Escolher não é apostar no acerto ou arriscar o erro – é viver, simplesmente. Dizer o contrário não me parece uma escolha muito inteligente.

E se a tal da aleatoriedade é soberana, por controlarmos tão pouco ou quase nada do que vivenciamos, as nossas escolhas tantas vezes se baseiam apenas no ‘efeito manada’ ou na falta de curiosidade sobre o objeto do desejo coletivo.

De novo, volto às redes sociais. Cada vez mais estou convencido que sem elas eu ganho muito mais do que perderia – emocionalmente, afetivamente, intelectualmente.

Eu sempre achei que o “face”, por exemplo, era um instrumento de estupidificação coletiva. O desfile de “narcisos” implumes nesse espaço virtual já era um sinal de que estar fora dele era não se perder por dentro.

Deixo claro, para que você não se sinta atacado, que trato da média da população, até porque as unanimidades já foram muito bem definidas por Nelson Rodrigues.

Confesso que até me balancei para entrar no zap no seu início, mas Camila, minha filha – que se tornou uma mulher muito especial e uma grávida linda – foi incisiva: “Você vai se aborrecer muito rapidamente. É muita bobagem que vai lhe chegar, e sei que você não vai tolerar”.

Dizer mais o quê? Ordens são ordens.

Um pequeno-grande livro, de um cientista da computação, quase quarenta anos de Vale do Silício, traz um conselho que é um apelo desesperado: “Saia das redes sociais enquanto é tempo”.

Em menos de 200 páginas, Jaron Lanier mostra, em Dez argumentos para você deletar agora as redes sociais, como a turma que ele batizou de Bummer – Facebook, WhatsApp, Twitter, Instagram e assemelhados – nos transforma, literalmente, em “ratos de laboratório”. Nos entregamos de graça, e eles ganham bilhões de dólares com a nossa ingênua crença de que nós é que estamos recebendo um serviço gratuito.

Antes de prosseguir, uma observação necessária: muita gente confunde internet, que é uma conquista fantástica da humanidade, com redes sociais. Estas são um subproduto daquela, com efeitos colaterais terríveis para a sociedade.

Vejam os depoimentos de dois “cabeças” do Bummer.

Sean Parker, primeiro presidente do Facebook:

“Isso é um circuito de feedback de validação social, exatamente o tipo de coisa que um hacker como eu inventaria, porque explora uma vulnerabilidade na psicologia humana. Isso muda a relação de vocês com a sociedade, uns com os outros. Só Deus sabe o que as redes sociais estão fazendo com o cérebro dos nossos filhos”.

Antes de passarmos ao próximo, vale ressaltar que Lanier apresenta vários estudos científicos, inclusive sobre psicologia comportamental, para chegar a uma conclusão que a mim, de há muito, parece óbvia: as emoções negativas – medo, ódio – nos mobilizam muito mais do que os seus contrários. Primitivismo na arte é uma coisa, na vida, outra.

Numa frase, ao tratar do ‘instigante debate político’ nas redes – uma das mais rematadas tolices dos propagandistas do meio –, o cientista, autor da expressão “realidade virtual”, se sai com uma pérola:

“As redes sociais não levam ninguém nem para a direita nem para a esquerda – só levam para baixo”. Nós já vimos isso e não faz muito tempo (e ainda não passou).

Mas vamos ao segundo depoente, o gênio Chamat Palihapitya, ex-vice-presidente de crescimento de usuários do mesmo Facebook:

– Criamos ciclos de feedback de curto prazo impulsionados pela dopamina que estão destruindo o funcionamento da sociedade. Nenhum tipo de discurso civil, nenhuma cooperação; apenas desinformação, inverdades. Isso está erodindo o alicerce de como as pessoas se comportam umas com as outras. E não tenho nenhuma solução boa. Não uso mais essas ferramentas.

Uma madalena-arrependida? Talvez, mas a sua confissão pode nos ajudar a entender aquilo em que estamos nos tornando e por que somos tão frágeis aos apelos redistas.

E para quem acha que a história dos perfis falsos é apenas pontual, até fantasiosa, o livro traz uma notícia diretamente do respeitável The New York Times: “O preço médio no Twitter no início de 2018 era de 225 dólares pelos primeiros 25 mil seguidores falsos”.

