Eu não faço balanço de perdas e danos porque a conta nunca fecha. Eis, talvez, um dos segredos da vida: ela não se faz em somas e subtrações – tudo acontece ao mesmo tempo, embora a nossa lenta capacidade de percepção só consiga enxergar uma coisa de cada vez.

Não há uma compensação sequer: é uma aritmética que matemáticos e filósofos e cientistas tentam em vão traduzir, mas esta contabilidade só é acessível à própria vida.

Lembro-me de que já disseram que o orgasmo é a coisa mais parecida com a morte, é o seu sumiço do mundo, mesmo que depois você volte. Que bom ‒ e insuportável – haveria de ser se só existisse essa passagem de ida, tudo sendo só a mesma viagem! (Velho safado!, dirão).

Como ainda não estive do lado de lá, não posso lhes dar qualquer prova empírica do que mais parece poesia do que ciência (e uma não há de viver sem a outra), a não ser da tal simulação-comparação, aquela que todos apreciariam como imortal.

Se falarmos de perda, eu a tive este ano em cifras irrecuperáveis no mercado da existência, assim como ganhei uma saudade que vai se tornando cada vez mais alegre e presente: do meu amigo-irmão Fredão.

Talvez, se fosse escrever um calendário pessoal, e cada um de nós pode ter o seu, a data da sua partida – 28 de janeiro ‒ estivesse mesmo contornada em tinta vermelha. Mas seria, se vocês me permitem, negar 50 anos de convivência contínua, que haverão de valer pelos tantos ou poucos que eu ainda haverei de cumprir na sua ausência.

Racionalização, autoengano, velhice, instinto de sobrevivência? Pode ser tudo isso, ainda que eu tenha a consciência plena de que fiquei menor: perder um amigo vai além de lamentar a falta de compartilhamento de gostos e identidade. É também ver sumir um superego autorizado, com autoridade – única e intransferível ‒ para dizer quando necessário: “Perdeu o juízo? Que merda é essa é que você está fazendo?”.

A quantos, na sua vida, você daria o direito de apontar o dedo indicador em sua direção sem que a língua coce para despejar sobre o (a) outro (a) o vocabulário que a rua lhe ensinou, em tom de guerra, e que nunca conseguirá apagar – a rua de cada um ‒ da memória coletiva?

No fundo é isso mesmo: a vida só pertence a ela própria, que nos empresta um pouquinho para que possamos saber que dor e delícia são irmãs gêmeas, que nascem juntas e que juntas se vão. De início, meio e fim, aí já vira coisa do soberano acaso.

Podem estar certos de que eu não estou arrastando uma asa de tristeza, daquelas de dar dó, neste momento em que busco algumas palavras na véspera da despedida do meu cansaço (entro em férias em janeiro, como sói acontecer há algumas décadas).

Nada disso.

E quem me vê por aí com um sorriso bobo estampado no rosto de barba branca e tez escura fique sabendo que a culpa é da minha filha Camila, que acredita que ainda tenho tempo e energia para ser um avô arretado, menos chato, talvez, do que fui (e sou) como pai. Pois é, os filhos também erram.

Que venha o João Vicente, e que ele cumpra a sentença de Riobaldo Tatarana:

‒ Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar.

“E vou sair pras luas” (Guimarães Rosa).

Renan Filho tem a chance de quebrar a "maldição do segundo mandato"
Vão-se os vivos - um texto de Osvaldo Epifanio (Pife)
  • MÁRIO ALBERTO PAIVA.

    Ricardo, se eu soubesse que neto era tão bom , não tinha tido filhos, pulava essa etapa, ia direto para NETA(Nice).
    Bem vindo ao clube dos vovôs.

  • Há Lagoas

    É bom terminar o ano com este tipo de reflexão.
    A vida é um milagre!
    E um dos fatores importantes nesta tênue peregrinação terrena, é a saudade que podemos ou não deixar naqueles que amamos.
    Feliz 2019, poeta.

