Um dia, que ficou lá pra trás, uma cigana pediu para ler a minha mão. Aprendiz, já, de cético, mas com a curiosidade própria dos adolescentes, assenti.

Ela mirou seus olhos, que me pareceram cansados, na palma pequena e magricela à sua frente, como um cirurgião que seleciona e isola a sua área de atuação. Disse-me com firmeza:

– Seu futuro é perigoso, seu passado é incerto e seu presente é duvidoso.

Ela foi tão sabiamente imprecisa que passei a confiar nas ciganas. Tratava, entendi bem depois, do imponderável, primo-irmão do tempo, que orbita em torno de cada um de nós, dissimulado e inescapável.

O que o tempo há de nos reservar?

É impossível negociar com ele. Não temos nada a lhe oferecer se não nós mesmos, a única propriedade que parece inteiramente nossa (mais uma ilusão dos homens). Por outro lado, no escambo, ficamos vulneráveis a tolices  tanto quanto os povos autóctones da América, deslumbrados com brilhos e bugigangas que nada valem: ninguém tem direito a hora extra na vida.

Com sua força descomunal, o tempo não carrega em si o bem ou o mal. Anda vazio, leve, apenas passa como a menina em véspera de mulher atravessa a rua, desconhecendo a cupidez dos olhos pedintes, que chegaram cedo demais ao pretendido encontro. Passaram e são agora apenas homens, não mais passarinhos.

A moral é uma criação exclusivamente humana, imprescindível, pela simples razão de que temos a irresistível vocação para ignorá-la. Sempre.

Já o tempo, este revela as suas verdades nas linhas tortas e quase simétricas que imprime nas nossas faces, que nem se dão conta da escrita enquanto ela acontece.

Senhor das lembranças, as constrói e nos faz esquecê-las, protegendo-nos de nós mesmos, ainda que não seja movido por qualquer generosidade. Opera ao seu modo, e, às vezes, em nosso favor.

Use-o sem moderação, da forma que lhe convier: cheire-o, beba-o, injete-o diretamente na veia, para que o coração acelere despudoradamente. Não você, que há de fluir devagar, mesmo que não vá tão longe quanto pretende a sua vã filosofia.

Há de ser assim: cada homem com o seu tempo; cada tempo com seus homens. Eu sou apenas um entre bilhões deles, sem atinar, igual a qualquer outro, com o tempo que me resta.

O que aprendi? Que ele endurece a alma, por necessário, e amolece o corpo, por inevitabilidade biológica. Deixa-nos tão vazios de ilusões quanto plenos de saudades, que vão se acumulando em um edifício de inconfiáveis alicerces.

Perdi, ao longo dos anos, a sofreguidão pelo dia seguinte. Hoje eu sei aguardá-lo como o ponteiro de um relógio, que segue sem reparar na vontade de quem o empurra, ávido, para um salto que ele há de sempre negar.

Passamos, então, a ter uma boa convivência. O tempo a prosseguir contínuo e imprevisível; eu, a usufruí-lo nas doses que me sabem a um mel cuja última gota só reconhecerei se me for amarga.

Aos que me veem por aí, em alguma velocidade matinal, sobre pernas que ainda resistem ao freio dos anos, esclareço: eu corro, mas não tenho pressa.

Zé Maconha e o chapéu de pinho (uma crônica sobre João Gilberto)
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  • Zé MCZ

    “Seu futuro é perigoso, seu passado é incerto e seu presente é duvidoso.”
    Acho que alguma cigana (quem sabe a mesma) também leu a mão do Cazuza, aí ele compôs Bete Balanço!
    Pois é rapaz! Somos todos filhos de Cronos. É inexorável. Inoxidável, até percebermos que não é totalmente e quando vemos a oxidação surgir é começamos a viver e conviver da maneira que deveria ser desde o início. Mas recebemos todas as influências, que se são boas ou negativas, são úteis, para quem se propõe a usar um pouco de sabedoria. O que certamente você se enquadra…
    A propósito, tem uma parábola budista (ninguém se torna, já é!), que aponta onde existe o mel doce, mesmo quando batemos de frente, cara a cara com a nossa própria natureza, da qual jamais nos livramos, mas podemos adestrar, domar…
    Valeu!

