Mila, minha (muito) querida:

Há de ser lamentável, na minha idade, conversar abobrinhas em público, mas lembro aos curiosos leitores que pretendam seguir neste espaço domingueiro, a espreitar a minha intimidade, que aqui escrevo porque não navego nas redes sociais, dinossauro confesso que sou.

Não sabem eles, no entanto, que foi você quem, com sensatez, me aconselhou a ficar longe desse território inóspito e espinhento – para mim – da internet não profissional. Com a sabedoria de quem conhece o pai que tem e o mundo ao seu redor, mandou ver: “Você vai se aborrecer e se indignar muito rapidamente”.

Assim, e também por isso, conversamos diariamente ao telefone, como se usava fazer nos velhos tempos ou nos tempos dos velhos – tanto faz no meu caso.

Digo mais, porém: aprendo cotidianamente nesse convívio auditivo. E até em conversas banais você me traz boas e necessárias reflexões. Foi assim, no início da semana, quando me contou que assistiu a uma comédia francesa – Eu não sou um homem fácil -, que, se não era brilhante, lhe trouxe lembranças de várias situações vividas e não esquecidas.

O tema: o machismo nosso de cada dia, essa coisa que me parece, crescentemente, a manifestação mais primitiva da baixeza masculina, onde ela persiste (se alimentando até da difamação). Denunciado, repelido, ele ainda não foi expurgado do lado estúpido do convívio humano. E duvido se um dia será.

Pois é, filha, como somos – os homens – infantis e cruéis, tantas vezes, apesar do conhecimento perseguido e acumulado no longo e interminável caminho civilizador coletivo. Seu velho pai às vezes se pega nessa seara do preconceito, e com ele troca tabefes e desaforos até que um dos dois se renda. Cá pra nós, ando ganhando mais do que perdendo nos últimos tempos, ainda que saiba que a luta nunca cessará.

Fico até um tanto constrangido de escrever estas linhas, sabendo que você nunca permitiu ser tratada como uma “mulherzinha”, mesmo não sendo usuária de palavras de ordem, mas sempre carregando a valentia e a ênfase das mulheres com M maiúsculo (e quem quiser que ouse duvidar).

Dei-me conta, após a nossa agradável conversa, que tantos dos meus heróis cometeram atrocidade na avaliação tosca da presença feminina, indispensável, na existência da Humanidade.

Mesmo considerando a ignorância científica de então, é de não esquecer que para Platão as mulheres não tinham alma: “Apenas os homens são criados diretamente pelos deuses e recebem alma.”

Elas?

Carregavam como função primeira dar à luz um filho, de preferência do sexo masculino. No que foi seguido por Aristóteles, o mais genial dos seus discípulos, para quem “as mulheres são imperfeitas por natureza”, tanto que não podem produzir o fluido masculino – sêmen -, onde se encontrariam os produtos prontos e acabados que as “chocadeiras” implumes tratariam de transformar, com o passar do tempo, em seres humanos.

E imaginar, filhota, que sem as mulheres seríamos tão somente bichos estéreis e inúteis para a replicação da espécie. No máximo, onanistas vagando sobre a pele áspera do planeta.

Mas tudo bem: os citados são da Grécia Antiga, berço da filosofia ocidental e da democracia, ainda que desta as mulheres não pudessem usufruir – elas não eram gente para os citados e seus seguidores.

Há pecadilhos, entretanto, até entre os nossos gênios mais próximos, quase contemporâneos. É o caso de Freud – saltando alguns séculos. Talvez por descuido ou por despeito, o sujeito que desvendou a alma humana afirmou que os escritores exercem o seu talento “em busca de fama, dinheiro e do amor das mulheres”. Ele há de ter alguma razão, mas esqueceu de dizer também o que move as mulheres escritoras. Sim, porque elas existem – ou não?

(Aliás, veja que tolice: só muito depois da primeira leitura foi que eu descobri que a personagem Úrsula, criação de Gabriel García Márquez, é a grande heroína de Cem anos de Solidão. Talvez seja pela falta, então, de uma melhor compreensão da força feminina. Mas ando aprendendo um pouco mais a cada dia, esforçadamente.)

Poderia indagar, a você e a quem acompanha com paciência essa conversa particular de miudezas, por que as mulheres viraram “bruxas” na Inquisição; e por que até hoje as religiões monoteístas as tratam com tanta discriminação. É o território da violência misógina, que se manifesta de outras formas, eu sei, mas com a mesma crueldade. Deixemos isso para outro dia.

Bom é saber que quando você tiver um filho, ele há de entender, naturalmente, que os gêneros não separam as pessoas – as unem, em igualdade de direitos e defeitos.