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Férias que se aproximam à parte (e que as tenha sempre muito boas e reconfortantes para “retornar” à lida em fevereiro…) diria que, mais uma vez, parece que alguma “tristeza” aflora da tinta (só para lembrar os velhos tempos…) de sua caneta domingueira… e mais uma vez insisto (desculpe-me a renitência…) que a Vida é muito maior que pensamos ou imaginamos ou, até, negamos por pura rebeldia ou, mesmo, um quê de “vaidade” do conhecimento adquirido e das próprias crenças (afinal, a fé na matéria bruta também é uma crença)… no entanto, como uma vez o afirmou Sócrates: “toda a sabedoria está na natureza” e com ele é que precisamos aprender… por isso que alguém afirmou um dia: “é preciso nascer de novo”… (entendam como queiram…) e até concordo com o Riobaldo Tatarana acima: “o mundo tornou a começar”, ou seja, “recomeçar”… e assim, quando tudo parece ser o fim, é apenas o recomeço sempre… tem pois, muito de verdade no cientista-filósofo que um dia afirmou: “na natureza nada se Perde, nada se Cria… tudo se Transforma”… Bom domingo.

    • Meu NOME é Gal desejando rapaz: SEM cultura NEM crença OU tradição, AMO igual!

      Com todas as [IN-]certezas do emaranhamento QUÂNTICO, caro JEu!
      debitando nas costas de Lavoisier (1743-1794) …’NADA se Perde, nem se cria… Transforma’
      [QUÍMICA de 4 arrastos], https://www.pensador.com/autor/antoine_lavoisier
      O saque-voleio a 4 toques de JOVENS e Heisenberg (1901-1976) e Schrödinger (1887-1961)
      Diante de VELHO perplexos: N-Bohr (1885-1962) e do FRASISTA A-Einstein (1897-1955).
      Haja CANETA no calo e dedos nas próstatas:
      1. A IMAGINAÇÃO é + importante q’o conhecimento.
      Anotemos com as MULHERES de todas as CORES acima de tudo:
      2. A liberação da energia ATÔMICA mudou tudo, (-) nossa maneira de PENSAR.
      Pois acima de todXs:
      3. O mundo NUM tá ameaçado pelas pessoas MÁS, e sim por QUEM permitem a MALDADE.
      4. E o NACIONALISMO é dUença infantil, coisa de PALHAÇO sarampo BOZO, cruel desumanidade.
      https://www.pensador.com/autor/albert_einstein
      E fica o amor de FÍSICA sem omelete QUÍMICA babando ova$ da peixada MATEMÁTICA cesariana facada da BIOLOGIA.
      E vamos em FRENTE q’atr´ás do Trio Elétrico vem gente PARDA balançando a praça do poeta NEGRO Castro Alves (1847-1871).

  • Antonio Moreira

    Gritei(oi,oi,oi). Nessa hora, qualquer uma dizia : Exagerado!!!
    Ah, se fossem os quinze segundos de tremedeiras!
    Magoei o meu braço. Uma tal de capsulite adesiva me obrigou fazer fisioterapia por mais de ano.

    Não adianta mais dobrar meus joelhos por 8 horas/dia na igreja para aplacar a minha dívida,
    pois os humanos já disseram que a minha conta é impagável com Deus. Quem sabe, um dia, eu
    chego lá no Céu e recebo um NADA CONSTA!

    Eu brinco com um colega de trabalho. Carlinho, Carlinho, olha a tua idade, já és avô, não
    fica bem o seu netinho, dizer: Vôinho, para de aperrear esse senhor de cabelos brancos e olhos verdes!!!

    Pois é, assim é a vida:
    Um dia meu filho estava sentado ao meu lado na minha cama.
    Eu ia levá-lo para jogar em um campeonato de futsal entre escolas.
    Gritei, me apaguei e acordei horas depois no hospital.
    Meu filho já se foi e ainda estou aqui morrendo de saudade dele.

  • amorim

    Fui e voltei para hoje ser eu. Quantas foram as viagens no tempo, no mundo da matemática, e até numa terra tão explorada como a imaginação, essa sim , a única forma de vida capaz de satisfazer o meu ego, torna-me um vencedor acima de todos, podem dizer o que quiser mas, na minha imaginação eu sou o melhor e o primeiro sem segundo.Não vou duvidar da pureza dos comentários que aqui surgirão, pois assim como me considero o melhor e o primeiro muitos estão me questionando, tipo,mas eu também sou muito bom, se não perfeito, quase, pronto, cheguei no limite da minha rica , pobre e limitada imaginação, amanhã, não sei como será, tudo pode acontecer , basta o dia nascer para a pagina ser virada, vamos recomeçar tudo outra vez .Estou nessa, paro e penso com os meus botões, pior do que esta não vai ficar, mas, é tão somente uma aposta da minha imaginação que não significa absolutamente nada, preciso esperar o dia amanhecer, botar o pé na estrada para descobrir as surpresas que nos esperam além das curvas. Sendo assim esperarei para contar os pros e contras, um pouco mais adiante. Aqui fica um adágio popular: nem tudo que reluz é ouro, então vamos esperar pelo concreto enquanto o abstrato não sai da minha cabeça.

