Sinto-me motivado de quando em vez, e só de vez em quando, a ‘entrar’ no mundo das redes sociais, para entender o sucesso que elas fazem nas relações humanas (?).

E estou falando de pessoas comuns, como eu e você, que gostam, que desgostam, que têm preferência, repulsas, preconceitos, afetos. Ou seja: gente de carne osso e, eis o busílis, que possui cérebro, este instrumento fantástico que possibilitou que uma espécie tão medíocre, de visão curta, anósmica, de ouvidos moucos e pouco tato, se transformasse em rainha da cocada preta.

Um dia desses, conversando amigavelmente com pessoas de quem eu gosto, e que sei solidárias e generosas, me senti provocado para um bom debate – o que cada vez me é mais raro, reconheço. Mas, enfim, na condição de homem comum, o tema estava posto e proposto por um bom sujeito:

– Eu me sinto agredido quando vejo um casal de homossexuais se beijando ou de mãos dadas. Eles não respeitam mais ninguém.

Como eu sei que este é um tema recorrente e preferencial em grupos políticos e de “defesa dos valores da família”, que formam tribos primordiais nas redes, resolvi replicar:

– Mas se não é você quem está beijando nem pegando na mão do consorte (ou sem sorte), por que você estaria sendo agredido?

Claro, nem fiz a surrada provocação do “Freud explica”, mas mobilizei todo o exército “azul” presente – e que integra o mesmo grupo nas redes sociais – contra este velho jornalista, naquele momento em que estava, confesso, mais para zombeteiro do que para um discurso de convencimento. Afinal, sabia eu, a questão movia emoções, apenas elas, e não a razão.

Foi aí que veio uma enxurrada de informações, que se repetia por cada um dos litigantes, e que se revelou a chave do sucesso das comunidades virtuais. Como já avisou Jaron Lanier, no seu ótimo livro sobre redes sociais, o engajamento se dá replicando e replicando e replicando mais do mesmo: todos ali viram e compartilharam as mesmas imagens, as mesmas cenas provocativas (semelhantes, imagino, àquelas do carnaval presidencial) pelo zap.

O mundo virou ‘isso’ para eles, um lugar onde os seres morais têm de lidar com cenas imorais, na porta de casa, nas ruas, no ambiente de trabalho, nos bares, nos restaurantes, nos supermercados; enfim, onde houver gente, impera a “safadeza”!

Uau!

As ‘maiorias emocionais’ (Umberto Eco) se formam e se alimentam nesses espaços tribais e, principalmente, virtuais. Qualquer pessoa que vive a vida real, e todos nós temos de fazê-lo ao menos numa parte do cotidiano, sabe que as tais cenas “repugnantes” acontecem, e cada vez mais, pela vida. Mas elas não são a vida, a única, de que não podemos desviar os olhos, se incomodados – a não ser nas redes sociais.

Eis o que ainda me impressiona: para boa parte dos redistas, o mundo real é o virtual. O resto é fantasia! (Eu prefiro ouvir estrelas, mas fazer o quê?)

É verdade que é tudo novo demais: a maravilhosa Internet e a sua “borra”, que são as redes sociais e que não merecem este nome, menos ainda por algum mérito que tivessem. Prefiro o mar de Pessoa: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce./ Deus quis que a terra fosse toda uma, /Que o mar unisse, já não separasse.

Coisa de poeta?

Creio que não: é a eterna tentativa daqueles que, por diferentes, conseguem enxergar o quão longe na estupidez pode nos levar o convencimento de que devemos ser todos iguais (e não só no comportamento  sexual). Gays, lésbicas e demais integrantes da interminável sigla que os “define” sempre existiram, só que perderam a vergonha ou o medo de ser o que são – esta é a melhor defesa que possuem para os ataques que sofrem (não há jeito de me esquecer de Freud – que me perdoem os agredidos e ofendidos).

Não esqueçamos nunca, não temos este direito, que as grandes tragédias humanas foram (também) perpetradas por pessoas boas que fizeram coisas más. E exatamente nos tempos em que buscamos a definitiva convergência entre os homens, apagando as linhas da diversidade.

A gente só haverá de se entender na divergência.

Ou é isso ou renunciemos à condição humana.