Se filha for a sua cria, ela aprenderá, ainda nos cueiros, a ser forte, a ir à luta e se fazer mulher altiva. E vai colher dentro de casa a raiz da dignidade que carregará para o mundo como o emblema da feminilidade guerreira.

E se precisar de colo, seja qual dos dois for, há de encontrar um bem fofinho, cheio de afetos e cuidados, no mesmo ninho em que saiu do ovo.

Até logo mais para uma nova conversa ao pé de ouvido.

Um beijo desse preto velho que te ama.

 

Fora da disputa pela presidência, Collor precisa de palanque este ano
Falta uma semana para sabermos meia-verdade eleitoral
  • CICERO FREDERICO DA SILVA

    Hoje me acordei lendo ESSA sua pérola até o fim, por prazer, pois você falou de uma filha. Tenho três. Permita falar delas com orgulho: ANDRÉA, MÉDICA, AMANDA, ADVOGADA E ANDRESSA, ENGENHEIRA AMBIENTAL. SÃO ESSAS QUE ME ORGULHAM E À MINHA ESPOSA.
    UM ABRAÇO E A VIDA QUE SEGUE.

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Esse é um texto que se encaixaria muito bem no dia dos pais, que se aproxima… E fica ressaltado nas “entrelinhas” que ser pai é muito mais que ser o provedor do sustento e dos cuidados necessários pela saúde e bem estar da prole… é, mais ainda, se reconhecer “igual” aos filhos (meninos e meninas) no sentido emotivo, afetivo e de aprendizado da vida… e quando, depois, ainda chegam os netos, então tudo parece retornar ao tempo dos cuidados ao “pé do berço”… e tudo parece se repetir… e novos aprendizados surgem… e isso é viver intensamente, creio eu. Bom domingo.

  • Antonio Moreira

    Vida:
    Vejo uma formiguinha andando e penso – Posso tirar a vida dela apenas com um toquezinho de um dos meus dedos das mãos.
    Deparo com uma barata e penso – Posso sem pisar forte tirar a vida dela.
    A abelha é pequenininha, mas para se defender ela é capaz de me botar para correr.
    Todo dia tem noticiário de toda classe social – o homem matou a Mulher e uma das principais motivações
    é porque ela não quer mais a sua companhia.
    Nunca vi desentendimento entre meu pai e minha mãe. Viviam em paz sem luxo.
    A casa(alugada) era pequena, sem porta nos 2 quartos e sem banheiro e sem pia para lavar as mãos.
    Escutei muito do meu pai dizer: Não há como Deus!!! e a ultima frase dele: minha “velha” estou indo, mas você tem 4 filhos homens, tu és uma mulher rica! Eu tinha 14 anos de idade, e apenas 15minutos mais velho do meu irmão gêmeo.

    Rede Social:
    Uma pessoa disse ao Leandro Karnal, por que saiu do facebook,
    você perdeu milhares e milhares de amigos!?!
    O cantor Roberto Carlos têm um milhão de amigos!

    Eu:
    Quando eu participava de rede social não sabia que tinham pessoas que seguiam a cada linha para quem eu escrevia. Não sinto falta. Quer saber um pouco de mim, venha para o blog do Ricardo Mota.

  • Reis

    Um belo texto.Parabéns Ricardo!!

  • Sara

    Uma delicada e inteligente declaração de amor paterna.
    É um ótimo início de domingo.

  • Odilon Rios

    Linda declaração. Simples como viver. Abraços menino Ricardo.

  • PEDRO DUARTE DE OLIVEIRA

    Não me surpreendi, mas me encantei com seu texto meu caro amigo. Carinhoso,verdadeiro,poético e cheio de pontos para reflexões. Sua amizade e até cumplicidade com sua cria se evidenciam a cada frase. Quantas lições você nos oferta neste primoroso artigo. Sua cara.
    De cara você já me leva a reler, começando hoje mesmo, “Cem Anos de Solidão” – numa bela e nova edição – que acabo de ganhar de nossa guerreira Heloísa Helena.
    Obrigado por nos brindar com seus belos e inspiradores escritos.
    Um abraço do velho amigo

  • Ricardinho Santa Ritta

    Camila sempre foi na escola uma figura controversa ao normal. Avançada à frente do ‘nosso’ tempo. Que tempo?
    O filme que ela mencionou é genial, me fez eu homem me sentir diminuído perante as mulheres. Grande lição.
    E da dicotomia entre homens e mulheres cada vez mais que penso sobre a solução me deparo com
    Questionamentos como “será que se tivéssemos uma sociedade de fêmea alfa estaríamos adonde estamos?”
    Ledo engano pensar que nós de barba somos superiores, talvez tão somente aos macacos, pela evolução.
    Da brincadeira que outra mulher presidenta falou sobre homos sapiens e mulheres sapiens.
    Nossa espécie só evoluiu porque biologicamente nossos genótipos São 50% de cada lado X e Y. Mas se ultimamente nos falam sobre a importância da primeira infância eu não ouso dizer, até em homenagem à minha mãe Avany que teve dois filhos homens, pois nós passamos 90% da chamada primeira infância com ELAS. Ah, esse é o melhor momento da vida!
    Amém.
    Parabéns pelo pai que és, pela filha que tens.
    Amém a todos nesse domingo.

