Recentemente, tomei conhecimento da automorte (apenas um eufemismo para suicídio, está claro) de duas pessoas que eu conhecia há várias décadas. Tudo que pude – e posso fazer – é lamentar e até tentar entender um pouco o tema.

É claro que o avanço da ciência aponta razões biológicas – na verdade, bioquímicas – para o ato, que é o mais extremo entre todos aqueles que conhecemos entre os da nossa espécie, o que contraria as tentativas quase que heroicas de Émile Durkheim de entendê-lo.

Desconfio, entretanto, que o suicídio acontece quando o convívio do indivíduo consigo mesmo se torna impossível. “O suicida não quer morrer, quer se livrar da dor que lhe parece insuportável”, disse-me certa vez a professora Delza Gitaí, o que marcou a minha visão sobre o tema (ela trabalha, voluntariamente, nessa área).

O que eu não consigo aceitar é a condenação social do suicida, que me parece decorrente da nossa formação judaico-cristã, ou da forma como as pessoas interpretam, sem empatia ou compaixão, os livros que norteiam algumas crenças religiosas. Julgar passa a ser mais importante do que buscar compreender, quem sabe até entender que o suicídio é uma “construção” da vida inteira, como nos mostra o historiador Boris Fausto no perfil que escreveu sobre Getúlio Vargas.

É como se não houvesse um porquê, mas vários porquês que se sobrepõem em camadas até formar um maciço onde tudo além dele parece inútil demais.

A ‘dupla morte’, física e social, termina sendo um efeito colateral, tornando tabu um tema cada vez mais presente na sociedade: esconde-se o suicida por medo do julgamento externo; silencia-se sobre o suicídio, contrariando as estatísticas mundiais que nos deixam perplexos quando as conhecemos.

Creiam: acontecem cerca de 800 mil suicídios por ano no planeta; são 620 mil mortes decorrentes da violência humana no mesmo período e território – o que inclui as guerras em curso. E aí?

Não há de se buscar culpados pelo “fato social”, como tentou fazer o primeiro grande sociólogo francês. Nem mesmo a pobreza pode ser apontada como vilã nessa história (embora possa haver vilão nos suicídios). Por exemplo: em Gana, a taxa de suicídio é de aproximadamente cinco casos para cada 100 mil habitantes. Na França, na Suíça e no Japão essa proporção dobra – no mínimo.

Talvez por isso – e não apenas por causa disso -, muitos desses países legalizaram o que se chama de “suicídio assistido”: os médicos podem receitar drogas letais para adultos com doenças terminais e que enfrentam sofrimentos insuportáveis. É assim na Bélgica, na Suíça, nos EUA – em alguns estados – e na Holanda. Neste país, de surpreendente vanguardismo, um em cada 35 habitantes optou em 2012 pelo suicídio assistido. Impressiona, sim.

Cada povo tem a sua cultura e anda no seu ritmo, sem necessariamente chegar ao mesmo lugar. A psicologia, em vários lugares do mundo, considera que há um Efeito Werther, referência ao ótimo romance do alemão Johann Wolfgang von Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther: a divulgação de um suicídio pode levar, eis a argumentação, a outros suicídios.

Mesmo considerando a nossa capacidade imanente de mimetização, não creio que o silêncio – assim como a condenação covarde – em relação ao suicida e entorno consiga reduzir estatísticas tão assustadoras. Quanto mais soubermos sobre o tema, menos haveremos de lamentar, suponho.

A arte continua sendo uma escola insuperável. Recentemente, vi um filme de um mestre argentino – não digo o nome para não cometer spoiler – em que um dos protagonistas, misantropo clássico, rabugento, encerra um diálogo inteligente e divertido com seu amigo-cúmplice (como eles fazem isso maravilhosamente bem!), de forma a não deixar dúvidas:

– E a morte?

– Sou contra.

Ronaldo Lessa já é apontado em Penedo como candidato a prefeito
"Dinheiro para o VLT de Maceió pode vir da China", diz secretário Rafael Brito
  • Traira

    Muito bom,parabéns!!!

    • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

      Pois, Traira … FIEL aos 60 nascidos nos 1950’s, nas beiradas do Ri-Panema nascido no Pernambuco.
      agora até JÁ rumin 70’s do Sesquicentenário em 2025 de St’Ana, a RAINHA do Sertão dsd 1875!
      Pois … ‘Qto (+) soubermos sobre o tema, (-) haveremos de lamentar, suponho.’ [R Mota acima]
      Então a 24abr1875, IMPÉRIO lavrou-se Resolução nº 681 da Imperial Ordem da Rosa – Província d’Alagoas.
      Por ESCRITO, de povoação a VILA oral, Sant´Anna do Ypanema fazida Vila anal Arquivo Público, município dsd 1921 RÉ-Pública!
      Emergimos no Sertão pós-TRAIPU como terra de DOIDOS manuscritos a pena da caneta TINTEIRO até as canetas BIC turbinadas.
      Rascunhos depilados pra exposição DATILOGRAFADA aprendemos com Dona NARAIR e Seu Expedito.
      > Depois veio o PLANO DIRETOR via Lei 744 (2009) à base de BOAS coisas ANTIGAS e coisas NOVAS ruins:
      – P ex, em 1980 vimos as leis 516 (Cód Urbanístico), 517 (Cód Obras), e a 519 (Cód Posturas)
      > Em 2019 IGNORA-SE a Lei 826 (2010) do Calendário CULTURAL de 2011 a 2025 – Sermão da MONTANHA:
      – SENHOR, Senhor, q digo eu q’ando vestido pelo AVESSO furtando chapéus e roubando sapatos?
      # Sigo descalço e DESCOBERTO. [Quiproquó], A ViÊra – Cabo VERDE d’África _ http://www.escritas.org/pt/t/2643/quiproquo