Joãozinho Pereira vira aposta do Palácio para a disputa de federal contra Arthur Lira
Por coerência, o governo deveria criar o Bolsa Pistola
  • JEu

    Bom dia, Ricardo. O tema de hoje fala sobre o ser humano em suas mais profundas intimidades da alma. E creio que o problema não está, intrinsecamente, ligado ao “demonstrar” publicamente a condição de ser gay… afinal, isso sempre existiu em todas as épocas conhecidas da humanidade… na época de Jesus já existia, e um que outro apóstolo mencionou em suas cartas (ou epístolas… como queiram…). O problema, creio está em analisar e aceitar ou não como um comportamento “natural” , correto, certo e digno de ser tido como “exemplo” a ser seguido por outras pessoas… e esta análise só é possível no contexto histórico-religioso… pois os livros tidos como sagrados trazem as informações que têm por finalidade a elevação ético-moral-social do ser humano, em um primeiro plano e, em segundo plano, o resultado disso para um contexto maior, acima da mera “realidade” vivida por cada ser, durante o tempo passado por aqui… é tudo uma questão de viver unicamente no sentido “horizontal” ou buscar “algo mais” no sentido “vertical” da vida… e por mais que queiramos somente viver o sentido horizontal, temos algo que nos atrai para o sentido vertical, pois a vida por aqui é curta demais para se amar o verdadeiro amor… sentimos todos, creio, e mesmo que neguemos, que “precisamos” de algo mais “além” para que tenhamos um verdadeiro “sentido” para a vida… e isso está para além dessa vida… mais especificamente sobre o assunto, li alhures: “No desenvolvimento da sexualidade, os seres passaram pela fase do hermafroditismo e, somente milênios depois, desenvolveram-se as caracterizações exteriores da masculinidade e da feminilidade. Daí para a frente, inclusive no Reino hominal, a sexualidade exterior diferenciada passou a ser regra geral entre as criaturas…”
    Em tempos passados, a humanidade em geral, mal instruída sobre a sexualidade, tinha quase como única referência a ideia de que o sexo, em si mesmo, representava um “pecado”, principalmente por força da mentalidade punitiva que o Cristianismo Oficial instituiu na Idade Média europeia.
    Com o Iluminismo e o desenvolvimento da Ciência, muita gente passou a descrer totalmente da Religião, passando do medo ao pecado à consagração da liberdade absoluta, sem nenhum freio moral no que pertine à sexualidade. Assim é que atualmente o sexo vem sendo divulgado e praticado de forma aética e até antiética, com graves resultados, inclusive o desenvolvimento de desvios mentais graves…” Alguém pode então arguir: se Deus existe e “criou” essas pessoas, então Deus errou? eu diria que Deus não os criou assim, e eles é que se fizeram assim… através de suas romagens terrenas… hoje em dia, como dito no texto transcrito, mais do que em qualquer época da humanidade mais próxima de nossa geração, estamos perdendo os freios morais e tratando o sexo como pura e simples fonte de prazeres, sem o componente da responsabilidade que advém junto, com relação à nós mesmos (respeito e dignidade) e com relação ao próximo (ou parceiro… seja homem ou mulher…) encarando o outro simplesmente como “um objeto”… e nesse caminho o ser espiritual (isso mesmo… o espírito que pré-existe e sobrevive ao corpo físico), destrambelha uma das forças que devem auxiliar sua evolução “vertical”, ou seja, ético-moral, causando um sério descontrole das forças genésicas, renascendo, então, na maioria das vezes, em estado de confusão e ocupando um corpo que lhe é contrário à manifestação daquelas forças, por necessidade de reajuste pessoal perante as leis da natureza… aí, por desconhecimento, ignorância e, principalmente, por revolta e orgulho, voltam a cair e terrenos cada vez mais pantanosos e lodosos… não existe outra explicação mais lógica… assim sendo, creio que será muito sábio para cada um de nós verificar como estamos nos comportando neste campo, se estamos dignificando nossa vida ou se estamos, como muito dos nossos irmãos ou irmãs, nos ofendendo e criando condições para dores no futuro… é a questão da lei de causa e efeito, ação e reação… assim, jamais nos cabe, com Jesus, atirar pedras ou julgar a quem quer que seja nesse campo… porém, como ele, devemos também dizer: “vai e não peques mais, para que, de futuro, coisa pior não te aconteça”… Bom domingo.

    • Oswaldo Ramos

      Nem a herossexualidade é virtude, nem a homossexualidade, pecado. Pois ninguém escolhe sua orientação sexual. A homossexualidade não nasceu da ausência dos freio morais. Essa ausência atinge as duas orientações sexuais que antecedem a orgia sexual. Sob o ponto de vista religioso, pecado é a maneira como administramos a nossa vida sexual, seja qual for a sua orientação.