    • Admirador DELE na Judeía do Mar MORTO, sertanejo no Rio PANEMA secado por 5 barragens em Pernambuco

      Vem ser mulher na próxima encarnação, amigo amorim!
      Dizem que um véio tarado de desejos adoravá-LAS nas raras ereções da SENILIDADE.
      E ficou amor de FÍSICA sem omelete QUÍMICA d’orla MATEMÁTICA cesariana BIOLÓGICA.
      > Dizia Alberto (1897-1955), emérito FRASISTA do Hospital Einstein
      … ‘A IMAGINAÇÃO (delas) é mais importante q’o conhecimento (nosso).
      > Observando FATOS no FaKe
      … ‘A liberação da energia ATÔMICA mudou tudo, menos a nossa maneira de PENSAR.’
      > Já temendo ZAP boatos futuros
      … ‘NUM temo ameaçadas de pessoas MÁS, e sim de QUEM permitem MALDADES.’
      > Diante da realidade PRESENTE
      … ‘NACIONALISMO: dUença infantil de PALHAÇO sarampo BOZO, cruel desumanidade.’
      https://www.pensador.com/autor/albert_einstein

  • cabralademir@ig.com.br

    Eu fico com a pureza da resposta das crianças
    É a vida é bonita e é bonita.
    Viver
    E não ter a vergonha de ser feliz
    Cantar e cantar e cantar
    A beleza de ser um eterno aprendiz

    Ah meu Deus!
    Eu sei, eu sei
    Que a vida devia ser bem melhor e será
    Mais isso não impede que eu repita
    É bonita é bonita e é bonita

    Viver
    E não ter a vergonha de ser feliz
    Cantar e cantar e cantar
    A beleza de ser um eterno aprendiz
    (Gonzaguinha)

    Parabens pelo texto
    Essa musica do eterno Gozaguinha, nos impulsiona a viver com mais alegria
    e menos ódio.
    Um 2019 repleto de realizações a todos.
    Ademir Cabral

  • Fernando Dacal Reis

    Meu caro Ricardo, o último domingo tinha que ser brilhante, principalmente, por lembrar General Fredão.
    Quero aproveitar para enviar um recado ao Fredão:
    Em 2019 vá devagar “General”.
    Em meu atual exílio terrestre a coisa mais importante que aprendi, foi que a morte não existe, temos,
    apenas, vida e uma única vida. Como se estivesse preparando sua viagem de retorno, algumas vezes você, Fred, me questionou sobre espiritualidade e trocamos algumas idéias, só que Eu não esperava que, estava tão próxima a sua partida. Deixaste uma gostosa saudade, mas, me consola a espera por reencontrá-lo.
    Chegasse dando as ordens e comandando a banda, já articulasse fazendo seu Verdão Campeão Brasileiro e o pior, para mim que deixei de gozar da sua companhia “material”, ainda levasse seu Azulão para série A. Só um iluminado como Tu teria força e energia para tanto e tão rápido.
    Pena que não tivesse como ganhar a luta contra essa doença que afeta a humanidade, mas, também, contra os desígnios do Criador era querer muito. Mas, para compensar, Deus chamou mais dois Amigos e um Irmão, que, também, não resistiram a luta contra o mesmo inimigo: Odilon, Roldão e Rafael Torres. Dá uma olhada por aí que verás, já, uma nuvem Vermelha. 2019 não será tão fácil para Você, para compensar pedi a eles para não perturbar o lado Verde do Teu coração.
    Só me resta dizer que a saudade é grande, mas, me aguarde, quero te encontrar aí.
    Aqui, parafraseando Nelson Bitencourt: “Naquela mesa (do Akuaba) está faltando Tu. (Para os incrédulos, para mim cada vez que sento lá sinto a sua companhia).
    Encerro te pedindo: Em 2019 vá devagar com o meu Galo Fredão! (Lembrando que a marcação será tripla.)
    Um abraço Ricardo e General!
    Fernando Dacal Reis

    • Desde Colonia 1500 somos Portugais & RAMALHo$ – loucura!