É lembrar que nós estamos falando de centenas de milhões de humanos, que mais e mais se desumanizam. “Engajando” – esta é a expressão usada por essas empresas de alta tecnologia e baixíssima empatia – gente simples e comum como nós, as redes já têm assumido um protagonismo criminoso em episódios extremos como o massacre da minoria rohingya, no Myanmar, e nos sangrentos embates no sul do Sudão, de acordo com estudos da ONU.

Ora direis: “O que vale é o bom senso”.

E aí vem aquele chato do René Descartes a acusar: “O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm”.

A essa altura, já acho que, mais do que apenas um subproduto, as redes sociais são a borra da internet. E se elas viciam, ouso dizer que só se abandona o vício pela vontade, não pela necessidade.

A escolha, portanto, sempre será sua.

Marcelo Victor já trabalha pela reeleição a presidente da Assembleia
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  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Hoje o texto trouxe à baila, creio, um dos grandes problemas da humanidade (tomando aqui a média do ser humano… que é a grande maioria…): a preguiça de raciocinar… e isso é, realmente, o grande dilema… a grande ferida… pois, ao que parece, não são as mídias sociais, a internet, o futebol, a riqueza, a TV, etc, etc, que causam as dores e os grandes sofrimentos humanos… somos nós mesmos que somos os próprios construtores de nossa infelicidade… não são as “coisas” que nos infelicitam e sim a “maneira” como nós as usamos… assim, tanto pode como não necessitaria existir as “redes” e, “espertos” como somos, logo teríamos encontrado um “jeitinho” de fazer com que nos “juntássemos” para fazer o que “desejamos”… e condenar as coisas, que não pensam e nem sentem, como as causas de nossas “desditas” é, creio, confundir os “efeitos” com as verdadeiras “causas”… é uma inversão da compreensão da realidade… por exemplo, há mais de dois mil anos atrás, Jesus disse: “é mais fácil um camelo (que queria também significar ‘um cabo’, uma corda) passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”… com isso, lógico, ele não condenou a riqueza (desde que adquirida honestamente, honradamente, sem causar prejuízos a quem quer ou ao que quer que seja) e sim o mau uso dela… o uso exclusivamente egoísta, o apego exagerado, o orgulho que lhe advém… e esses vícios de caráter não pertencem à coisa em si (a riqueza…) e sim ao seu usuário, o ser humano… na realidade, qualquer coisa material não é essencialmente boa e nem ruim… e pode ter esses resultados de acordo com o uso que lhe dermos… agora, se o uso, em sua maioria, só tem causado mais mal do que bem, então, concordo com você e creio que, em algum momento, teremos que adotar uma medida drástica para conter o mal galopante… para o bem de todos… por isso foi que, como narrado nos escritos considerados sagrados, as cidades e as populações de Sodoma e Gomorra foram destruídos, pois conta-se naqueles escritos, que aquelas populações haviam perdido o senso de dignidade e de respeito pessoal e coletivo e tinham se desviado para todos os tipos imagináveis de perversões morais, preferencialmente para as de caráter erótico… e deu no que deu… eis, aí, pois, um grande aviso para o mundo inteiro, na atualidade… Bom domingo.

    • Desde Colonia 1500 somos Portugais & RAMALHo$ – loucura!

      De fato, caro JEu … em casa usamos LARANJAS, no bom sentido, viu?
      as crianças ADORAM pela saúde, pedem com segurança e bebem com EDUCAÇÃO!
      Apois cuma realçou em 1966 o grande ATAULFO A (1909-1969)
      > Laranja MADURA na beira da eXtrada ‘tá BIXADA, Zé:
      – ou tem MARIBONDO no pé … d’Queiroz iN-FláviL ym 2min 21 seg
      Ou SEJE … > Santo Q vê mui’esmola sacola desconfia: NUM faz milagre!
      – GoXto d’Ma Rosa + quem m’dá prosa é Rosa Ma: Q confusão GE(ne)RAL!
      https://youtu.be/dwmIcCcsQLA

    • Juvenal Gonçalves

      É isso aí JEu!
      Bem comentado o excelente texto do Ricardo.
      Então, onde vamos parar?
      Haverá mesmo a necessidade de um “freio de arrumação” nesse troço aí, ou então o trem vai descarrilar um dia…
      Boa semana para todos!!!