    • Idosamente MONGE no Sertão: busca SUS sem úi nem Ái!

      Aí JEu, peço PENICO … Mamãe, ontem passei mal – me lembrei de Vc e gritei: mamãe!
      [1976], http://alceuvalenca.com.br/letra/3-edipiana-no-1
      HOJE, Oswaldo … confesso q tenho outr’irmãos lutando contr’o canhão: d regime militar
      AGORA Ricardo … nominá: Messias, Carlos e Fernando + Geraldinho, Chico Mano: sofrÊrU pá daná!
      Youtubado em 2016, 4′ 09″ _ https://youtu.be/9yjaJ8udUa8

  • Antonio Carlos de Almeida Barbosa

    “Qualquer ser humano, de qualquer estrato social, de qualquer gênero ou raça, é igual a qualquer outro. Nós nascemos iguais…..”
    Graça Machel.

  • Luiz Testa

    No andar da carruagem e na onda dos novos costumes, que querem se impor como regra e normatizar a super exposição homossexual em todos os ambientes, em breve seremos expostos a manifestações públicas de amor incestuoso e será criminalizada qualquer manifestação de indignação da demonstração pública e explícita desses afetos… se não fizermos uma meia volta vou ver ao mínimo de bom senso, e aos valores judaico-cristãos, em breve esbarraremos com pais e filhos aos beijos de língua em corredores de shoppings e mães e filhas em relacionamento lésbico assumido, gostaria de saber a quem isso interessa? a sociedade brasileira é conservadora, é cristã, o objetivo dos comunistas nessa campanha permanente de esgarçamento moral é a destruição do núcleo familiar, para eles a família reproduz a “exploração” capitalista.

  • Meu Deus

    Já dizia o Filósofo: Quando vc ver uma discussão sobre a Homossexualidade é mais uma discussão sobre ele mesmo do que sobre o Tema!! Resumindo,como tem muita gente acéfala hoje em dia,Todo Homofóbico é um Homossexual enrustido!! TODO!!SEM EXCECAO!!

  • Há Lagoas

    Para o caro blogueiro – e alguns outros que leem meus pobres comentários – é perceptível, pelo que escrevo, que sou cristão por convicção.
    Creio na Bíblia, assim como acredito que ela foi feita – como regra de conduta e princípios – para aqueles que professam o cristianismo. Toda as vezes que objetivamos incluir a sociedade como um todo debaixo da autoridade bíblica, cometemos um erro. É preciso lembrar do livre arbítrio, para o bem ou para o mal ele é conceito basilar.
    Se até Deus respeita minhas escolhas, por que não posso fazer o mesmo com meu semelhante?!
    Tenho guardado o meu silencio, e apenas fala quando sou provocado, mas não cedo a tentação de julgar ninguém.

  • Meu Deus

    Aproveitando: Feliz Dia Das Mães para todas As mães, Tias/mães, avós, Homossexuais/Homofóbicos!! Fiquem com Deus!!

  • O Sobrevivente

    Senhor Jornalista,
    Excelente crônica. O universo das redes sociais é cruel, pois não permite reflexão. Mas quem ingressa na vida pública deve estar preparado – e sua família – para qualquer tipo de assaque, por mais abjeto e insidioso que seja.
    Pois “eles não respeitam ninguém”. Um beijo gay não causa dano a ninguém, que preze pela democracia, que respeite a diferença.
    Vi nessa emissora de TV, a única que teve a coragem de mostrar, o mais completo descaso com um Centro de Estudo para crianças de espectro autista, Educação Especial, e fiquei a pensando: mas as pessoas que fizeram essa reforma “não respeitam ninguém.” Para aonde foi o dinheiro público?
    Nestas questões, na condição de cidadão, posso julgar, porque pago impostos. “Mas eles não respeitam ninguém”, sequer crianças com deficiência, eis o “busilis”, palavra que não conheço, pois só tenho o ensino fundamental.
    As questões morais estão em voga. Mas para julgá-las é preciso ter moral, e não tem moral, por exemplo, quem explora o lenocínio, ou faz uso da miséria, da prostituição (mulher ou homem como objeto) ou se faz do patrimônio público um negócio particular, para beneficiar parentes e amigos.
    Muito boa crônica. Gostaria de um artigo de sua autoria sobre lavagem de dinheiro e se existe em Alagoas, pois ouvi, de alguém que não me lembro, que eles, os lavadores, “não respeitam ninguém”.

