Que moleque folgado, aquele!

Em plena avenida – e em horário de grande movimento – fez parar o trânsito para que pudesse atravessar a rua. Ao concluir a sua “missão”, sinalizou aos motoristas que estes poderiam prosseguir viagem.

Achei muita graça na cena, deduzindo que o garoto de rua, “maltrapilho e maltratado”, exerceu ali o seu fugaz poder. E o fez com autoridade, além de um tanto de deboche, o que me agradou mais ainda. Pensei: ele tem consciência do que está fazendo e gosta de fazê-lo (depois, pude observar de longe que ele repetia a ação de quando em vez).

É sedutor o poder, muito já foi dito. Mas acho que ele envolve com mais facilidade os que são fracos ou os que se sentem vazios. Seja por buscá-lo a qualquer custo, seja pelo desejo mesquinho de consumir as sobras do farto. Mas como dizia Proust, “o desejo floresce, a posse faz murchar todas as coisas”.

As ruínas de uma existência podem surgir imediatamente após a conquista do troféu – pior ainda, se for o poder político. Pude acompanhar de perto, lamentando, a destruição de uma vida interessante de uma pessoa idem.

De sólida formação intelectual e profissional, conseguiu o que buscou quase que desesperadamente. Pouco tempo depois, me dizia aos prantos, havia alcançado o fundo do poço – a sua sensibilidade apontava.

Estava ali, à minha frente, a materialização da Carta sobre a felicidade, escrita por Epicuro, lá pelos anos 300 a.C.:

– Desfrutam melhor a abundância os que menos precisam dela; tudo que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

Ademar de Barros, que inspirou o clássico “rouba, mas faz”, foi questionado, certa feita, por que gostava tanto de ser governador de São Paulo. Respondeu com outra pergunta:

– Sabe lá o que é passar quatro anos sem pegar na maçaneta de uma porta?

Eis algumas das confusões involuntárias e previsíveis dos poderosos, autoenganos que haverão de acompanhá-los enquanto forem visíveis ao mundo: entendem bajulação como respeito ou admiração, puro interesse como amor, e por aí vai.

(De Viçosa vem uma historieta deliciosa. Um sujeito abonado e já avançado no tempo casa com uma moçoila pobre e bonitinha. Desconfiado, pergunta se ela se uniu a ele por amor ou por interesse: “Acho que foi por amor, porque eu não tenho interesse nenhum no senhor”.)

Quem busca sofregamente o poder, que esteja preparado para renunciar à possibilidade de conquistar uma amizade para valer, verdadeira. Se já tinha amigos antes da subida, que os conserve tanto quanto puder e se puder – terá sido esta a melhor obra de sua vida.

Só um amigo de verdade é capaz de apontar a falha que ao entorno parece invisível – mesmo se clamorosa -, pôr o dedo na ferida sem temer o grito do outro. Quem, estando alguns degraus acima, há de deixar aberto o canal da crítica ou até mesmo da autocrítica? A humildade morre com o humilde.

Mal comparando, o poder se assemelha à Caixa de Pandora. Mas com uma fundamental diferença: em vez da esperança, o que nela restará depois de destampada será uma imensa solidão.

Só Guilherme Boulos teve coragem de fazer campanha presidencial em Alagoas
Lula e Bolsonaro se aproximam na paixão e na rejeição
  • Juvenal Gonçalves

    Aí, Ricardo!
    O que faz perpetuar o espírito Ademar de Barros, é regador da bajulação. Os “carregadores de pastas” estão sempre a disposição!
    Lembro daquele que detém o “Oscar” da puxação: Naquela cidadezinha, numa reunião: “- Doutô, aqui só tem duas pessoa que merece minha maior consideração! Uma é o sinhô!”
    Então, logo o homenageado, incomodado, pergunta:
    “E quem é o outro???”
    Então, o grande assessor responde:
    “- O outro dotô? É quem o sinhô mandá!!!”
    É por muitos permanecem viçosos por tanto tempo…
    Bom domingo!

  • O Observador

    Prezado Ricardo Mota,
    Os seus melhores textos são os de domingo. Eles fogem à linguagem direta da crônica política da semana, vc usa muitas metáforas. Apesar de compreender um pouco o seu pensamento expresso, confesso que não é fácil.
    Mas, o que posso dizer, é que suas crônicas domicais são muito ricas em filosofia e literatura de primeira qualidade.
    Gostei muito desta. Parabéns!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo… eu acrescentaria, talvez, à última sentença: “o que nela restará depois de destampada será uma imensa solidão”… e talvez uma grande prisão (permanência atrás das grades…), nos dias atuais… não é mesmo?!!! e concordo com você quando diz que, normalmente, o que se consegue com o poder (seja político ou econômico…) são a bajulação e o interesse pessoal… (enquanto durar os tais podres poderes…)… no entanto, aquele que bem souber usar (com verdadeira humildade…) os tais poderes, fazendo com que o povo delas se beneficiem (saúde, emprego, educação….) e o faça com honestidade e transparência, esses jamais serão esquecidos neste mundo (e ainda creio que tanto a humildade verdadeira quanto a gratidão sincera jamais se extinguem, avançando muito além do que pensamos ou aceitamos…). No entanto, há que se compreender que ninguém, ainda neste mundo, é capaz de agradar à todos ao mesmo tempo… sempre haverá quem discorde, ou, como dito por um personagem de um comediante: “há controvérsias”…!!! aí, só o tempo vai mostrar com quem está (ou esteve) a boa razão… nisto temos um inesquecível exemplo deixado há mais de dois mil anos atrás… seus ensinamentos sobre a verdadeira justiça, caridade e desinteressado amor universal perduram até os dias atuais e durará para sempre (enquanto a humanidade existir…) e mais ainda, ele ainda afirmou profeticamente: “os céus e a terra passarão mais minhas palavras não passarão”… Bom domingo.

    • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

      Ao que se nos antolha, das dissimuladas subliminares contidas no atoleimado e quase “penoso” texto do “Peninha”, eu diria ser a crônica de hoje um autêntico ODE aos hóspedes da clausura social-estatal: aos que estão nas masmorras, celas e xilindrós de carceragens, presídios e penitenciárias, embora muitos ainda circulem livres, leves e soltos! – Mas não por muito tempo; espera-se!
      Aliás, muitos deLLes criticavam “o rouba, mas faz” (de Ademar), e de Maluf, mas ascenderam ao poder com o jargão do logro ou bordão de enganação: “Xô Corrupção”! – Assim sem vírgula, e o povão se deixou lograr, assim como eu que pus o “lulalá”, mas não repus! – Errar é humano; persistir jamais! Eis que, pois, até se aliaram a Maluf, e otimizaram o verbo “malufar”, após cassarem ao “caçador de marajás” mediante democrático processo de impeachment – que virou GÓPIS; recentemente! – Ainda que tenham bramido “ética, na política”!
      Há mais de 32 anos que dizem ser a solução para os males do Brasil quando eLLes é que são os males perniciosos e malefícios para o Brasil e do Brasil! 😉 🙂
      Abr
      *JG

      Resposta

      Marechal:
      Você é um fenômeno como leitor. Sua capacidade de encontrar o não dito me espanta(claro, tudo temperado no limão).
      Parabéns!
      Saudações democráticas,

      Ricardo Mota

      • Colo NOVO ou novo COLO?

        Malfa[R]dada PUSTEMA, ferida aberta a ESCARIAR, caro Bel&Cel RR ! … rsRs
        ‘Ggnorantes esquecem: numa DEMOCRACIA o monopólio da VIOLÊNCIA é do Estado!
        > Na Comarca SERVIL entregue a COVARDES desde 1817:
        – LLambendo BOTAS de belzebu$ sob comando$ nojento$ e AMBICIOSOS:
        > Contra SERVIDORES desarmados na Pça da ASSEMBLÉIA em 1998:
        – armá-LLo$-emo$ sem DÓ, ou castrá-LLo$-emo$ sem PIEDADE? … Kkkkk
        > SoRdados do Exército (59º Bat Inf Mot) tiroteIam na Pça Dom Pedro II (1825-1891):
        – Pedro II, culto Imperador cria de Zé BONFA (1763-1838), derribado p’incauto Mau DEÓ (1827-1892).
        [ 17jul15 ], http://al.al.leg.br/comunicacao/noticias/ha-18-anos-tiroteio-provoca-afastamento-de-governador
        Uma PODRIDÃO resistente a antibiótico DEMOCRÁTICO, cidadão? … Árgh, NOJENTOS!

      • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

        Réplica
        Literato “Peninha”, bem sabeis que as subliminares são dissimuladas e sub-reptícias – com ou sem limão, mas preferível pura e cristalina!
        Simples: “(…) deduzindo que o garoto de rua, ‘maltrapilho e maltratado’, exerceu ali o seu fugaz poder. E o fez com autoridade, além de um tanto de deboche, o que me agradou mais ainda. Pensei: ele tem consciência do que está fazendo e gosta de fazê-lo”(…)
        – Fantasia pura! Isso não existe mais, eLLe acabou com a miséria e a pobreza extrema, tirou o Brasil do mapa da fome, da ONU – sempre a ONU; não?
        – “Pensei: ele tem consciência do que está fazendo e gosta de fazê-lo”; será?
        Será que pensastes isso mesmo? Teria o paupérrimo e tenro ser essa “consciência”!?
        – O Garoto de rua (que não mais existe) tem consciência do que faz e gosta do que faz, menos o eleitor, sobretudo aquele que estava oculto, né?
        Mais: o “rouba, mas faz” é quase um mantra dos e para os escarlates; não?
        Abr
        *JG
        P.S.: efusivas e marciais saudações democráticas castrenses! 😉

    • Democracia ao PONTO: garçon + 1 cana, tira gosto SARDINHA péÓóRrrrr sem ELA!