    https://youtu.be/bPjJ4mCcE6Y

  • maria

    Ricardo Mota sempre se superando com os seus excelentes textos. Saber compartilhar significa evoluir e confesso que seus textos me estimulam: A pensar, a refletir e agir. Hoje por exemplo, quando li seu texto automaticamente me veio a mente uma musica do Almir Sater “Tocando em frente”, Logo em seguida Lembrei-me de outro tempo onde eu adorava escutar uma musica chamada “Pressa” Ministério Jovem. Comecei então a refletir sobre “Paciência”…. Perceber e aceitar que cada coisa tem seu tempo e que só assim conseguimos vivenciar de fato aquilo que está acontecendo agora, ao invés de ficar vivenciando o que talvez aconteça depois. Tentar viver no futuro (ou em vários futuros possíveis ) é pura ansiedade e perceber isso faz com que as decisões que tomamos hoje sejam mais acertadas também. Aceitar o ciclo da vida e respeitar o fluxo do tempo é essencial. Obrigada por compartilhar tanta sabedoria. Um excelente domingo! Paciência é tudo!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Esse substantivo: tempo, é algo que parece tão simples para nossa compreensão e, no entanto, é algo tão complexo em nossa vida… a partir de sua definição natural para todos nós: o tempo é o passar dos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos e milênios… porém, se nos pusermos fora do planeta, em pleno espaço no universo, e veremos que o tempo é algo relativo… pois a maneira de se calcular o tempo é muito diversa para cada planeta e totalmente inexistente no espaço puro… diz-se que Deus é eterno e que, para Ele, passado, presente e futuro se fundem em uma só realidade… tudo é tudo ao mesmo tempo… o que existe é a realidade imorredoura de Sua Existência… e nos apegamos, feito vermes mesquinhos, em coisas tão pequeninas, passageiras e mortais da existência terrena… alguém já o disse, por esses dias de conhecimentos e tecnologias, que para se alcançar outros desenvolvimentos, é preciso pensar “fora da caixa”… e uma dessas caixas é o tempo da maneira como o contabilizamos por essas plagas terrestres… alguém já o disse, e o escreveu nos livros considerados sagrados pela humanidade, O Gênesis, que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança… ou seja, somos não iguais, porque fomos criados por Ele, mas semelhantes em vida, ou seja, somos todos espíritos (pois Deus é Espírito e não matéria) e, portanto, somos imortais como Ele… se tivemos um começo (diferentemente Dele, que simplesmente É, ou seja, incriado pois existiu e existirá pela eternidade…) jamais teremos um fim… como espíritos que pré existíamos ao corpo biológico que “vestimos” agora, continuaremos a existir depois desta vestimenta, vestiremos outras vestimentas até ao momento em que não precisaremos mais delas para aprender, aperfeiçoar e progredir… aí estaremos definitivamente integrados à eternidade… então, parece-me, mais importante encarar o tempo como oportunidade de aprendizado enquanto aqui estamos, do que ficar preocupados com sua contagem ou passagem… pois esta é a lei da natureza “relativa” ao nosso pequenino e, também, passageiro, planeta… Boa reflexão para este dia. Bom domingo.

  • Antonio Carlos de Almeida Barbosa

    Crônica perfeita. A natureza como o tempo, não tem qualquer compromisso com o humano. Cada um viva seu tempo, da melhor maneira, aproveitando, pois, quando se vê já passou.

  • SEBASTIÃOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    ÓTIMO TEXTO , MATÉRIA ! ABARCA TUDO O QUE ENVOLVE A NOSSA VÃ FILOSOFIA . MUITO BOM O COMENTÁRIO DO BRILHANTE Jeu . . . SAUDAÇÕES DEMOCRÁTICAS !

  • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

    Em Maceió, carioca turista é como SERTANEJO de raiz … ‘O q’o tempo há de nos reservar?’ [R Mota ACIMA]
    Debochados desd’a COLÔNIA 1500 trazendo holendeses expulsos dos Guararapes (1649) pra Ág’s Belas-PE.
    Antes da CIGANAS de olho no futuro, já descascávamos BANANAS c’as mãos sonhando c’elas AMANDO!
    Exportamos p’as PRAIAS reorganizadas areias BOLAS divididas: cultural e social do Poço do Juá de RI-Panema em St’Ana.
    Desafiando afinidades ideológicas há + de 50 anos pós-Muniz Falcão dsd o PASQUIM (1969).
    Caladamente SERTANEJOS e falantemente CARIOCAS provocam ditadores de costumes.
    Sempre com HUMOR e linguagem solta no Jornalismo IMPRESSO e internetado, falado e televisado. [30jun19]
    https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/lancado-ha-50-anos-pasquim-provocou-ditadura-e-costumes.shtml
    > Em ALAGOAS escrachamos desde o IMPÉRIO (1822) de mau$: DeóDa (1989-91) e FulÔriana (1891-94).
    – Desmamados de 1930 a 1945 com Getúlio gaúcho e driblados por JK mineiro de 1957 a 1961.
    > Sobrando prá Jânio de 7 meses em 1961 uns magotes de famigLias assentadas em Goiás:
    – Em BrasiLHa surripiada por ARMADOS mal-amados de 1964 a 1985: xô caipira parvo d’Eldorado Çã-palhaço!
    > Em Macei´ó-PAJUSSARA e além Guanabara-COPACABANA há desbunde salgado:
    – Somos todos sertanejos emigrados dos rincões, pousando de CAIÇARAS à beira-mar em gambiarras pútridas. [29jun19]