  • Lucas Farias

    Prezado Ricardo, ótima e pertinente reflexão. Temos visto nos últimos anos no Brasil, especialmente no contexto da vitória do presidente e do movimento político e ideológico que ele representa, o recrudescimento de uma ofensiva autoritária e preconceituosa contra os direitos de homossexuais. Observe o aumento significativo dos casos de violência e crimes homofóbicos, além da narrativa de cunho moral de determinados (mas não de todos) segmentos religiosos fundamentalistas que fazem do combate ao que chamam de “doutrinação homossexual” a sua profissão de fé. Tais setores acreditam que a visibilidade das pessoais homossexuais e a garantia de sua cidadania representariam um declínio moral e social de valores cristãos tradicionais. Assim, pensam que os homossexuais não poderiam ter seus direitos protegidos pelo Estado, como o direito de ser respeitado, de não sofrer violência, de se casar e de ter filhos. Essas pessoas acreditam que os homossexuais querem impor sua condição a toda a sociedade, como se isso fosse possível, e que os homossexuais desejam ser superiores aos demais. É um caldeirão transbordante de ignorância e preconceito. Os homossexuais não desejam superioridade, mas almejam igualdade: ter os mesmos direitos que os heterossexuais. E isso é simples: ter o direito de não ser ofendido, humilhado ou agredido apenas por ser homossexual; ser respeitado socialmente como cidadão tanto quanto outro cidadão heterossexual; ter o direito de casar, adotar filhos, constituir família, tanto quanto qualquer outro heterossexual. Em suma, não se trata de privilégio algum, mas de equiparação de direitos. Também me surpreende, Ricardo, quem vê nos homossexuais uma ameaça às suas famílias. Por qual motivo? De que modo o casamento entre gays afeta a família de alguém? Como o reconhecimento dos direitos civis de homossexuais pode prejudicar os direitos de heterossexuais? A não ser que estejamos tratando do desejo de ofender, segregar e humilhar impunemente, mas isso não é direito que assista a ninguém, porque é mero discurso de ódio. Não existe um plano para transformar todas as pessoas em homossexuais por meio de “doutrinação”, ao contrário das birutices e das teorias de conspiração que grassam pela internet (e das quais o astrólogo Olavo de Carvalho é um grande difusor). Primeiro, porque a orientação sexual é algo imanente à natureza de alguém. É condição personalíssima, não é um vírus que se transmite pelo contato nem é uma “ideologia” que persuade alguém como se fosse para mudar de time de futebol ou de religião. Segundo,’porque os homossexuais exigem, com razão, ter seus direitos respeitados, mas não impõem que todos os heterossexuais se tornem homossexuais. Aliás, quem deseja impor algo assim são os fundamentalistas e moralistas religiosos que querem que sua crença em particular seja a mesma a de todos, e que todos tratem a homossexualidade como algo pecaminoso e fora do natural, porque os homossexuais precisariam ser “curados”. E quem não quiser pensar assim? O Estado é laico e nossa Constituição estabelece uma sociedade plural, baseada no respeito à multiplicidade de religiões (inclusive à ausência destas), sem que ninguém seja tratado como indigno por não partilhar do mesmo credo. Por isso, Ricardo, preocupa-me bastante o discurso de alguns que acreditam que cabe ao Estado, na figura de seus políticos, o dever de doutrinar moralmente alguém de acordo com suas premissas religiosas particulares. Isso não é papel do Estado. É papel do Estado e das sociedades democráticas o respeito à diferença e isso implica garantir os direitos de quem vive, pensa ou age diferente de mim, mas que não me prejudica nem me afeta de maneira alguma. Afinal, ninguém tem o direito de exigir que todos sejam como a si mesmo, ou que partilhem de iguais valores religiosos. Apenas sociedades intolerantes e ditatoriais se baseiam na ideia de purificação, homogeneidade e eliminação dos diferentes. E o nazifascismo nos mostrou o resultado disso. Aprendamos com a História (cujo estudo nos tempos de hoje é tido como coisa de comunista) a não repetir as tragédias do passado. Feliz Dia Das Mães e bom domingo. Abraço.

  • amorim

    Pegando-se a opinião de cada leitor, logo chega-se a conclusão que nnossa flós opiamos e até enxergamos o pecado do outro, mas, de concreto pouco fazemos, ou nada fazemos. A mea culpa, dói, fere e machuca poucos querem passar por esse exame de consciência. Não sou a favor de atos explicito que vão de encontro a boa formação, mas também, não vejo nenhum motivo tanto destaque do pecado alheio. Temos a nossa culpa também.