Bem que este poderia ser o título de uma fábula de Esopo, sempre uma boa história moral ou uma boa moral da história. Gosto especialmente desta (Os dois sacos):

“Quando Prometeu fez o homem, deu-lhe dois sacos para carregar: um com os defeitos alheios, o outro com os defeitos próprios. Os homens levam o primeiro na frente e o segundo atrás. Eis por que sempre estamos prontos a ver os defeitos dos outros, mas nunca percebemos os nossos”.

Pois é: o ex-escravo grego, gago e corcunda – 620 a.C. a 564 a.C. – conseguiu captar a essência humana, imutável, pelo visto.

Mas o pombo citado aqui virou manchete nos jornais do mundo inteiro por ter sido flagrado e multado (?) por um pardal eletrônico: por excesso de velocidade na pequena cidade de Bocholt, no interior da Alemanha. É óbvio que a multa foi cancelada (mas registrada, como bem o fazem os germânicos).

Nas fronteiras brasileiras, o tal pombo haveria de dar bicoradas ao vento em protesto contra a “indústria da multa”, esta que mói 24 horas por dia a paciência dos “homens de bem”.

Somos assim: ávidos por leis – e quanto mais novinhas, melhores. Desde que sejam os outros, defeituosos de caráter e despidos de respeito, a cumpri-las – como nos revelam os sacos do realismo fabuloso de Esopo.

Este “legalismo delirante”, no dizer do historiador José Murilo de Carvalho, nos levou a confeccionar, em 1997, um Código Nacional de Trânsito com 341 artigos, o que não nos impele, por exemplo, a respeitar uma faixa de pedestre por onde trafega uma jovem grávida – como pude testemunhar perplexo e apavorado esta semana (no Parque Gonçalves Lêdo).

Outro historiador nacional, o pensador pop Leandro Karnal, afirma que um povo que quer sempre mais leis é o que está menos disposto a cumpri-las. Talvez seja pura provocação do “careca” de dentes largos, mal cabendo na boca sempre aberta. Mas não lhe parece que ele está falando (também) da brava gente brasileira?

É possível, mas sabe o risonho personagem que as leis nascem dos homens por necessidade, e que só funcionam quando as sociedades as assimilam de verdade, antes mesmo de chegarem ao papel. Algo parecido com o que os ingleses, especialmente, chamam de Common Law – o que pode ser traduzido como a regulação do comportamento costumeiro. Ou seja: lei e norma social se fundem (é a sincera punição social a sentença mais temida pelos homens).

Mas cada país constrói a sua história como pode. A bela Constituição Cidadã, de 1988, nasceu com 245 artigos e foi crescendo, crescendo e se absorvendo. Garantia casa, comida e roupa quase lavada – a água estaria na residência digna de cada cidadão, independentemente de cor, raça, religião, gênero.

É um inegável avanço civilizatório, apesar de tão somente uma carta de – boas – intenções (esqueçamos, por ora, os seus intérpretes, que habitam sua própria Torre de Babel, onde jorra champagne e brotam lagostas em lagos de mel).

Mas há de se louvar, por mérito, a Lei Seca, que tem punido – quase sempre – aqueles que costumavam ‘molhar’ a mão do guarda após etílicas jornadas. A parca redução de acidentes nas ruas e estradas brasileiras se deve, quase sempre, a sua aplicação e aos pardais, espécie que tende à extinção no país. Só que ainda tem gente que defende um artigo para cada cidadão, estipulando a gradação do álcool a ser ingerido. Algo assim como a medição, por um bafômetro imaginário, do que um (in) determinado motorista suporta enxugar sem perder rumo e direção. Parece conversa de bêbado, mas não é, creiam.

Por aqui, nas terras brasileiras, o arsenal legal ocupa um paiol que só faz crescer, sem muitos resultados práticos e objetivos. É provável, no entanto, que se o pombo alemão  voasse no céu da pátria nesse instante, tombasse ‘legalmente’ antes que o pardal o flagrasse no delituoso voo.

E olha que o Brasil já deu ao mundo um exemplo de minimalismo com a máxima amplitude benéfica: na Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, e que extinguiu a escravidão no país de negritude negada. São dois artigos, apenas:

Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.

Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário. 

(Mas que as aves da quase fábula aqui descrita não ousem se pintar de preto por esses tempos bicudos, se resolverem passear no nosso azul sem manchas.)