  • Antonio Carlos Barbosa

    Velho Mota, no seu excelente texto acima, concordo primeiramente e plenamente com a fala da sua filha Camila, quando lhe aconselha de forma incisiva sobre as redes sociais, e somente depois vem os intelectuais citados. Camila foi de uma sabedoria muito grande, facilitada pelo convívio entre vocês, ninguém melhor para lhe alertar. Pois é, Camila estava prenhe de razão, e hoje está prenhe também e que o fruto venha com muita saúde e paz.

    Bom domingo.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Em tempo: Das redes sociais, estou fora, nunca entrei.

  • Antonio Moreira

    Lembro-me, tinha gente que ia ao Shopping Iguatemi para falar/exibir o tijolo(celular).
    Também, tinha uma pessoa que andava na minha rua para lá e pra cá falando …

    Certos casais(???) conhecidos querem ibope ou mostrar para o mundo o amor pelo parceiro(a) amado(a)?
    Tudo que você quer saber do meu trabalho/arte eu respondo, agora o que faço entre quatro
    paredes eu sou capaz de mandar “tomar banho/comer uma Cuca de farofa” – Disse Ney Matogrosso. Entendeu a frase acima, não é!

    Tecnologia:
    Exemplo comum – Recebe o boleto através de e-mail e faz o pagamento no banco através da internet. facilidade – e o Correio e o Caixa do banco e a loteria?

    Nos meus trabalhos público e privado uso as ferramentas das tecnologias para facilitar o meu trabalho. Ganho tempo e a praticidade.

    Rede Social, acho que deve ser uma espécie de carência da humanidade.
    Confesso que já passei por isso. Não sinto necessidade de buscar nada
    lá. Nem para saber o preço da cebola.

  • Há Lagoas

    Em tese, somos vítimas daquilo que sempre buscamos, livre arbítrio!
    Tenho um velho e suficiente e-mail – do qual este blog tem conhecimento.
    No mais, vivo meu ostracismo social e quando me atrevo a bisbilhotar – e comentar – alguma coisa, faço isso em alguns poucos blogs de minha terra natal.
    Por opção, não tenho celular, não faço uso das redes sociais e de quebra, após o cancelamento do sinal analógico, joguei minha velha tv no lixo, e ao que parece, ganhei mais tempo para cuidar de meu minúsculo jardim e ler um bom livro.
    A vida é feita de opção, e que bom que tenho o direito de escolher, respeitando sempre quem pensa o contrário.

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Pois Ricardo … pá quem ENTRA ou vai, pá Q lado CAEM presidente’$ do FACE? … rsRs
    … “As redes sociais NUM levam ninguém nem pá a direita nem p’eXquerda – só levam pá báXU”.
    [J Lanier escreve sobre 1º presidente do Face, BURRO? … apud Ricardo Mota ACIMA de tudo]
    Ao redor do próprio UMBIGO da Relatividade Geral (1915) duvidava um CIENTISTA
    : 2 coisas podem ser INFINITAS: o universo divino e a estupidez humana … rsRs
    – Duvido do universo em CIRCO, + da ESTUPIDEZ humana, palhaço … Kkkkk.
    [A Einstein 1879-1955, Die Philosophin vol 7 ed 13 pág 60, Ed Diskord , 1996]
    https://www.pensador.com/frase/MjQ3Mw

  • Celso Tavares

    Dizer o quê?

  • Lucas Farias

    Prezado Ricardo, é também importante lembrar que as redes sociais, especialmente o Facebook e o Instagram, são poderosas ferramentas de publicidade e venda de conteúdo, criando padrões de consumo a partir da captação obscura de metadados sobre os hábitos e as preferências de seus frequentadores. O comércio dessas informações sigilosas entre empresas de consultoria, a exemplo da Cambridge Analytica, provocou investigação do Senado dos EUA, que obrigou o Zuckerberg, presidente do Facebook, a depor para explicar como as empresas lucram explorando a privacidade alheia. As redes sociais não são apenas um território desordenado, de imbecilização política e infantilização de emoções primitivas. São também ferramentas de mercado de um negócio muito lucrativo. Abraço.

    Resposta
    Meu caro Lucas:
    O Lanier define o Bummer (o conjunto dessas empresas) como “um plano de negócios” – e apenas isso.
    Imagine quem elas vendem.
    Forte abraço e obrigado pelos seus ótimos comentários,
    Ricardo Mota

    • Lucas Farias

      Eu que te agradeço e parabenizo pela labuta diária no jornalismo, com credibilidade na informação e qualidade no conteúdo (duas coisas em extinção nestes tempos modernos). Abraço.