      Caro JEu, … haja NOVIDADE na Comarca Servil desde 1817 … rsRs
      adoro Ro Mota inspirando APRAZÍVEIS comentários a cada DIA. Nunca faltas!
      E me divirto entre lorotas de SEM memória d’ontem NEM pinto p’HOJE … Kkkkk
      Entre CANINHA e outra no Bar da PITU em St’ANA c’mbutidos FRIOS.
      Com queijo de coalho assado QUENTE ao redor do comércio improdutivo no Sertão SECO.
      Nem o PRODUBAN (1968-1997), ‘guentou a DEMOCRATIZAÇÃO no coLLo do Sarney à VIAGRA:
      – Muita MARACUTAIA dsd 1968 em LAMA democrÔ[email protected] a partir de 1964.
      MurXado em 1985 no KAOS maroLLê[email protected] Quebrado em 1997 renderia uns R$ 410 milhões?
      – Amputaram aquilo: SEM memória de ontem NEM pinto pra HOJE ! [12nov16]
      https://oglobo.globo.com/economia/produban-banco-oficial-de-alagoas-deve-ser-vendido-caixa-20458855

  • GILDO FERREIRA DA SILVA

    Parabéns caro Ricardo Mota! Sempre nos brindando com pérolas do pensamento e da cultura universal!

  • Antonio Moreira

    Acho que no trabalho público ou privado é desnecessário bajular quem quer seja,
    mas é obrigação fazer pelos menos o feijão com arroz, ou seja, trabalhar.

    Quem nunca viu a mensagem em carro e em local religioso: Jesus está voltando!
    O que espera um(a) idoso(a) de um(a) jovem parceiro(a) – meu bem, Deus me livre
    dos seus bens, morro de medo de ir para o inferno!

    Quando eu estudava, Professores de determinadas disciplinas exigiam leituras de livros de Escritores Brasileiros e Estrangeiros pois eram assuntos de provas… Eu ficava encantando quando o/a professoro(a) falava que escritor/personagem tal era assim e assado.

    Não sei se é a idade(quase 58 anos), não dou muito importância o que disse O William Shakespeare/Platão, etc, prefiro extrair de mim mesmo a minha filosofia de vida.
    Gosto o que Dráuzio Varella escreve sobre religião, medicina, praticar atividade física, etc.

    O Prefeito apresentou um jovem rapaz a dona de uma pensão numa cidade do interior alagoano e disse a moça – Faça tudo com ele como você faz comigo.
    Depois de um dia intenso de trabalho, o rapaz, jantou e começou a ler a revista CRUZEIRO.
    De repente, ela entra no quarto dele para concluir tudo que ela entendeu que o Prefeito mandou fazer.

    Esse jovem rapaz, hoje tem mais de 80 anos. é um dos membros do Senado “B MURCHAS” da minha rua. Foi assim que escutei desse senhor em uma das pautas…
    O Nome do senado foram eles que criaram.

  • Há Lagoas

    Há algum tempo, você observou que alguns leitores de seu blog buscavam te conhecer por suas cronicas dominicais. E é fato!É parcialmente revelador a essência de sua alma naquilo que você escreve nas manhãs dominicais.
    Na minha dificuldade com a gramatica, lembro-me de meus fichamentos com relação aos textos para uma melhor compreensão a partir de um resumo, sentença ou significado.
    A frase: “A humildade morre com o humilde”, desvenda muita coisa.
    Uma excelente semana a todos.

    • Joao da TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA do Sertão – em St’ANA!

      Uma BOA semana litorânea pra Vc, Caro Há Lagoas!
      – Com OSTRAS t´umidas lacustreando entre-coxas túrgidas …
      Extensiva ao intrépido Ricardo MOTA, estrepitoso aos domingos PROPAROXÍTONOS!
      – Uma CONSTRUÇÃO (1971) à C Buarque arranjada por R Duprat destaque n’Abertura Jogos Olímpicos Rio 2016!
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Construção_(canção)
      Dos 17 versos da 1ª parte (4 quartetos +1 desfecho), emergem os 17 da 2ª parte: mudando ‘penas a úRtima palavra.
      > Amou a última, beijou a MULHER cada filho seu como se fosse o ÚNICO
      – Atravessou a RUA com passo tímido, construção fosse MÁQUINA
      > No PATAMAR 4 paredes sólidas, tijolo c’tijolo n’desenho MÁGICO
      – Seus OLHOS embotados d’ cimento-lágrima, descansar como SÁBADO
      > Comeu FEIJÃO c’arroz como príncipe, bebeu e soluçou NÁUFRAGO
      – Dançou e gargalhou com música, tropeçou no céu bêbado PÁSSARO
      https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/construcao.html

  • Carlos

    Um gesto de carência expressada nas atitudes de chamar atenção numa sociedade desde que o é mundo só é notado pelo mal que pode fazer! No do ” folgado” garoto um gesto de necessidades de carinho….