      E apois, caro Fernando … viemos dos tempos dos Tons de CINZA nas TV’s pós 2ª Doidícia 1939-1945!
      em 1949, Seu Otávio H-d’O (Blecaute 1919-1983), H2-O que pasarinho NUM bebe inventou o General da BANDA.
      Uma louvação a Ogum e evocação poderosa das rodas de pernada e batucadas re-inventadas nos 1970′.
      Por Elis (1945-1982 aos 36) inspirada no LP 1965 do Maestro CIPÓ (1902-1992).
      > Mourão, mourão: vara madura que NUM cai. – Catuca por baixo que ele vai.
      DE Sátiro d’M 1900-1957, Zé A (!-?) e Tancredo S (1904-1979)], com Blecaute
      https://www.vagalume.com.br/inacabada/general-da-banda.html

  • Juvenal Gonçalves

    É isso Ricardo…
    Há pessoas que precisavam, ou precisávamos que passassem em nossas vidas.
    Algumas nunca deixarão de estar presentes!
    Minhas memórias, minhas saudades…
    E elas são boas quando nos estão sempre presentes! Boas memórias!!!
    Lembro também do nosso colega Fredy catapora…
    “saudade que vai se tornando cada vez mais alegre e presente: do meu amigo-irmão Fredão.” Contemporâneo da engenharia da Ufal. Ele teve catapora àquela época, quando pagamos algumas matérias na mesma turma…
    Agora, que deixamos o amigo 2018, que já já nos deixará, esperamos o nosso novo amigo, o 2019 de braços abertos!
    Sempre haverá um novo amigo que, não substituindo o que “perdemos”, cumprirá o seu papel a que nos foi destinado, com o seu especial destaque!
    Feliz ano novo para todos nós!!!!

  • Zé MCZ

    A grande carga que alguns carregam (eu me incluo) é imaginar que tudo que fazemos, nossas ações sempre fica algo que poderia ser melhor. Sob a censura onipresente desse trambolho chamado super ego. Quem sabe seja também o seu íntimo. Mas eu ao fazer uma minuciosa autocrítica, concluo que não sou tão inútil, tampouco quero que o traste me abandone. Faz se imprescindível, para que eu não mate meu senso e ache que tudo é perfeitamente admissível. Não é não!
    Tudo que eu possa deixar de herança é que de útil aprendi: os princípios são leis imutáveis. Jamais serão relativas. Aqui Einstein foi perfeito. “Deus não joga dados.”
    Ninguém é perfeccionista (até se tenta), mas convivendo com os seres ao nosso redor podemos enfrentar os percalços inevitáveis. Admito, dá raiva! Não sou monge! Até eles têm!
    A você, como moderador desse clube da esquina nalgum lugar físico, composto de caxias a anarquistas (graças a Ricardo!), desejo ótimas férias e que o neto chegue em já em janeiro. Traga luz! Sua filha jamais errou nesse caso! São mistérios gozosos!
    Valeu!

  • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

    Caro RICARDO … que venham FÉRIAS preguiçosas em verão de CARNAVAL tardio!
    [ A um passo do desperdício] , Ricardo Mota DOMINGO 31dez17
    > […] o meu CORPO tem vergado ao peso dos tempos de agora, que EU me refaça em um leito que os do SERTÃO ainda usam [..]: uma rede.
    – Em busca do tempo perdido [M-Proust 1871-1922 …]+ 1 travessia, dolorosa e não (-)prazerosa. […] atravesse o Liso do Sussuarão, o Grande Sertão: veredas, [G-Rosa 1908-1967]
    > Perdoem-me a PRESSA […] às vésperas da preguiça […] ao desperdício […] + de ~6 milhões de acessos em 2017. (Vocês são demais!)
    http://blog.tnh1.com.br/ricardomota/2017/12/31/ode-ao-desperdicio

  • Arísia Barros dos Santos

    Que texto tão bonito cravejado da emoção preciosa, Ricardo Mota. E que junto com o neto nasça um avô. Aproveite as férias. Sou sua fã.

  • Antonio Carlos Barbosa

    Belíssimo texto velho Mota, que venha seu neto com muita saúde e paz, tornando o mundo a começar.
    Muita paz e saúde para todos.

  • Júnior

    Obrigada Ricardo pelos excelentes textos e pela pessoa que você. Boas Férias!!! Até breve!!!

  • Indignado da silva

    Valeu grande RICARDO acompanhamos os seus comentários ao longo do ano que se finda, um excelente 2019 para vc e familiares e que nos brides com suas excelentes colocações.