loucos. Quem seria mais louco?

  • roberto gusman

    E o exemplo é,nenhum dos presidentes loucos,terminou o mandato:Janio,Collor,Dilma,será que esta hiena com boca de sapo termina?

  • Adilio Faustini

    Janio Quadros era um intelectual que bebia, Lula é um analfabeto que bebia, eis a diferença.

  • Há Lagoas

    Existia algo de excepcional neste louco – e quem não é – sua “memoria” quase infalível. Tomava nota da maioria de suas conversas em âmbito governamental. Pelo menos, assim agia quando governador do Estado de São Paulo.
    Tais notas se transformariam no terror dos assessores e secretários, pois ao chegar o dia da prestação de contas, o governador chamava o desafortunado servidor. Sem rodeios, ou desculpas, aqueles que não alcançavam o objetivo traçado, eram demitidos por bilhetinhos…
    Dizem que neste quesito, a burocrática máquina chamada estado, conseguia produzir a contento, pois ser reconhecido como incompetente fazia mal ao ego de qualquer burocrata com o mínimo de ambição.
    Sua passagem pelo governo do Estado de São Paulo não foi de todo ruim, uma lastima que ele não tenha conseguido defenestrar incompetentes no Planalto…
    Personagem folclórico, e que tem muito adjetivos que lhe são próprios, talvez com alguma semelhança com Fernando Collor, que o tetou imitar. Na realidade um verdadeiro político tupiniquim que foi alçado a presidência da República das Bananas.