(A crônica, abaixo, foi publicada neste espaço em 17 de setembro de 2009.)

Para mim, e para tantos brasileiros, seria inimaginável, hoje, viver sem ouvir Paulinho da Viola, Tom Jobim, Chico Buarque, Francis Hime e outros compositores-cantores de vozes pequenas e nem sempre melodiosas, como bem recomendariam os mestres do canto. Até mesmo Caetano Veloso, que se tornou um belíssimo intérprete, talvez não tivesse gravado seus muitos clássicos não houvesse como precursor dos “cantores de pouca voz” o polêmico e genial João Gilberto. Ele quebrou todos os paradigmas do seu tempo ao resolver subir ao palco e exibir seus sussurros que abriram uma nova era na Música Popular Brasileira. Entre vozeirões graves, de inegável masculinidade, sobressaiu aquele fio sonoro, quase hesitante, a se espremer pela garganta.

.- O João é tudo.

Dá  até para visualizar o baiano Caetano, de forma preguiçosa e derramada, a falar do seu ídolo. Não foi pouco o que o fez o idiossincrático João – aquele que um dia foi conhecido, nas rodas cariocas, como “Zé Maconha”, e que passou a detestar todo tipo de fumo ao “descobrir” que esse seria o responsável pelos seus fracassos iniciais. Nada contra.

 Foi em 1958, no disco de Elizeth Cardoso, Canção do amor demais, com músicas da dupla Tom e Vinícius, que apareceu pela primeira vez a batida sincopada do João, num samba estilizado até então desconhecido. Nascia o mito, que o próprio se encarregou de alimentar em fartas e hilariantes histórias. Fez pouco amigos, ou quase não os fez, mas é impossível ignorá-lo como um dos recriadores da melhor música feita abaixo da linha do Equador (e que ganhou o mundo). João não é tudo; é muito, porém.

Dele dizem: “Grava sempre o mesmo disco”. Seria assim, não fossem os ouvidos mais atentos que descobrem um novo acorde perfeito a cada regravação. Uma insistência – ou persistência – que lhe rendeu a folclórica “história” do suicídio do seu gato, que de tanto ouvi-lo ensaiar O Pato, de Bôscoli e Menescal, teria se atirado pela janela do seu apartamento em um voo libertário. O animal, que existia e fora batizado como Gato, de fato morreu – depois de uma queda da janela do apartamento do João, provocando-lhe uma sincera tristeza, irmã da saudade. Assim nos conta Ruy Castro, de certa forma biógrafo de João Gilberto em Chega de saudade.

Era, e continua sendo, imprevisível, o astro. Há certezas sobre ele, como, por exemplo, as suas esperadas ausências. Lembro-me de quando houve uma das muitas comemorações sobre o surgimento da “Bossa Nova”, tendo Tom Jobim, é claro, como um dos convidados de honra. Do outro lado do telefone, a produtora do show que reuniria os bambas da BS disse ao Maestro Soberano:

– João Gilberto já confirmou a presença.

– Ah, é? Então, eu também não vou.

Teria sido a definitiva resposta de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Ao que é fato, ao que é mito, já não se dá tanta importância. A história também coleciona suas versões.

Mas João não era (não é) só turrão. O surpreendente baiano de Juazeiro escreveu, em linhas tortas, é bem verdade, situações de deliciosa generosidade. Como a ocorrida em Belo Horizonte, aí pela década de 1960. Depois de duas apresentações na capital mineira, a convite do seu amigo Pacífico Mascarenhas – narra o mesmo Ruy Castro -, João Gilberto recebeu no hotel em que estava hospedado um músico local, cego, que se tornara seu admirador. Tocaram juntos, por algumas horas, até quando o visitante elogiou seu violão:

– É seu. Pode ficar com ele.

A perplexidade virou, rapidamente, euforia para aquele homem que não conhecia a luz e ganhava um presente dos deuses. O altruísta João teria ainda mais méritos pelo seu gesto desprendido, não fosse por um detalhe: o instrumento pertencia a Pacífico Mascarenhas. Este, a princípio, não acreditou no que viu. Mas viu e assentiu – como contrariar o gênio?

Iracundo, também algumas ou tantas vezes. Assim sentiu o cordial e agradável (de ouvir) Tito Madi. Ambos foram premiados pela Record com o troféu Chico Viola. Antes da entrega dos prêmios principais, João resolveu fazer uma sussurrante batucada, atrás do palco, com Elza Laranjeira e Isaurinha Garcia. A improvisada cantata atrapalhava o andamento da festa – o som estava vazando para a platéia. Começou, então, a série de “psius”, puxada, entre outros, por Tito Madi.

– Não faça ‘psiu’ para mim, Tito.

O dito de João Gilberto antecedeu o golpe certeiro dado por ele, com o violão, na cabeça do artista que ousara repreendê-lo. O sangue jorrou, Tito Madi, que quase ganhou um chapéu de pinho, teve de ser levado para o hospital – sem o troféu, recebido dias depois de curadas as feridas.

Fico devendo esta a vocês: não sei se o violão-porrete era de propriedade do intimista e minimalista autor de  Bim-bom.  

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