  • Jônatas Marinho

    A COISA MAIS LINDA QUE VI E LI SOBRE ESSE SER MARAVILHOSO!
    VALEU RICARDO E UM DOMINGO DE PAZ!
    UM BEIJO PARA MINHA FILHOTA TAMBÉM!

  • SEBASTIÃOIGUATEMYRCADENACORDEIRO

    COINCIDÊNCIAS . . . TAMBEM TENHO FILHAS E TAMBEM ESTOU RELENDO A SAGA DE MACONDO QUE MANTEM EXPRESSIVA SEMELHANÇA COM ESTA TERRA EM QUE NASCEMOS E VAMOS PARTIR . . . ÓTIMO TEXTO ! BOM DOMINGO !

  • Emanuel Amaral

    Parabéns pelo texto Ricardo!
    Também sou muito feliz por ter em meu convívio minhas três lindas netas, além da esposa, filha, nora e meu querido filho!
    Um Feliz Domingo para todos!

  • Dona de casa sem orgulho

    Amei sua declaração de amor e amizade por sua filha. Parabéns! E, realmente, ela tinha razão quando lhe orientou a ficar longe das redes sociais, rsrsrs… São por demais nocivas, rsrs!

  • Camila Mota

    Uau, que presente!!!Te amo!!!! Obrigada, por tudo SEMPRE!!!

  • Giselda Correia

    Meus filhos vivem longe😓 e tamanha è a saudade que carrego no peito sempre! Emocionei ao ler essa carta para Camila. Parabéns pai RM😘

  • Robson Costa

    Poxa Ricardo, assim não vale…

  • Viviane

    Amo muito!!
    Sensacional, meu cunhado. Como sempre!!! 😘😘

  • Há Lagoas

    “E por que até hoje as religiões monoteístas as tratam com tanta discriminação”?
    A teologia não trata sobre gênero, e o cristianismo legou a mulher – e não ao homem – a participação do nascimento do Messias.
    O respeito a mulher passa pelo crivo de todos entendermos que somos humanos, e que há uma relação necessária de interdependência para a existência da própria raça. Creio que neste quesito os dois gêneros tem o seu papel, e o respeito e a busca pela igualdade deve entender as sutis diferenças de cada um.
    Uma boa semana a todos.

  • Tiago Melo

    Parabéns Tio Rico, linda declaração de amor….! E uma pergunta… Você está prestes a ser avô? Ou é a vontade que é grande….??? rsrsrs
    Bjs para todos, Tia Tânia, Camila, Luis e Você…!!!

  • Pollyanna Rocha Torres Tavares

    MUITO LINDO SEU TEXTO RICARDO… Meu pai faleceu há mais de 7 anos, seu colega inclusive, de rádio, tv… Carlos Alberto Siqueira Torres, junto com Jorge Villar, Jalon Cabral, Luilton, no programa Rabo de Palha, na TV Gazeta. Chegando o dia dos pais e me deparo com es texto maravilhoso, cheio de carinho e amor por sua filha, é emocionante de ler. Ele me faz uma falta imensa, a mim e a minha irmã. Até hoje choro de saudade, muita saudade… Que Deus o tenha em sua infinita bondade, muita luz pra ele e pra vc, muita paz, muitos anos de vida para ver o crescimento dos seus, vc é admirável Ricardo, desde pequenininha acompanho e admiro vc. Deus te proteja hoje e sempre, Pollyanna.

  • Álvaro Antônio Machado

    Maravilha, amigo Ricardo. E eu achava que você tinha parado de compor… Belíssima canção! Como pai de duas crias femininas, entendo bem a emoção e o sentimento genuínos na sua carta que, desta vez, apenas passou pelo computador, pois foi escrita pelo coração. Grande abraço!

  • zelia

    Como lhe admiro cada vez mais. Sentindo falta das nossas conversas,das risadas, das tiradas…
    Como é bom ler um texto lindo…Fico feliz em começar meu dia assim.
    beijo no coração

  • Rosa Ferro

    Foi direcionado a Camila, mas me senti extremamente representada! Obrigada por esse texto tão maravilhoso! Sinto falta de você diariamente em minha vida. Beijos, meu velhinho!

  • Grau a Malheiros

    Eu li hoje. Leio e vejo você falando isso pra ela. É vejo os olhos de vocês cheios de amor e cumplicidade. Quanto amor!