Seu nome era P., e, assim como eu, fazia o primeiro ano de Medicina, na UFAL, naquele ano de 1976. A aula era de Anatomia, disciplina que o mestre Augusto Cardoso tratava com a mesma sem-cerimônia com a qual falamos de futebol, trânsito e outras coisas banais.

Sem que me chamasse a atenção, o gordo e suarento P., bem mais velho do que aquela meninada que quase nada  sabia da vida – eu até hoje ainda não sei -, sentou-se ao meu lado, pesadamente. Ato contínuo, ouvi a voz do professor que parecia vir em minha direção:

– Levante-se e saia da sala.

Estávamos no velho CCBI, ali na Praça da Faculdade, e atinei rapidamente que o doutor Augusto não falava comigo: ele se dirigia ao colega, que, lívido, saiu da sala em disparada.

Após a aula, eu ainda um tanto assustado, ouvi a explicação do excepcional anatomista – conhecido no mundo inteiro: P. havia retirado da sua caixa de dissecação um bisturi, que ele segurou firmemente com uma das mãos, preparando-o para me dar um golpe, que poderia ser mortal, a depender da região atingida.

A razão do (quase) ataque, soube depois, era a sua paixão por uma colega, que sentara ao meu lado e me tratava com muito carinho: o ciúme lançara a sua flecha preta e envenenada.

P., que era esquizofrênico e não chegou a concluir o curso de Medicina, passou até um tempo afastado das aulas, mas tão logo retornou escolheu um novo inimigo: o então peripatético Sidney Wanderley, hoje um senhor calvo e quase sereno, que deu de fazer gracejos e versos para a nova amada do meu algoz.

Resultado: só a velocidade da juventude, impulsionada pelo cortisol, salvou-o do mesmo personagem. Ele teve de passar horas escondido dentro de um dos banheiros do CCBI, até que o seu rival desistisse da vingança.

Se P. tivesse obtido sucesso nas suas empreitadas, Sidney não estaria lançando o seu belo livro de poemas, 60, e este velho jornalista não estaria aqui, despejando e estragando palavras que poderiam ter destino mais nobre.

Quanto ao “criminoso”, a ciência o definiria como inimputável, e nós que fôssemos para a PQP. (Coisas da vida – ou da morte.)

Aprendi, desde esses tempos, que qualquer um é capaz de matar alguém, a depender da circunstância e do estado anímico. Mas acredito, também, que os verdadeiros criminosos possuem uma qualidade que é rara entre os humanos: a ausência de culpa ou remorso. Por mais que sejamos – e somos – facilmente tomados pela racionalização (Freud explica), só os verdadeiros assassinos fazem do seu ato mortal algo banal. A culpa, eis um ensinamento de Raskólnikov, foi o pior castigo para o crime cometido pelo imortal personagem de Dostoiévski.

Esta semana, até por conta dessas memórias juvenis, lembrei-me de um conto (novela) de Eça de Queiroz, O Mandarim, que eu li ali pela década de 1980. Nada de especial numa obra extensa e impecável – não fosse seu ótimo desfecho.

Conta o maravilhoso escritor lusitano que Teodoro, um funcionário público, acalentava sonhos de grandeza e fortuna. E eis que surge a chance de alcançar o esperado sucesso na leitura de um folhetim: ele mata, num enredo surreal, um mandarim chinês, de quem herda a fortuna. A graça da história está na condução de Eça, que vale a pena conhecer.

Tomado pelo remorso, o criminoso vai à China, procurando a família da sua vítima, a quem deixara na miséria, aduziu. Inutilmente.

Apesar da sua vida nababesca, Teodoro foi definhando, definhando, até chegar aos últimos estertores de uma existência ranzinza, que dera falsos sinais de radical transformação. A riqueza não lhe bastara para enterrar a sua mediocridade e, claro, a culpa que carregava ao leito a cada noite mal dormida.

Não morreu sem antes manifestar o maior aprendizado de toda a sua existência: “Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos; nunca mates o mandarim”.

(Em tempo: soube que P. também já morreu – e não fui eu quem o matou.)