Os bolsonaristas foram às ruas - e ponto
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  • Juvenal Gonçalves

    Boa, Ricardo!
    Então, tem aquela figura que põe asas pretas sobre os ombros e diz: “para os amigos, os favores… para os inimigos, os rigores da lei!”
    Quase sempre os “inimigos” são aqueles “pombos” menos abastados.
    Então, nesse “mercado” onde existem os diversos tipos de “produtos”, bem legal seria uma boa limpeza pela Vigilância “Sanidária” (Sanidade moral e mental daqueles que produzem as leis em escala quase que industrial) nas suas rotas prateleiras.
    Noutras palavras: pra que tanta letra, se há tão pouca moral e sanidade para aplicá-la?
    Bom domingo!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Concordo com o texto em quase tudo (não que minha opinião tenha algum valor…). Sou contrário à extinção de pardais e outros instrumentos tecnológicos que permitam “reduzir” a ignorância de muitos neste país, quando conduzindo um veículo automotor… e muito embora reconheça que o problema maior se encontra na “educação” (ou inexistência dela…) das pessoas… afinal, respeitar a vida dos outros é coisa que deveríamos ter sempre em mente… pois queremos que a nossa também seja respeitada… coisa que Jesus já afirmou há mais de dois mil anos… agora, temos que avaliar, também, as condições e a maneira como são construídas as nossas vias públicas, sejam urbanas ou interurbanas… é só lembrar o que acontece na mencionada Alemanha… lá tem uma auto-estrada que liga o país à diversos outros países, principalmente aos países baixos, denominada de “autoban” (não sei se a escrita é realmente essa…), e nessa auto-estrada (highway nos USA), a velocidade quem faz é o condutor… não tem limites… porém, tem cerca de 6 faixas para cada sentido; quase não tem curvas, e quando as tem são muito suaves; não tem buracos; os dois sentidos são separados por muretas e os dois lados externos são, também protegidos por muretas; além do mais, não passa próximo a nenhum centro urbano ou vilarejo e, como o povo é muito educado, vc não encontra animais (irracionais ou mesmo racionais…) soltos atravessando a via… já nos centros urbanos os limites de velocidade são estritamente fiscalizados, com uma quantidade muito grande de dispositivos móveis e fixos, como falado no texto e ninguém diz que está errado, pois compreendem que a preservação da vida e da integridade física de cada um e de todos os cidadãos é sempre mais importante do que a “carência afetiva” dos que precisam “superar” os outros condutores para terem algum “valor” na vida… assim, chegamos à conclusão que temos ainda que avançar muito em educação (a verdadeira, que não somente ilustra a inteligência, mas também forma o caráter moral dos indivíduos…) para que possamos alcançar algum grau de melhoria no quesito civilização no trânsito no país… portanto, se não concordo com o posicionamento de quem quer que seja, que apoie a retirada dos instrumentos de controle de trânsito (seja de velocidade, da faixa azul, de avanço de sinal, de parada nas faixas dos pedestres, etc, etc…) e isso aconteceu em nossa Maceió até entre autoridades de quem se esperava o apoio a proteção à vida e à integridade física dos cidadãos, também não posso deixar de ressaltar as más qualidades de nossa malha viária interurbana e interestadual, dificultando, em muito, a movimentação e o transporte de cargas de todos os tipos, só para lembrar que vivemos em um país onde mais de 90% das cargas são transportadas por rodovias… e tudo isso vem acontecendo por décadas e décadas… alguma coisa precisa ser feita nesse sentido, como, por exemplo, ampliando o transporte ferroviário, marítimo e fluvial, muito mais baratos e seguros, além de aperfeiçoar a maneira como construímos nossas estradas e rodovias… só que para isso são precisos muitos recursos e, mais ainda, precisamos, senão extinguir pelo menos controlar e reduzir ao mínimo a corrupção no país… e, para isso, precisamos apoiar as pessoas certas, que querem e buscam fazer algo para por freios nessa mazela da administração pública… Bom domingo.

  • Wellington

    Ainda sou favor do velho, bom e barato quebra-molas.

  • Tbém m’ANULEI na urna escura … liberdad’Inda q TARDIA, viva a DEMOCRACIA c’ônus e bônus!

    Caro RICARDO Mota … um bom e PARODIADO domingo se me permite, amigo Véio!
    > A maturidade desenfreada aos 19 de IDADE ameaça espaços CONQUISTADOS:
    – ENTÃO … ‘somos ávidos por LEIS – e qnto + novinhas, mUlhEre$’ … Vc acima de TUDO!
    > É nóiX na Lei de Talião, rasgando no Dente olho$ alheios, apenas BUGALHOS:
    – SEM alma … ‘1 povo q quer sempre (+) LEIS é o q’está (-) disposto a cumpri-las. [Karnal acima de todXs]

    Resposta

    João:

    Valeu mais do que a crônica inteira.
    Grande abraço,

    Ricardo

  • Anselmo Carvalho

    Adorei o texto, vc sempre genial, vamos que vamos, abcs

  • Antonio Carlos de Almeida Barbosa

    Excelente texto. A natureza sempre vence, a câmera captou o voo e a velocidade da ave. Registro sem a multa ser efetivada, a ave é livre, ainda bem.