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Esse é um tema por demais importante para toda a humanidade. Concordo, plenamente, com a Delza Gitai, quando afirma que somente uma dor que se considera insuportável (e pode ser física e/ou moral, sendo esta última, creio, a que mais vítimas faz…), pois supera, como dito no texto, mesmo ao total de todas as guerras, acidentes, assassinatos, etc, que ocorrem no mundo em um único ano. E, creio, que o mais importante é tentar encontrar um meio de ajudar a cada pessoa a buscar, principalmente dentro de si mesma, as forças morais capazes de fazê-las suportar, buscar os meios de superar os obstáculos externos e internos e, finalmente, sair vitoriosa sobre a “tentação” de fugir da própria vida biológica, que lhe foi concedida por Deus para motivos sempre maiores em nossa vida e na de outras pessoas. Por isso, creio, ser importante procurar meditar sobre o seguinte texto, que li alhures:
    “O SUICÍDIO E A LOUCURA
    A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura
    se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam.
    O mesmo ocorre com o suicídio. Postos de lado os que se dão em estado de embriaguez e de loucura, aos quais se pode chamar de inconscientes, é incontestável que tem ele sempre por causa um descontentamento, quaisquer que sejam os
    motivos particulares que se lhe apontem. Ora, aquele que está certo de que só é desventurado por um dia e que melhores serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência. Só se desespera quando nenhum termo divisa para os seus
    sofrimentos. E que é a vida humana, com relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias.
    A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as idéias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral. Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se esforçam por provar aos que os ouvem ou lêem que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão de fato levando-os
    a deduzir que, se são desgraçados, coisa melhor não lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los
    dessa conseqüência? Que compensação lhes podem oferecer? Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não
    ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o único remédio heróico, a única perspectiva, mais vale buscá-lo
    imediatamente e não mais tarde, para sofrer por menos tempo.
    A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a idéia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo,
    tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral.
    O Espiritismo ainda produz, sob esse aspecto, outro resultado igualmente positivo e talvez mais decisivo. Apresenta-nos
    os próprios suicidas a informar-nos da situação desgraçada em que se encontram e a provar que ninguém viola
    impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida. Entre os suicidas, alguns há cujos sofrimentos, nem por serem temporários e não eternos, não são menos terríveis e de natureza a fazer refletir os que porventura pensam em daqui sair, antes que Deus o haja ordenado. O espírita tem, assim, vários motivos a contrapor à idéia do suicídio: a certeza de uma vida futura, em que, sabe-o ele, será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na Terra: a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; que se liberta de um mal, para incorrer num mal pior, mais longo e mais terrível; que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que no outro mundo ele se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar; donde a conseqüência de que o suicídio, só lhe trazendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso mesmo, considerável já é o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se,
    podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes. Comparando-se, então, os resultados que as doutrinas materialistas produzem com os que decorrem da Doutrina Espírita,
    somente do ponto de vista do suicídio, forçoso será reconhecer que, enquanto a lógica das primeiras a ele conduz, a da outra o evita, fato que a experiência confirma.”
    Para os nossos irmãos que cometeram o tresloucado gesto resta-nos orar por eles, pedindo que tenham coragem bem maior agora, para enfrentar com galhardia a nova situação, pedindo que lhe sejam minoradas as dores, considerando todo o sofrimento que tenham passado enquanto na vida física e, agora, na vida espiritual, para que nossas preces possam auxiliá-los a encontrar as forças que necessitam para reconhecer o erro cometido e pedir perdão à Deus, que sempre houve o arrependimento sincero, e lhes permitirá, por sua Lei de Amor, que sejam amparados, orientados e, de futuro, retornarão à uma nova existência, talvez em condições mais difíceis do que a que deixou voluntariamente, onde provarão sua vontade, como o filho pródigo, em retornar ao caminho que os conduzirão à paz almejada. Acreditem ou não, essa é uma realidade. Bom domingo.