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  • Zé MCZ

    Oxe!
    E por que tu não é médico doutor Ricardo!? (ou se é eu não sei. Conta essa história direito…) Ah, já sei! Preferiu dissecar as entranhas da política, em especial a da daqui. Eu tenho certeza que é um ofício muito mais árduo!
    Quanto ao P., é igual ao Adélio, ambos inimputáveis, esse sim, meteu a facada (?) e coitado, é totalmente blindado, incomunicável, não se sabe absolutamente nada sobre ele…
    Peripatético…
    Achei que era pateta da periferia, mas não, é discípulo, admirador, seguidor do Ari.
    Aristóteles, grandessíssimo pensador, o qual os teóricos de alienígenas do passado afirmam que sim! De que ele recebeu ensinamentos dos habitantes vindo das estrelas. É como se espécie homo sapiens sapiens não tivesse a mínima capacidade de evoluir por ela mesma. Eu acredito que somos capazes, apesar do caos. O poeta Sidney é a ris to té li co.
    “Em tempo: soube que P. também já morreu – e não fui eu quem o matou.”
    E nem ninguém! Que tenha sido de morte morrida!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Não sei, no momento, como classificar sua experiência com relação ao P. Para mim é algo meio que “surreal” um aluno (mesmo que esquizofrênico) querer assassinar alguém dentro da sala de aula. E me pergunto: como é que alguém (segundo a doutrina da existência puramente material) pode nascer (e nesse caso só essa vez) com tamanho problema psicopatológico? E, muitas vezes, nasce em família numerosa onde a maioria são seres humanos normais. E fugindo do julgamento natural dado pelas leis e entendimento puramente terreno, não posso crer que tenha sido (o nascimento nessas circunstâncias) algo puramente “ao acaso”. O resultado de uma “estatística” química das células ou do dna. E se cremos (eu creio que não só creio, mas tenho a certeza de que não pode ser de outra maneira) que existe “algo mais importante” do que a estrutura puramente biológica, então passo a buscar onde estão as causas de tais “acasos”. E, aí, me vem as palavras de Jesus a Nicodemos: “ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo” e, depois de Nicodemos demonstrar ainda não haver entendido, Ele acrescenta: “O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai…” assim, ao meu ver, pessoas nascidas como o P só podem ter (re)nascido naquelas condições psicopatológicas tendo fundamento causas anteriores à atual existência e que só encontrarão solução no “nascer de novo” para continuar o “tratamento” espiritual de que necessita. Não é à toa que, nesses casos, a própria justiça humana em vez de “receitar” a prisão, encaminha o “doente” para internação em hospitais psiquiátricos judiciários, como forma de prevenir prejuízos maiores para o doente e para outras pessoas. Bom tema para uma boa meditação. Devemos agradecer à Deus que nada de mais grave sucedeu seja com você, seja com o Sidney, seja com outra pessoa. Oro à Deus, neste momento, pela plena recuperação de P. Bom domingo.

  • Tita

    Memória e literatura são uma mistura perfeita para uma crônica. Parabéns (por estar vivo, também).

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    DE fato, Ricardo … e vamos aos fatos deste domingo EXUBERANTE na Tv Pajuçara, amigo!
    > A RIQUEZA não lhe bastara para enterrar a sua mediocridade e, claro, [R Mota acima de tudo]
    – a culpa que carregava ao LEITO a cada noite mal dormida. [Melhores JORNALISTAS informando a todXs]
    O sono dos JUSTOS o cabra lá em cima dá a quem SUA as carnes na labuta de cada dia, com certeza verdadeira!
    Preguiço$o$ e invejo$o$ entretanto às noites travam Batalhas guaribando Monteirópolis c’os travesseiros fulô de mandacaru!
    Enquanto TENTO inutil e inteligentemente combater a preguiça impotente, invej’a calma do meu TRAVESSEIRO duro, é mole?
    > Mais tarde no DOMINGO Espetacular, a partir das 19h45 pós Hora do FARO:
    – JUSTA homenagem apresentador-repórter na Tv RECORD + de década c’VOZ e talento
    – vida e carreira, grandes momentos do JORNALISTA Paulo Henrique Amorim [12jul19]
    https://diversao.r7.com/tv-e-entretenimento/domingo-espetacular-homenageia-paulo-henrique-amorim-12072019

  • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

    Uma BOA semana a todXs, caro Ricardo … bom D +, bom danado.
    Amei a crônica de HOJE e sempre na porta do CÉU de Pedro … boca de Raul ()!
    > Lembro, Pedro, aqueles velhos dias, U$ 2 pensávamos sobre @-mundo$ sem fundos no BdoBêbado$
    – Hj te chamo de careta, Pedro puZZentado … E vc me chama VAGABUNDO, pois alcoólatra e diabético!
    https://youtu.be/oU2aGLfmZvg
    > Há 10 Mil Anos Atrás do TRIO Elétrico – 5º álbum SOLO do bahÊano Raul Seixas, dezembro de 1976
    – Philips Records, estúdios Phonogram na Barra da Tijuca RJ mística pós Novo Aeon 1975
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Há_10_Mil_Anos_Atás

  • Antonio Carlos de Almeida Barbosa

    Viver é muito perigoso. São inúmeros os perigos do dia a dia. Sorte voltarmos para casa.