  • Andrelino Costa

    li sobre um senhor de 102 anos e sobre, no outro extremo, uma jovem de 17 anos que praticaram o tal suicídio consentido me apoiado na Lei, assistido … como espiritualista, não creio que essas pessoas ‘acabaram com os problemas “, por outro lado, sem julgar essas pessoas, mas que exemplo isso fica para jovens e adultos em depressão, passando por dificuldades …. ou nós achamos conveniente que nossos entes queridos desistam da vida, desistam da resistência e da incrível capacidade de superar dores e problemas existenciais de que o ser humano dá provas e há, também, tantos exemplos ?? qual exemplo nós queremos estimular e consolidar como VALOR em nossas sociedades ?? e , trazendopara mais próximo de cada um de nós, nas nossas famílias ???

  • Há Lagoas

    Deixando a religião de lado , a indagação que fica é a seguinte: o suicida se preocupa com o que sua ação vai fazer com seus entes queridos? Por favor, mesmo que isso pareça um julgamento de minha parte, não é minha intenção.
    Mas fico aqui pensando, em uma sociedade tão egoísta quanto a nossa, é preciso ponderar, viver e amadurecer e pensar sempre no próximo.
    Aquele que amava – e ainda ama – o que cometeu suicídio, ficará com um fardo pelo resto de sua vida, muitas vezes se indagando e martirizando a si mesmo.
    Por isso, sejamos vigilante. Nos preocupemos com aqueles que nos cercam antes que tal fato aconteça.

  • EDUARDO ANTONIO DE CAMPOS LOPES

    E ela pede carona.

  • Fernando

    Quando vc cita a Suíça, Japão, EUA e Gana com números tão diferente e não duvido que sejam, mostra que o suicídio é um problema cultural e não epidemiológico. Agora o que leva a sociedade ganense ter um índice que é metade dos países ricos citados no artigo? Além do mais em Gana, que é um país pobre. Me pergunto qual seguimento social é o mais afetado com esse problema? Desconfio Ricardo que o suicídio está relacionado com expectativas materiais e profissionais frustradas. Coisa muito comum na Suíça, no Japão e nos EUA, por isso o dobro de suicídio de Gana.
    Talvez vc não concorde, mas Cristo nos leva ao conformismo dos problemas do mundo, pobreza é uma delas. A ideia de alguns seguimentos evangélicos de que Cristo leva a prosperidade, é totalmente estapafúrdia, afinal como poderia ele fazer-nos prosperar materialmente se ele mesmo morreu pobre sem ter se quer um lugar para “deitar a cabeça “? Por isso ele mandou que depositássemos toda nossa esperança de felicidade plena, no governo de Deus. Que governo? Quando pedimos na oração do pai nosso, “venha a nós o vosso reino “, estamos pedindo a Deus que o reino dele venha até nós, foi o seu filho Jesus que nos ensinou a pedir e todos os cristãos em toda parte, mesmo sem saber, pedem. Em seguida pedimos que “seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”, será que a vontade de Deus está sendo feita na terra como no céu? Com certeza não! É por isso que ao conhecermos essa promessa, nós passamos a ter esperança. Esperança de que o nosso Deus não vai deixar faltar o pão de cada dia, pois se pedirmos o pão para muitos dias e ele nos desse, faltaria para muitos dos nossos irmãos, mas se for o pão para cada dia, por certo daria para todos. Esse é o problema da Suíça, Japão e EUA. Eles pedem “pão para muitos dias” e como bem disse Jesus: “não fiquem ansiosos dizendo, o que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? Pois todas essas são coisas que se empenham ANSIOSAMENTE as nações, Suíça, Japão e EUA. Portanto, disse Jesus: “nunca fiquem ANSIOSOS por causa do amanhã, pois o amanhã terá suas próprias ansiedades. Basta cada dia suas próprias dificuldades”. Provavelmente os ganenses fazem exatamente isso, pede só o “pão para cada dia, não por obediência a Cristo, mas por pura falta de opção. Mas quando aprendem sobre a esperança de dias melhores, prometido pelo pai celestial, se apegam como a um bote salva vidas. E não desistem mesmo diante das inúmeras adversidades.

  • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

    ôI, Ricardo … um bom domingo já passado, uma BOA semana a festejar namorando!
    aqui no Sertão tbém cultivamos a VIDA em meio às previsíveis ESTIAGENS de vaca desconhecer bezerro.
    Sim … \– E a morte? … (Vc acima de tudo) # É CLARO que … – Sou contra. (idem, VIDA acima de todXs)

  • Antonio Carlos de Almeida Barbosa

    Pois é Mota, a velhice é um verdadeiro massacre. Assim, somente dor e sofrimento, leva ao ser humano destemido e consciente, abreviar o inútil sofrimento. Quanto aos jovens, lamento serem vencidos pelas angústias, com a depressão instalada, e o sofrimento insuportável, o vazio corroendo a alma, quando nada mais é prazeroso, nada mais é essencial, não encontra razão para continuar. Acredito que a psicanálise e a filosofia, sejam o caminho. Falo de conhecimento próprio de vida, de longas caminhadas.